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O filósofo Roberto Romano comenta o livro “A impostura científica em dez lições”, de autoria do francês Michel de Pracontal, à luz da onda de charlatanismo anticientífica que assola o Brasil.

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ROMANO, Roberto. Charlatanismo versus ciência. Resenhas Online, São Paulo, ano 19, n. 220.03, Vitruvius, abr. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/19.220/7696>.


Tempos atrás, quando eu ainda era ouvido pela Editora Unesp, recomendei que se traduzisse e publicasse um livro instrutivo. Trata-se do volume escrito por Michel de Pracontal: A impostura científica em dez lições. A editora o publicou.

Muitos casos por ele recolhidos de charlatanismo continuam a ser praticados de modo impune. Um deles é saboroso: no debate sobre tema delicado de saúde pública a TV francesa reuniu vários cientistas e uma vidente ou algo assim. Terminado o programa, quem venceu no parecer dos telespectadores? A vidente, claro. Situações iguais são vividas tragicamente agora. Entre os médicos infectologistas e Olavo de Carvalho, quem é preferido pelo “governo”? O sabichão, claro.

O pior no livro, no entanto, é a parte em que ele apresenta indivíduos formados em ciências, inclusive com carreira estabelecida. De repente acham melhor para si mesmos iniciar uma nova empreitada: com o uso do prestígio conferido pelo diploma e trabalhos anteriores, criam instrumentos e doutrinas salvadoras da Humanidade, vendidas a preço módico no mercado das ilusões. “É ciência!”. E aí se entende a técnica de transformar ignorância e preconceito em “ciência”. A eugenia brotou de algo assim, “cientificamente”. E rápido se tornou ideologia genocida. O Holocausto tem com ela afinidades eletivas.

Charlatanismos possuem múltiplas origens: o desejo de ganhar notoriedade, dinheiro, poder, confirmar crenças religiosas, etc. Ele não é algo circunscrito apenas à direita política, Lyssenko é prova. Muitos cientistas soviéticos alertaram contra suas doutrinas genéticas, mas o seu “produto” era conveniente para as autoridades de então. O desastre das colheitas ajudou a apressar, em prazo longo, a queda da União Soviética.

Ciência é pesquisa que reúne curiosidade, disciplina, método, experimentos, dados empíricos, matemáticos e, sobretudo, além da retidão ética, abertura da mente para o real que, por definição sempre ultrapassa o intelecto que processa supostas evidências e as confirma ou recusa. Independência diante das autoridades (ah, o velho Kant no Conflito das Faculdades...) e abertura para a crítica.

Quando lecionava, nas provas e trabalhos escritos, bem como nos seminários, estava sempre atento aos sinais gráficos usados pelos estudantes. Uma dissertação com escassos pontos de interrogações e muitos de exclamação exigia de mim conversas francas com os autores. “O senhor, ou senhora, quer a profissão do filósofo ou a do ideólogo?”, perguntava eu. E logo a seguir citava Sartre e a diferença entre os dois escritores. Infelizmente não era pequeno o número de estudantes que preferiam ficar com as exclamações: a retórica é a grande inimiga da filosofia (sabemos desde o Górgias platônico).

Mas são as exclamações que fazem o prefácio para as ideologias mais cruéis e ignaras. Ao diabo a pesquisa, o exame dos elementos empíricos, lógicos, matemáticos... Fulano disse. Debaixo do nome de Fulano pode ser encontrado inclusive muito material sério. Mas o ideólogo não o cita para pesquisar, apenas para estabelecer autoridade que silencie os objetores, os críticos. Nullius addictus iurare in verba magistri (“Não sou obrigado a jurar lealdade ao mestre”), disse Horacio em uma de suas Epístolas (1). Este preceito horaciano, de ordem ética, é ignorado pelos que seguem incondicionalmente ideologias. Digo incondicionalmente porque é possível assumir atitude ideológica sem calar a científica.

Mas o pior é o dogmatismo e a servidão voluntária dos que “juram pelas palavras de outros”. Antes desse governo, me incomodava sobremodo os frequentes “debates” nos quais Fulano ou Sicrano “esmagavam os adversários”. Olavo de Carvalho era aplaudido sempre que aplicava um golpe baixo de retórica em seus oponentes. Era como se o “debate” fosse apenas um tablado onde atletas de MMA se defrontavam.

E havia truques sutis. Certa feita um colega me convidou para certo “debate”. E me perguntou ao telefone qual minha opinião sobre o assunto em foco. Disse o que pensava. A indignação do outro lado apareceu em forma de berros. Curioso, perguntei se todos os convidados tinham a mesma opinião sobre o tema. “Claro! É a única posição válida e honesta!”. Bem, disse eu, penso diferente e portanto não posso comparecer. Mas aconselho a mudar o nome do encontro: pode ser convescote dos que pensam igual, ou simpósio. Debate é quando pessoas pensam diferente, dizem o que pensam, respeitam os demais.

Anos e anos de “debates” assim, quando identidades eram partilhadas e as diferenças afastadas, foram a iniciação aos procedimentos das bolhas nas redes sociais. E os que conseguem chegar aos palácios, colocam suas bolhas como fonte da Verdade, da Honestidade. E dane-se a ciência. Os resultados são claros nesta pandemia vivida hoje. Um presidente segue mais seu guru do que os médicos. Como a vidente da TV, citada por Pracontal: a retórica truculenta ou charlatã vence os “debates”. Já o sabia Sócrates que comparava os dogmáticos cidadãos a crianças que deveriam eleger um médico ou um cozinheiro para as dirigir. Todos conhecem a fala socrática: o cozinheiro que oferece docinhos e nenhum regime é escolhido. O médico que se dane. E assim morreu a democracia ateniense.

nota

NE – texto publicado originalmente na página Facebook do autor e reproduzido no portal Vitruvius com sua autorização.

1
“Nullius addictus iurare in verba magistri, quo me cumque rapit tempestas, deferor hospes”. Horácio, Epístolas, Livro I, epístola I, linhas 14 e 15. A frase completa de Horácio pode ser traduzida como “Não sou obrigado a jurar lealdade ao mestre, aonde quer que a tempestade me carregue, chego como convidado”.

sobre o autor

Roberto Romano da Silva é professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Autor de vários livros, entre eles Brasil, Igreja contra Estado (Editora Kayrós, 1979), Conservadorismo romântico (Editora da Unesp), Silêncio e ruído, a sátira e Denis Diderot (Editora da Unicamp), Razão de Estado e outros estados da razão (Editora Perspectiva).

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resenha do livro

A impostura científica em dez lições

A impostura científica em dez lições

Michel de Pracontal

2004

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