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português
Os entrelaçamentos, nós, entre as representações imagéticas e territorialidades possíveis na narrativa histórica a partir dos documentários “Nós que aqui estamos por vós esperamos” de Marcelo Masagão e “Rio de memórias” de José Inácio Parente.

english
The intertwining, knots, between the imagery representations and possible territorialities in the historical narrative from the documentaries “Nós que aqui estamos por vós esperamos” by Marcelo Masagão and “Rio de memórias” by José Inácio Parente.

español
El entrelazamiento, nudos, entre las representaciones de imágenes y las posibles territorialidades en la narrativa histórica de los documentales “Nós que aqui estamos por vós esperamos” de Marcelo Masagão y "Rio de memórias" de José Inácio Parente.

how to quote

JOBIM NAVARRO, Luciana. O espaço entre nós: imagem e espaço na narrativa histórica. Sobre os filmes de Marcelo Masagão e José Inácio Parente. Resenhas Online, São Paulo, ano 19, n. 219.05, Vitruvius, mar. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/19.219/7683>.


Na historiografia da arquitetura e da cidade baseada na imagem fotográfica, a utilização da câmera para o registro do espaço vai além da mera documentação. A produção fotográfica é assim parte do processo de, não apenas documentar, mas interpretar e escrever a história, criando imaginários coletivos e individuais sobre esses espaços. Nesse sentido, a fotografia é colocada como método de percepção do espaço, capaz de construir essas representações. A imagem é utilizada como instrumento de construção do imaginário das cidades, territorialidades que povoam a memória de um povo. A fotografia constitui um dos principais veículos através dos quais recebemos informações que nos levam a conhecer a realidade da cidade e arquitetura.

Em Nós que aqui estamos por vós esperamos (1), Marcelo Masagão (2), direciona o espectador através de uma deambulação pelas memórias do século 20 em uma verdadeira viagem entrecortada e entrelaçada pela recente história do mundo. Enquanto Masagão atravessa diferentes épocas e locais em uma estrutura fragmentada, trazendo imagens cotidianas dos sujeitos associadas a grandes acontecimentos humanos, José Inácio Parente (3), em Rio de Memórias (4), traça uma narrativa histórica linear, a partir de uma caminhada pelo tempo histórico tendo como ponto de partida a descoberta e uso da fotografia no Brasil e sua importância no registro e manutenção da história social na construção de paisagens brasileiras.

Fotograma do filme “Rio de memórias”, direção de José Inácio Parente
Foto divulgação [Youtube]

Apoiando-se em diferentes estruturas, ambos os filmes constroem espaços e territorialidades próprias. Porém constroem também entrelaçamentos, nós de histórias possíveis, na investigação da imagem como ferramenta, meio de transmissão e salvaguarda de uma memória cultural essencial à construção historiográfica da narrativa histórica do século 20.

Na história da arquitetura e da cidade os nós, interstícios urbanos, se definem como o espaço do encontro, da alteridade, onde se desenvolvem as relações humanas e sociais, onde a história acontece e a memória se constrói. Na história os marcos temporais dos grandes acontecimentos humanos podem ser tomados como pontos nodais. É na exploração desse caminhar entre as imagens que se abre as possibilidades de reapropriação do espaço, do lugar entre os nós da história e das cidades. A imagem não é estática, ela assume o lugar da prática, da ação no espaço, que gera o ato, mais do que o fato, histórico.

Aqui, os diretores caminham além dos entrocamentos, investigam os espaços temporais entre-nós, entre os nós. Os documentários são produzidos a partir do uso de imagens e montagens que nos remetem a memória coletiva, social. As imagens associadas dialeticamente aos espaços que elas produzem, traduzem elementos e fatos que, registrados e associados a textos e à própria trilha sonora, mostram, além da evolução da sociedade do século 20, aquilo que somos capazes de criar, destruir e amar.

Fotograma do filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, direção de Marcelo Masagão
Foto divulgação [Youtube]

Tanto Parente quanto Masagão investigam elos, resgatados e perpetuados através da imagem em nossa memória histórica e traduzidos em emoções e sentidos de nossa existência. A imagem marca assim períodos subjetivos, perdidos nas dobras do tempo, vivenciados por pessoas, sujeitos históricos, personagens conhecidos e anônimos, que realizam aquele momento recortado por meio do outro, o fotógrafo, que os observa e registra e o cineasta que resgata esses registros a fim de contar uma história. Mais do que isso registra as territorialidades dos sujeitos e suas formas de ocupar o mundo, de migrar, caminhar e transitar nos espaços, entre os espaços. Em ambos os documentários, a trilha, além do texto em off (Parente) e escrito (Masagão), conduzem o expectador, criando ritmo e dando movimento às narrativas.

Para Maria Stella Brescianni, as cidades são “antes de tudo uma experiência visual”, onde a própria representação da cidade muda de acordo com o sujeito que a percebe. Assim, a autora aponta como necessária a atenção ao tratamento da narrativa do espaço como produtora de imagens que contribuem para a compreensão da cidade, uma vez que essa narrativa “traduz o olhar do viajante e dos transeuntes mais atentos”, e cria uma representação estética do espaço (5).

Fotograma do filme “Rio de memórias”, direção de José Inácio Parente
Foto divulgação [Youtube]

Nesse sentido, Parente caminha por um Brasil colonial, escravocrata, atravessando momentos históricos de movimentações políticas e sociais, com os trabalhadores de indústrias, movimentos anarquistas e políticas higienistas, chegando ao passado recente por meio de uma narrativa que transita entre o literário e o documental, trazendo à tona os debates modernos na teoria historiográfica sobre o real e a ficção na construção da história. O documentarista traz o contexto social como pano de fundo, cenário, onde a imagem registra a memória da construção social da cidade do Rio de Janeiro. Ainda nesse sentido, ao seguir uma lógica não-linear e não cronológica em sua narrativa, Masagão força ainda mais os limites entre verdade e simulacro no fazer histórico, em 73 minutos em sua quase desconstrução do tempo, o diretor mescla imagens de acervos históricos, revistas e jornais, bem como da própria ficção do cinema, criando uma colagem histórico-literária do século 20.

Em Rio de memórias, José Inácio Parente coloca que “as civilizações que não conheceram a fotografia morreram duas vezes” – segundo ele, a fotografia é uma linguagem compreendida por todos os povos, testemunha dos sofrimentos, das lutas e vitórias e que ajuda a atravessar e perpetuar a história individual e da humanidade. Aqui, Inácio associa a descoberta da fotografia e sua capacidade de guardar a história como verdadeiro milagre, “retratos sobre papel” [...] “pintura sem palheta e pincel” [...] “a própria luz é a pintora”. Enfim revela o papel transformador da imagem. Grandes nomes são associados neste processo, como Dom Pedro II, Augusto Malta e Marc Ferrez, entre outros.

Sequência do filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, direção de Marcelo Masagão / Youtube

Cabe destacar aqui o papel do narrador, enquanto construtor da história, que também traz à tona o debate sobre subjetividade e objetividade na historiografia, que é pano de fundo para a dialética entre realidade e ficção. No processo de construção da história, da memória e do próprio acontecimento há, a partir do uso da imagem, de um lado, determinantes tecnológicos de um instrumento óptico, mecânico e químico de precisão inquestionável, de outro, o poder da escolha de quem manipula a ferramenta e do seu conhecimento e visão do mundo. No processo de construção do documentário há ainda duas escolhas, a do sujeito que produziu as imagens em determinado contexto histórico e social e a do documentarista que as seleciona a fim de construir uma narrativa especifica. Esse processo é ainda mais significativo na obra de Masagão onde a escolha da composição e do entrelaçamento das imagens cria uma narrativa conectada onde as imagens se interligam, levantando assim, questionamentos sobre a linearidade dos acontecimentos históricos, onde ações deslocadas no tempo se incorporam e dialogam.

Em Nós que aqui estamos por vós esperamos, Marcelo Masagão utiliza a velocidade dos fatos transcorridos e uma aparente desordem cronológica, criando uma representação onde os eventos se misturam a partir de nuances temáticas que se sobressaem no decorrer do século – as grandes guerras, a eletricidade, revolução industrial, revolução feminista, ditadores, arte, religião etc. – capaz de criar o esperado impacto no espectador, mostrando a capacidade de adaptação da sociedade e de sua forma de contar histórias por meio de imagens: passado, presente e a expectativa de futuro que convergem de forma dinâmica no mundo contemporâneo.

Fotograma do filme “Rio de memórias”, direção de José Inácio Parente
Foto divulgação [Youtube]

Assim, que ao contar histórias por meio do uso de imagens fotográficas é possível expandir a própria memória social da história narrada para além da linearidade do tempo, criando uma proximidade espacial na própria estrutura cinematográfica, sendo capaz de influenciar as representações que formam a memória coletiva (6) dos sujeitos sociais.

A imagem constrói, então, não apenas a História, mas histórias, por vezes contraditórias - nem sempre o que se é, é o que se vê. A possibilidade de manipulação da imagem pode emergir como forma de mudar a própria história. Ainda assim, a fotografia é revelada como ferramenta poderosa no auxílio do trabalho do historiador, na construção e na convergência da visão do público para expectativas e similaridades de um contexto que existiu, mas que também foi construído a partir do imaginário e do contexto subjetivo daqueles que a contam.

Nesse sentido, ambos os filmes tratam exatamente desse poder da imagem da memória, de sua força na construção de narrativas e imaginários sociais. A força da imagem na historiografia de um passado recente, fragmentado, em constante movimento e que se revela a partir das histórias dos sujeitos e personagens. Masagão encerra a narrativa com a imagem, que se repete durante o filme, do cemitério, que revela a relação explícita com a morte que espera por todos, mas também com as rupturas onde são apontadas “mortes” de passados para dar lugar ao novo, durante o curto, porém turbulento século de extremos mostrado.

Fotograma do filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, direção de Marcelo Masagão
Foto divulgação [Youtube]

Sugere-se no documentário a mesma dissolução da formalidade que norteou a produção do século 19, principalmente a produção espacial. Que dá lugar à um mundo amórfico caracterizado pela fluidez, pela ausência de limites e pela constante mutação em uma situação onde somente o valor da ação tem sentido. O valor da ação é reproduzido tanto na produção da história quanto do espaço e, consequentemente, na história do espaço. A estrutura fílmica de Masagão reflete, portanto, essa influência da estética fragmentada do século 20.

Para Maria Stella Bresciani (7), a história das cidades possui uma expressão estética, onde se identifica a relação entre a materialidade dos espaços e suas referências para o habitante. Nesse sentido a cidade moderna seria pautada pela relação entre o sujeito e a cidade, de dois pontos de vistas distintos, um racional e universalista e outro cultural e histórico, juntamente com o debate sobre arte e técnica na produção da cidade. Assim, procura-se entender os espaços construídos de um ponto de vista estético de maneira a compreender seu caráter visual, suas interpretações, configurações e multiplicidades a partir das imagens das paisagens urbanas.

A compreensão da modernidade e da fragmentação das cidades faz parte da aceitação da própria condição do homem moderno. Nesse sentido o moderno é o transitório, efêmero, rápido. A modernidade seria o próprio progresso e mobilidades das formas. Assim, as espacialidades são construídas a partir de representações dinâmicas, compostas pelos materiais recolhidos da memória e que atuam sobre as ideias e comportamentos individuais e coletivos. Em Rio de memórias, Parente reflete sobre tais representações dos espaços ao mesmo tempo que cria uma representação própria da cidade do Rio de janeiro o começo do século 20. Assim, a imagem seria uma ilusão de uma janela aberta para o mundo, seu conteúdo e a maneira que é decifrado, bem como, por quem é decifrado, define o sentido da imagem, a realidade que ela cria e seu papel na história.

Fotograma do filme “Rio de memórias”, direção de José Inácio Parente
Foto divulgação [Youtube]

Em um debate contemporâneo sobre o papel da imagem na historiografia, a partir de seus contextos temporais específicos, ambos os filmes trazem um convite a transitar pela própria narrativa e compreender as possibilidades metodológicas do fazer histórico a partir da produção imagética, da exploração dos limites entre os espaços literais e, bem como dos tensionamentos entre realidade e ficção, objetividade e subjetividade, na historiografia das cidades e da arquitetura. Os autores conduzem o espectador em um flanar que explora as possibilidades da narrativa imagética e de suas espacialidades no próprio fazer histórico.

notas

1
Nós que aqui estamos por vós esperamos, direção de Marcelo Masagão, filme documentário, 73 min, Brasil, 1999. Link no Youtube <www.youtube.com/watch?v=gmqXVwfUHxE>.

2
Marcelo Masagão é cineasta brasileiro, que estreou como diretor de longas-metragens com “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (1998), filme que se situa entre o documentário e o ensaio, construído a partir da montagem de fragmentos de cinejornais e documentários.

3
José Inácio Parente é cineasta brasileiro, que dirigiu A trama da rede (1980) e Acorde Maior (1983). Em “Rio de memórias” retrata a evolução e experiências fotográficas do século XIX no Brasil, mostrando a evolução da cidade, a partir do acervo original de fotógrafos como Marc Ferrez, o Imperador D. Pedro II, Augusto Malta, etc.

4
Rio de memórias, direção de José Inácio Parente, filme documentário, 47 min, Brasil, 1987. Link no Youtube <www.youtube.com/watch?v=OEP2AT5CN_A>.

5
BRESCIANNI, Maria Stella. História e historiografia das cidades, um percurso. In: FREITAS, Marcos Cezar de. Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo, Alameda, 2011, p. 402.

6
Para Maurice Halbwachs, as relações sociais estão constantemente presentes na formação das memórias e somente a partir delas o sujeito é capaz de lembrar. A memória não é individual, é social, e se o sujeito lembra é sempre por conta de uma alteridade presente, nunca é um processo totalmente individual. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo, Centauro, 2006.

7
BRESCIANNI, Maria Stella. Cidade, cidadania e imaginário. In: SOUZA, Celia Ferraz; PESAVENTO, Sandra Jatahy. Imagens urbanas. Porto Alegre, Editora da Universidade, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1997.

sobre a autora

Luciana Jobim Navarro, arquiteta e urbanista, mestre em Teoria e História da Cidade, especialista em Artes Visuais e Planejamento de Cidades e Doutoranda em História Cultural no departamento de História da Universidade de Brasília.

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