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A carta aberta aos arquitetos, professores, estudantes de arquitetura e público em geral, assinada pelos professores da AeDFAUPA, foi divulgada em Porto Alegre, no dia 30 de janeiro de 2020.

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AEDFAUPA, Professores da. Sobre a demissão coletiva na FAU UniRitter. Carta aberta aos arquitetos, professores, estudantes de arquitetura e público em geral. Resenhas Online, São Paulo, ano 19, n. 217.05, Vitruvius, jan. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/19.217/7615>.


No final de 2017, a sociedade gaúcha foi impactada com a notícia de demissão em massa de mais de cento e trinta professores do UniRitter – Laureate International Universities, culminando processo de desmonte do tradicional Centro Universitário gaúcho, de mais de quarenta anos de existência, reconhecido nacional e internacionalmente como centro de excelência do ensino superior. Mas o fato, que vinha se avizinhando já há algum tempo, não foi surpresa, pelo menos para os professores e alunos que desde a venda da instituição à rede de ensino Laureate International Universities, instituição com fins lucrativos e ações na bolsa, estavam acompanhando o inicialmente lento, e posteriormente avassalador processo de destruição de uma das melhores experiências do ensino superior privado do país.

A Sociedade de Educação Ritter dos Reis, instituição de origem familiar, iniciada na década de 1970, com os cursos de Direito e Arquitetura, nas décadas seguintes de sua criação, através do esforço de sua mantenedora, professores e estudantes, adquiriu prestigio e reconhecimento público, evidenciado nos rankings do ensino superior e nos diversos prêmios, publicações e eventos produzidos pela comunidade acadêmica, ao longo de suas mais de quatro décadas de produção intensa, começando pela próprio projeto de arquitetura do campus zona sul (premiado e publicado em livros e revistas internacionais), passando pelas propostas político pedagógicas e currículos, principalmente do curso de Arquitetura e Urbanismo, que serviram de modelo e referência, para várias instituições brasileiras e mesmo para universidades federais. Tal patrimônio cultural, qualidade e tradição no ensino, pesquisa e extensão, com o prestigio que a Ritter dos Reis adquiriu ao longo de quarenta anos de trabalho sério e consistente, é o que definitivamente atraiu o interesse e o investimento internacional do “mercado de ensino”.

Os professores demitidos foram amplamente apoiados pelo Sindicato dos Professores – Sinpro, pelos estudantes e inúmeros setores da sociedade gaúcha, através de ações jurídicas e manifestações de repúdio, conforme veiculado e registrado em dezenas de mídias da época. Logo a seguir, professores e apoiadores lograram uma série de vitórias, entre readmissão de alguns docentes, acordos favoráveis aos professores realizados através do Sinpro, recebimento de valores cortados unilateralmente pela instituição, através da justiça do trabalho, além da manutenção de outros benefícios acordados durante os processos rescisórios.

No bojo deste processo de liquidação da trajetória exitosa da Instituição, o grupo de aproximadamente vinte e cinco professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do UniRitter – FAU UniRitter, também demitidos na oportunidade, integrantes da Associação dos Docentes da Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre – ADFAUPA, fundada nos anos 1980 com o objetivo de defender a qualidade do ensino de arquitetura e urbanismo, decidiu não se manifestar publicamente. Naquela oportunidade, além do engajamento e apoio irrestrito às ações lideradas pelo Sinpro, e de uma nota paga publicada na Zero Hora, desmentindo nota difamatória anterior publicada pelo UniRitter no mesmo jornal, a ADFAUPA tomou a decisão de não conduzir nenhuma declaração em separado do grande grupo de professores demitidos, evitando assim, por um lado, contribuir com a dispersão e passionalidade natural e justificada do momento, confiando portanto na representatividade e ação do Sinpro, por outro, ganhar tempo para reunir subsídios e orientação jurídica especializada, intentando manifestar-se de forma consistente em seus interesses específicos e em momento oportuno.

Passados aproximadamente dois anos após as demissões de 2017, a ADFAUPA, após receber criterioso assessoramento jurídico do Sinpro e do Escritório de Advocacia De Rose, Martins, Marques e Vione, especializado na matéria e contratado para assessoria jurídica, a Associação alterou seu estatuto e pessoa jurídica para Associação dos ex-Docentes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Porto Alegre – AeDFAUPA – já que a maioria de seus integrantes foram demitidos – e colocou em marcha uma ação coletiva contra a demissão discriminatória e a difamação urdida pela Laureate contra os professores mais experientes da Faculdade de Arquitetura, além das diversas causas individuais que seus associados estão ajuizando contra o UniRitter – Laureate International Universities. Destas ações, a Laureate foi condenada, em todas as instancias, a ressarcir integrantes da AeDFAUPA pela nota difamatória publicada no jornal. Igualmente foi condenada em primeira instancia e em alguns casos em segunda, em ações trabalhistas contra o preenchimento compulsório de aulas não ministradas, substituição de orientadores de mestrado demitidos, por outros que não orientaram, inobservância dos interstícios interturnos.

Ainda, recentemente, na sequência das ações coordenadas pela AeDFAUPA, foi protocolada denúncia junto ao Ministério Público (em anexo), alertando a representação pública e a sociedade gaúcha, das ilegalidades daquela instituição.

Nesta oportunidade, além destas ações acompanhadas pelo Sinpro e pela assessoria jurídica contratada, apoiadas também pela realização de pesquisas organizadas pelos professores associados e assessores convidados, extensas discussões e reflexões de toda ordem, a AeDFAUPA vem finalmente, através deste documento, externar e tornar público às entidades, instituições, professores, estudantes que detêm interesse na educação superior em geral, no ensino de Arquitetura e Urbanismo em particular e à opinião pública, os fatos e questões a seguir descritos, vivenciados e testemunhados pelos integrantes da AeDFAUPA. O objetivo de tal manifestação, muito antes de apresentar qualquer retaliação ou reposta pessoal às demissões, que se fosse o caso, tal necessidade já estaria prontamente atendida pelos processos em tramitação na justiça, nesta oportunidade a AeDFAUPA objetiva não só trazer para a sociedade gaúcha o esclarecimento de sua visão em relação aos fatos ocorridos, mas também trazer às entidades e representações envolvidas, nossa profunda preocupação e inconformidade com tamanha agressão à tradição do ensino de arquitetura e urbanismo em nosso Estado, onde não só a profissão parece padecer, mas principalmente a formação dos estudantes, nosso centro principal de atenção, em especial aqueles que pagaram pelo ensino oferecido, com recursos familiares ou do poder público, através de bolsas, e que assistem atônitos, não receber o que compraram, bem como o desmantelamento da instituição que escolheram e confiaram.

Este documento é, portanto, mais que uma denúncia: É um alerta, para os que tem a responsabilidade de fiscalizar, zelar, prestigiar e valorizar a formação dos arquitetos e urbanistas, sobre o conjunto relevante de distorções, impropriedades e ilegalidades praticadas atualmente pela UniRitter – Laureate International Universities.

1. Os professores demitidos

No cômputo geral da instituição, da FAU UniRitter em particular, professores mais antigos em idade e em tempo de casa formaram a maioria dos despedidos, iniciando pelos que compulsoriamente foram afastados aos 70 anos de idade, nos últimos anos, até a demissão em massa de 2017, caracterizando demissão discriminatória, com intuito indisfarçável de afastar professores “caros”. Neste âmbito, além de professores titulados, que tiveram importante produção na criação e história da Instituição, que podem ser facilmente identificados, pois são reconhecidos publicamente – desde autores de projetos premiados para as instalações do Uniritter, da elaboração de currículos de cursos que passara a ser referência nacional, da criação da pesquisa e pós graduação pioneiras no Estado e no País, da criação de Laboratórios de Ensino, Pesquisa e Extensão de prestigio no meio acadêmico brasileiro e sul americano, da criação da Editora da instituição, uma das mais importante em Arquitetura do Brasil, da organização de viagens nacionais e internacionais com alunos e ex-alunos, de convênios com Universidades na América do Sul e Europa, do preenchimento de cargos de coordenações e de representação da instituição significativos (alguns dos demitidos foram coordenadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo por mais de dez anos) – boa parte dos professores, detinham também tradição valorizada anteriormente na UniRitter, de reconhecida carreira no exercício profissional, e importantes conquistas em concursos, premiações, publicações nacionais e internacionais, ocupação de cargos relevantes na esfera pública e privada, além da atuação em outras universidades federais e privadas. Tal produção profissional dos professores da FAU UniRitter, que era reconhecido diferencial do corpo docente da FAU UniRitter, também pode ser facilmente identificada, dada a relevância dos currículos profissionais dos demitidos.

Dentre os professores mais jovens e/ou com menos tempo de casa demitidos, em minoria, dando continuidade à tradição de qualidade da escola, a maior parte eram ex-alunos da FAU UniRitter, indicados pelos professores veteranos, e reconhecidas lideranças entre os estudantes, altamente engajados com a qualidade de ensino, e frequentemente homenageados pelos alunos nas formaturas, além de orientadores de muitos trabalhos premiados em certames acadêmicos. Estes professores, veteranos e jovens demitidos, comprovadamente contribuíram significativamente para o prestígio e a identidade da instituição. Sem desmerecer os que lá permaneceram, pelo menos por mais um tempo, nem os contratados para substitui-los, a verdade é que comprovadamente, após as demissões os valores de remuneração docente baixaram drasticamente, os encargos de horas aula e tarefas aumentaram exponencialmente, além da retirada dos professores, enquanto colegiado, de qualquer direito a voz ou voto nas decisões acadêmicas, contrariando as diretrizes do MEC. O clima de insegurança e terror no ambiente de trabalho se disseminou, com a ameaça de demissão sumária reiterada explicitamente pelo novo poder centralizado, diariamente. Restaram coordenadores de curso e de pós-graduação, com a espinha quebrada, executando ordem definidas de cima para baixo, em desrespeito aos Planos Político-Pedagógicos dos Cursos e a estrutura acadêmica vigente.

Importante lembrar que após as demissões em massa de 2017, diversos coordenadores de cursos de Graduação e Pós-Graduação, Diretores de Faculdades e toda a Reitoria, que inicialmente foram os articuladores e implementadores das mudanças, também foram demitidos, em uma espécie de queima de arquivo. Restaram ainda alguns coordenadores submissos aderentes ao novo sistema. De lá para cá, alguns destes também foram demitidos e substituídos por outros mais baratos.

2. A ação orquestrada da Rede Laureate

A mudança de regimes de horários (horas aula x hora relógio – alterada pelo UniRitter um ano antes das demissões, as quais o Sinpro reverteu na justiça), mudanças com padronização e homogeneização de currículos nacionalmente, sem observar a Lei de Diretrizes Básicas do Ensino, abandono de Planos Político Pedagógicos discutidos e aprovados em cada instituição, em longos processos participativos, sem consultar professores e estudantes, nas diversas regiões do país simultaneamente (Anhembi Morumbi, UniRitter, FMU, UniNorte, BSSP, Fadergs, FG, IBMR, UnP, Unifacs) e demissões em massa, no limite das mudanças das leis trabalhistas, além do aumento das mensalidades para 2018 (os estudantes protestaram veemente), foram visivelmente partes de um mesmo plano, elaborado sigilosamente pela Laureate, com participação de um segmento restrito de colaboradores do meio acadêmico, que mediante o compromisso de sigilo, urdiram os infelizes acontecimentos.

3. Inverdades, artificialidades e falsidades

Muitas são as conquistas, construídas através de tempo, dedicação e investimento, que neste processo foram destruídas rapidamente: O fim da pesquisa docente fora do strictu sensu e desmonte gradativo deste com fechamento de cursos de mestrado e doutorado. Aumento de aulas EAD para o máximo permitido, sendo que diversos conselhos profissionais, inclusive o de arquitetura, são contra. Fechamento da Editora Ritter dos Reis, uma das mais reconhecidas editoras universitárias brasileiras na área da arquitetura e urbanismo. Discrepância nos calendários acadêmicos, nos dias letivos e cargas horárias previstas nos currículos, acompanhada de ordem da instituição para os professores informarem no sistema de registro, aulas que não foram oferecidas. Propaganda enganosa, mentiras e ofertas de prêmios, promoções e vantagens de baixo nível acadêmico, para captação de estudantes e obtenção de vantagens que culminaram com a isenção de apresentação dos TCCs, por parte dos estudantes concluintes, caso tivessem bom resultado no Enade (os estudantes de Arquitetura e Urbanismo, incrédulos com a proposta não aceitaram, e exigiram o direito de apresentarem seus trabalhos). Não cumprimento de combinações nem pagamento de serviços docentes já em andamento, orientações com remuneração de carga horária diminuída no meio do semestre, organização de cursos de pós-graduação encerradas no meio do caminho, retirada total de qualquer apoio a viagens com os estudantes, livros prontos com data de lançamento marcada abortados, cursos de mestrado extintos, mesmo com aumento de nota avaliado pela Capes. Não remuneração de atividades extracurriculares como participação de bancas da graduação e pós-graduação, orientação integral de TCCs, organização de viagens e convênios, saídas de campo, cursos fora de sede etc. Aumento significativo de exigência de trabalho e horários, com maior desorganização da distribuição de tarefas e encargos por parte das coordenações de graduação e pós-graduação. Professores com aulas de manhã, tarde e noite em campi diferentes. Vários professores com a janela entre as aulas da noite e da manhã com apenas 9h30min de intervalo. Serviços cotidianos como fornecimento de material de expediente, cópias, “wi-fi”, apoio do DTI, internet, limpeza, segurança, instalações, manutenção, etc. se deterioraram rapidamente. A introdução do caos nos serviços de atendimento administrativo oferecidos aos estudantes, através da extinção de qualquer atendimento presencial e de telefones que não atendem. Estudantes, desorientados, seguem até hoje a margem de qualquer explicação sobre tamanha alteração nas condições para sua formação.

Em 2019/1 os estudantes do UniRitter, há menos de trinta dias do final do semestre, foram surpreendidos com o aviso de que todas atividades letivas seriam encurtadas em duas semanas, inclusive entregas, painéis de TCCs etc. Sem nenhuma explicação plausível, nem qualquer chance de diálogo, apesar dos protestos, estudantes perderam quinze dias de seu cronograma e planejamento. Ainda que tenham pago por estas horas. No curso de Arquitetura, a nova coordenação do TCC exorbitou: acatou o novo calendário e aumentou o número mínimo de pranchas do projeto final de oito para dez, restando estudantes desesperados, rezando para sair o mais rapidamente possível desta armadilha que se transformou a instituição que eles escolheram, graças à imagem de excelência que a Ritter dos Reis possuía.

A imagem depreciada da Laureate no exterior, com escândalos financeiros e dívidas de financiamentos obtidos através do ex-presidente dos E.U.A., Bill Clinton, ex-chanceler da Rede Laureate, atuando como lobista da mesma e obtendo irregularmente benefícios exclusivos (noticiado em jornais norte-americanos, já anexados aos processos judiciais e à denúncia encaminhada ao Ministério Público), completam o quadro e os fatos que foram revelando gradativamente a verdadeira fisionomia da rede.

4. Pesquisa e Acervos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Uniritter

Dentre as Faculdades de Arquitetura e Urbanismo da rede privada, no Rio Grande do Sul, a FAU Ritter dos Reis, com sua busca pela excelência, foi a pioneira no estímulo à pesquisa acadêmica, pós-graduação e posteriormente “strictu sensu” no campo da Arquitetura e Urbanismo. Ainda nos anos 1990, a Coordenação da FAU UniRitter propôs a criação do Laboratório de Computação Gráfica, objetivando a organização de um espaço que mais além de simplesmente oferecer treinamento em determinados “softwares”, prospectasse as relações entre as novas tecnologias e os processos de concepção inerentes ao campo da Arquitetura.

Assim, o Laboratório de Computação Gráfica aplicada à Arquitetura, um dos primeiros do País, logo colocou em marcha, ainda nos anos 1990, uma série de iniciativas como os Cursos de Extensão Universitária “Computação Gráfica aplicada à Comunicação Visual”, inédito e pioneiro no país e a primeira pesquisa acadêmica da instituição “Computação Gráfica aplicada à apresentação do Projeto Arquitetônico”. Na sequência, a FAU UniRitter criou uma série de Cursos de Pós-Graduação “latu sensu”, em nível de Especialização, tais como “O Ensino do Projeto de Arquitetura”, “Razões da Arquitetura Moderna” e os cursos de “Arquitetura de Interiores” que são oferecidos até hoje. Todos com professores titulados da UniRitter, UFRGS e outras instituições. Posteriormente, a Coordenação do Curso com o apoio da Direção, organizou curso de mestrado “strictu sensu”, com o Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Propar da UFRGS, em edição fora de sede, com o objetivo exclusivo de titular seus professores. Finalmente, já nos anos 2000, foi criada comissão para articular com o Mackenzie e a seguir para formar as bases do curso de mestrado “strictu sensu” criado em associação com a prestigiosa Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, o primeiro do País, aprovado pela Capes, oferecido através da associação entre instituições de ensino – IES.

Na sequência, dentro da implantação do Plano Pedagógico da Instituição e da formulação do Currículo Pleno da FAU, estabelecidos dentro das Leis de Diretrizes Básicas do Ensino, formuladas pelo MEC naqueles anos, a Coordenação do Curso de Arquitetura, após a realização de dois seminários de ensino, envolvendo a participação de professores, estudantes e direção, propôs, concomitantemente ao novo currículo, a criação de três laboratórios, vinculados a cada área do conhecimento no campo da Arquitetura e Urbanismo (na oportunidade ainda organizados em departamentos), como segue:

4.1. Núcleo de Projetos

Laboratório do Departamento de Projetos, com objetivo de reunir, em um mesmo espaço físico, atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão. Com atividades como viagens internacionais, viagens regionais, palestras, aulas inaugurais com convidados nacionais e estrangeiros e a coordenação do Trabalho Final de Graduação do Curso de Arquitetura, operando no mesmo espaço físico onde a sinergia acadêmica, entre os três níveis, era intensa. Com isto, o Núcleo de Projetos tinha na área da pesquisa um dos seus pilares, e ao longo de seus mais de vinte anos de existência, sediando boa parte das pesquisas científicas relacionadas aos processos de projeto. Durante sua existência foram realizadas no Núcleo de Projetos pesquisas que envolveram dezenas de bolsistas de iniciação cientifica e mestrandos.

4.1.1. Acervos produzidos

4.1.1.1 Arquitetura de concursos

Dentre as pesquisas desenvolvidas no Núcleo de Projetos, está a formação do grupo de pesquisa “Arquitetura Contemporânea no Rio Grande do Sul” que já há mais de quinze anos realiza pesquisas na área. O grupo, composto da associação entre FAU UniRitter, FA/UFRGS e IAB/RS, dentre outras iniciativas, colocou em marcha a criação do Acervo “Arquitetura de Concursos do Rio Grande do Sul” com o objetivo de pesquisar, sistematizar e disponibilizar para professores, estudantes, arquitetos e pesquisadores, os projetos premiados nos concursos públicos de Arquitetura e Urbanismo realizados no Rio Grande do Sul. Ao longo da pesquisa, mais de trezentos projetos foram sistematizados e disponibilizados para consulta no site do UniRitter ou, em maior resolução, através de publicação realizada na forma de CD-ROM. O Acervo ganhou premio oferecido pelo Sinepe e foi exposto internacionalmente em certames importantes, como: Congresso Brasileiro de Arquitetos no Rio de Janeiro, Bienal de Arquitetura de São Paulo, Na FAU/UP em Buenos Aires, na FA da Universidad de Chile em Santiago, no Docomomo Brasil em Porto Alegre, além de diversas faculdades de arquitetura do Rio Grande do Sul (FeeVale, Ulbra Santa Maria, Unisc Santa Cruz etc.).

Com o ingresso da Laureate na UniRitter, em um primeiro momento todas as pesquisas foram cortadas, inclusive esta. O acervo que estava disponível on-line, sob o argumento que houve um acidente no servidor, foi tirado do ar e nunca mais retornou. Atualmente a pesquisa segue com FA/UFRGS e IAB/RS e está novamente disponível para consultas no site da UFRGS: https://www.ufrgs.br/arqconcursosrs.

4.2. Trabalho Final de Graduação – TFG

Com o Currículo Pleno da FAU Ritter dos Reis, em mais de cinco mil horas aula, os estudantes de Arquitetura e Urbanismo, para realizar seu TFG, necessitavam integralizar todos os créditos anteriores, na forma de pré-requisitos. Assim, o estudante cursava exclusivamente o TFG, podendo optar em fazer em um ou dois semestres, com carga horária de vinte horas semanais, onde ele possuía à sua disposição, além de orientador escolhido dentre os professores arquitetos da escola, orientação geral com os professores do Núcleo de Projetos (que realizavam as bancas) e professores do departamento de tecnologia e Teoria e História e Critica da Arquitetura. Este arranjo, conjuntamente com a convivência com as pesquisas e atividades de extensão promovidas pelo Núcleo de Projetos (Viagens nacionais e internacionais, todos os semestres, por exemplo), davam ao concluinte condições extraordinárias de realização de seu TFG, fato atestado pela quantidade de prêmios que os TFGs da UniRitter ganharam em certames da área, internacionais (Archiprix), nacionais (Opera Prima) e regionais (IAB/RS).

4.2.1 Acervo do TFG

Nesta perspectiva, os professores do Núcleo de Projetos criaram sistemática, na qual toda a produção do concluinte, desde suas pesquisas iniciais, até o trabalho final, fosse organizada em um álbum, formato A3, que com a avaliação recebida pela banca, ficava armazenado para consulta de estudantes e professores de todos os níveis do curso. Este precioso acervo, criado ainda no final dos anos 1990, até o final de 2017 contava com aproximadamente dois mil projetos de TFG, de diversos temas, e um sistema de consultas operado por monitores, dentro do Núcleo de Projetos, extremamente eficiente.

A Laureate, após as demissões de 2017, extinguiu o Núcleo de Projetos, demitiu os professores responsáveis, obrigou os estudantes a cursar o TFG em dois semestres, continua cobrando vinte horas semanais, mas só oferece em média cinco horas semanais de atendimento ao estudante. O restante é classificado como “desenvolvimento do trabalho” e não há qualquer orientação disponível. O Acervo do TFG está abandonado, sem monitores para operar, desorganizado e vulnerável a ações destrutivas, o que já está ocorrendo.

4.3. Laboratório de Teoria, História e Crítica da Arquitetura

Para o Departamento de Teoria e História da Arquitetura foi criado o LTHC, onde o objetivo era, entre outras ações acadêmicas, criar um centro de excelência na pesquisa e documentação sobre a Arquitetura e Urbanismo no Rio Grande do Sul, Brasil e América Latina. Constituíram o LTHC professores dedicados a esta área, onde alguns, ao longo do tempo, conquistaram o reconhecimento como pesquisadores sobre a Arquitetura no Rio Grande do Sul e o LHTC centro de excelência na constituição de acervos e pesquisas da Arquitetura brasileira, comprovado pelas diversas pesquisas e livros publicados, além de seminários, congressos, exposições, viagens e eventos, nacionais e internacionais organizados pelo LTHC.

O LHTC recebeu lugar privilegiado junto ao principal átrio da Faculdade, com amplo espaço para trabalho de bolsistas e pesquisadores, mapotecas, arquivos para diapositivos, estantes para publicações etc.

4.3.1 Acervos produzidos

4.3.1.1. João Alberto da Fonseca

Durante os anos 1950 a 1970, período áureo da Arquitetura Moderna Brasileira no Sul, os arquitetos gaúchos contavam com um raro profissional para registrar suas obras: João Alberto da Fonseca, um dos poucos fotógrafos profissionais brasileiros especializado em arquitetura e design nestes tempos. João Alberto era chamado pelos principais arquitetos da época e fotografou suas principais obras em condições extraordinárias: Obras recém feitas e acabadas, de acordo com a concepção original, fotografadas pelo olho singular do fotógrafo, em diálogo com os autores. Com o passar das décadas muitas destas obras desapareceram ou foram adulteradas, os autores faleceram e/ou a documentação de projeto se extraviou, como infelizmente ocorre com frequência no Brasil. Portanto, para muitas obras importantes do Rio Grande do Sul como a Ceasa, Hipódromo do Cristal, Auditório Araújo Vianna, Refinaria Alberto Pasqualini, Palácio da Justiça e outras tantas, os melhores, senão os únicos registros, são as imagens produzidas pelo Fotógrafo João Alberto da Fonseca, na forma de mais de oito mil imagens produzidas, desde negativos ainda em vidro, até imagens digitais, já nos anos 1990.

João Alberto, quando decidiu se aposentar, procurou seu velho amigo, Claudio L. G. Araújo, professor da Ritter e coordenador do Núcleo de Projetos conjuntamente com o Prof. Sergio M. Marques, que ao entender a importância do material do João Alberto propôs a FAU UniRitter de receber, organizar e disponibilizar seu acervo. A direção, coordenação da escola e professores do LHTC não pestanejaram em empreender todos os esforços para a organização do acervo: O material veio para o LHTC, João Alberto foi contratado pela instituição para junto com equipe organizar todo o material. Durante anos, João Alberto, e equipe classificaram, identificaram, catalogaram e digitalizaram os mais de oito mil negativos. O acervo foi sistematizado para consultas “on-line no site da UniRitter e serviu como fonte primária para inúmeras pesquisas e publicações aos pesquisadores de todo o Brasil e exterior.

Com o ingresso da Laureate na UniRitter, o privilegiado espaço do LHTC foi substituído por uma nova sala para atendimento ao público e matrícula de iniciantes. O LHTC foi transferido para um subsolo, na extremidade do edifício, onde era um depósito da biblioteca, e onde já não cabiam todos os equipamentos. João Alberto foi embora, logo a seguir faleceu e a equipe foi desmontada. O acervo “on-line”, com a mesma desculpa de um acidente no servidor foi tirado do ar. Mais recentemente, com a compra da FAPA, na zona norte, pela Laureate, o LHTC foi transferido para lá, perdendo toda sua conexão com o curso de Arquitetura, tradicionalmente sediado no campus da zona sul. Atualmente o paradeiro dos negativos e sua organização é um mistério.

4.3.1.2. Acervo Julio Nicolau Barros de Curtis

Julio N. B. de Curtis, um dos pioneiros na luta pela preservação do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional Brasileiro, foi integrante do IPHAN toda a sua vida e presidente da entidade durante muitos anos. Foi também o criador e professor da disciplina Arquitetura Brasileira na FA/UFRGS, realizando anualmente viagens de estudos pelo patrimônio histórico brasileiro que são antológicas para a história do ensino e da Arquitetura no Brasil. Curtis, colecionador, reuniu ao longo de sua vida, coleção única de artefatos, obras de arte, livros, “slides” e documentos relacionados à Arquitetura brasileira que transformaram sua casa na Praia de Belas em uma espécie de museu, que por ocasião de sua aposentadoria, alimentaram a última atividade de Curtis antes de falecer: o antiquário “Curtição” na rua dos antiquários em Porto Alegre. Porém, pouco antes de sua aposentadoria, Curtis, em contato com seu amigo e admirador próximo, professor do UniRitter, concordaram em passar à FAU UniRitter boa parte de seu acervo, principalmente livros e slides, o que igualmente foi prontamente realizado pela instituição. Esta iniciativa capitaneada, produziu um acervo especial denominado “Acervo Julio N. B. de Curtis” na biblioteca, com livros e milhares de slides de época do patrimônio histórico brasileiro, além de um livro, publicado pelo UniRitter, com depoimentos do velho professor, meticulosamente organizado pelo prof. Maturino Luz.

Com a entrada da Laureate, todo o acervo da biblioteca da FAU, referência reconhecida como a melhor biblioteca de arquitetura do Rio Grande do Sul e uma das melhores do Brasil, inclusive o acervo Curtis, entrou em colapso. Livros deixaram de ser tombados e colocados em seu devido lugar, o atendimento aos estudantes minguou e a consulta passou a ser caótica. Há boatos que a biblioteca está sendo canibalizada para subsidiar outras bibliotecas da rede Laureate. Com o desleixo e o desatendimento, vandalismos e roubos aumentaram e hoje o paradeiro do acervo Curtis é desconhecido.

4.3.1.3. Acervo Azevedo Moura & Gertum

Muitos pesquisadores e arquitetos têm consciência que não bastam excelência e profissionalismo para realizar arquitetura de qualidade. É necessário que os demais segmentos envolvidos, como clientes, contratantes, construtores e projetistas complementares, tenham também excelência, além de compreender o significado cultural da Arquitetura e Urbanismo. No Rio Grande do Sul, dentre as construtoras atuantes no mercado de mais prestigio entre os arquitetos foi sem dúvida a Construtora Azevedo, Moura & Gertum, construtora de origem familiar, de ascendência alemã, que durante mais de quarenta anos construiu muitos dos principais edifícios modernos da cidade, como o Hipódromo do Crista, por exemplo. Fechada nos anos 1970 por questões econômicas, a construtora deixou um vasto e riquíssimo acervo, na forma de projetos, originais, desenhos e documentos da Arquitetura gaúcha, inéditos e únicos. Tal acervo, passou décadas inacessível, depositado em imóvel da família, pendente de questões jurídicas advindas do fechamento da empresa.

Quis o destino que Carlos Moura, arquiteto e professor da FA/UFRGS, e um dos herdeiros da empresa, encaminhasse seu filho Lucas Moura, para estudar arquitetura na UniRitter, dado o prestigio da escola naqueles tempos. Seu filho teve tal envolvimento com o curso e a instituição, que ao termino, tomou a decisão de junto com o pai, desembaraçar o acervo da construtora e doá-lo à Ritter dos Reis. Novas providências foram tomadas pela instituição para receber, classificar, armazenar, digitalizar e disponibilizar este enorme e importante acervo. Tal trabalho, ainda incompleto, chegou a produzir, conjuntamente com o Acervo João Alberto da Fonseca a publicação “Imagem e Construção da Modernidade em Porto Alegre – Acervos Azevedo Moura & Gertum e João Alberto” publicado pela editora Ritter dos Reis. Com a entrada da Laureate, todas as ações em relação a este acervo, que ainda estavam em andamento foram suspensas e o destino do acervo é também desconhecido. A Editora Ritter dos Reis foi fechada com o cancelamento de livros que estavam já no prelo e data de lançamento marcada, causando prejuízos aos autores e frustação de expectativa da comunidade acadêmica.

4.3.1.4. Acervo Charles René Hugaud

O professor Charles Renné Hugaud foi um dos primeiros arquitetos formados no Estado, curso de arquitetura do Instituto de Belas Artes. Fez carreira como professor e arquiteto do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, integrando a equipe autora do projeto para o Centro Administrativo do Estado – CAERGS, marco da arquitetura moderna brasileira no Sul. Como funcionário público realizou ainda um sem número de projetos para a rede de escolas públicas, além de casas e agências bancárias em seu escritório. Convidado pelo Prof. Flávio D´Almeida Reis, ajudou, junto com o Prof. Cairo A. da Silva a montar o curso de Arquitetura da Ritter dos Reis nos anos 1970. Conjuntamente com o Prof. Cairo, projetou a sede da instituição, atual campus zona sul, premiado pelo IAB/RS. Foi vice-diretor da escola durante muitos anos e atuou no Núcleo de Projetos/TFG até a sua aposentadoria. Antes de falecer nos anos 2000, doou à FAU UniRitter todo o seu acervo pessoal: livros, slides e projetos, que começaram a ser organizados e catalogados por bolsistas e pesquisado por mestrandos e professores, como a própria Profª. Luciana Fonseca, atualmente presidente da AeDFAUPA. Atualmente o acervo tem destino desconhecido e incerto.

5. Mestrado strictu sensu Mackenzie/UniRitter

Em relação aos acervos, além dos já citados problemas do mestrado Mackenzie/Ritter, é importante lembrar, o importante acervo que estava em marcha, incialmente, com a pesquisa docente e de mestrandos associados ao programa. Curso de Mestrado inédito no Brasil, criado com a associação entre IES, reuniu duas instituições brasileiras que adquiriram, ao longo da sua história, além de prestígio acadêmico pela excelência e seriedade de suas ações, reconhecimento específico na formação de profissionais competentes no exercício do ofício. Mackenzie é, e UniRitter era, duas referências brasileiras em escolas onde o fazer e o domínio do projeto, como especificidade do arquiteto, são o fundamento principal. Portanto, era natural, que o mestrado resultante desta associação, tivesse como foco o Projeto de Arquitetura, eliminando também qualquer sombreamento e concorrência com o foco dedicado à Teoria, História e Critica pelos excelentes Propar / UFRGS em Porto Alegre e pela FAU/USP em São Paulo. Com isto, foram envolvidos no corpo permanente deste mestrado, em principio, professores e pesquisadores da FAU UniRitter e FAU Mackenzie com o perfil correspondente à pesquisa e à prática do projeto de Arquitetura, e as pesquisas naturalmente seguiram nesta direção, obtendo, em um primeiro momento, ótimos resultados.

Com a entrada da Laureate e o enfraquecimento da pós-graduação em geral na UniRitter, a composição do corpo docente perdeu qualquer critério. Todas as decisões passaram a ser tomadas sem qualquer participação do corpo docente, que assistia atônito mudanças de critérios, cortes de apoio financeiro de qualquer tipo tais como participação em congressos, vinda de participantes de outros Estados para as bancas e viagens de estudos com os pós-graduandos, enquanto as exigências de produção científica aumentavam, inclusive de participação em congressos. Restrição de informações privilegiadas acessíveis apenas à Coordenação do curso tais como viagens, vinda de convidados, bolsistas e bolsas. Boa parte dos veteranos e mais experientes foi demitida ou se demitiu. Algumas pesquisas financiadas pela Capes, ainda que com o compromisso firmado pela Reitoria da Laureate foram abortadas unilateralmente sem nenhuma explicação, trazendo prejuízos às pesquisas e aos pesquisadores. O Mackenzie concluiu o tempo de associação e encerrou qualquer relação com o UniRitter, ainda que esta, capciosamente, tenha mantido o nome “mestrado Mackenzie/Ritter” no seu site, até recentemente. O Mackenzie se ressente por falta de repasse de valores acordados na associação. Os professores de pós-graduação assistiram constrangidos seus orientandos serem pressionados pelas coordenações a anteciparem a conclusão de seus trabalhos, a tempo de serem contratados para substituírem os professores que ainda seriam demitidos. Os que tinham concluído as orientações e os trabalhos estavam prontos, faltando apenas a defesa, a Laureate, através das coordenações, substituiu os orientadores, colocando, em seu lugar, professores coagidos que não tiveram nenhuma participação na orientação, fraudando a autoria de orientação dos trabalhos. Em um caso, em que o trabalho já estava impresso para distribuição para banca, o nome do orientador foi substituído por adesivos. Em substituição aos professores demitidos, a Coordenação do Mestrado em Arquitetura UniRitter, foi obrigada a alocar professores doutores de outros cursos e/ou outras áreas do conhecimento, fora do campo do projeto de arquitetura: profissionais do Design, Educação, Geoprocessamento e outros, são agora pesquisadores e orientadores de mestrado em projeto de Arquitetura (alguns, porque outros destes também já foram demitidos, inclusive a Coordenação do mestrado, substituída duas vezes). No site, no entanto, até o final de 2019, ainda constava Mestrado Mackenzie / UniRitter e a nominata dos professores era a original, quando da criação do curso.

6. O Enade e o final de um ciclo

Por fim, concluindo esta narrativa, de tristes acontecimentos, representativos de tantos outros que permearam a vida acadêmica de diversos professores e principalmente de estudantes, principais vitimas deste processo destrutivo, vale apena apontar dois fatos culminantes, que revelam por um lado certa perversidade, por outro, certa insanidade do cenário promovido pela Laureate.

Necessitando de melhores resultados no Enade, já que na avaliação anterior a instituição teve mal resultado, decorrente da baixa apreciação dos itens que dependiam dela mesma e do alto índice de rejeição dos alunos à nova mantenedora e à primeira leva de demissões em 2014, a Laureate, em 2017 mobilizou considerável força tarefa de pró-reitores, coordenadores e professores para preparar e estimular os estudantes a “vestirem a camiseta” e obterem bons resultados, em prol do prestígio da instituição (1). Os professores envolvidos no processo do Enade, em 2017, eram chamados de “tutores” e tinham em sua conta uma ótima avaliação discente que justificava, por parte da instituição, sua presença na tarefa. Destes, alguns foram a afastados do processo porque não concordaram com as estratégias propostas pela Laureate e muitos foram demitidos posteriormente. Aos estudantes, não faltaram oferta de brindes, prêmios e facilidades contraproducentes ao ensino já citados. Findo o processo, em que professores e alunos tiveram bom nível de engajamento e bons resultados, em poucas semanas a instituição mudou toda a grade curricular, sem qualquer aviso prévio e sem grade de equivalências, extinguiu disciplinas e sequencias inteiras, extinguiu laboratórios e cursos de pós graduação, diminuiu a carga horária das graduações, diminuiu o tempo de duração da hora aula,  aumentou o preço do crédito e demitiu mais de 150 professores, muitos dos mais renomados e antigos, assim como todos os normalmente homenageados  pelos alunos nas formaturas.

Na véspera da demissão, deram um “mimo” a cada professor: um “cooler” e uma convocação para encontro com o coordenador a fim de “planejar” o próximo semestre. 150 professores, com o “cooler” na mão, em fila nos corredores da escola, sendo demitidos a cada 15 minutos. No final do dia a Diretora da Faculdade (que não era arquiteta, contrariando a LDB), coordenadora do Enade e toda a reitoria também foram demitidos. Seria um quadro de Salvador Dali se não fosse bruto.

A Formatura do curso de Arquitetura, da turma de 2017/2 realizada em 26 de janeiro de 2018, não poderia ser mais emblemática deste processo: a paraninfa havia abandonado a instituição, dois dos três homenageados presentes eram demitidos, o coordenador do curso foi vaiado pela plateia, o novo reitor terminou seu discurso em silêncio cavernal, sem receber qualquer aplauso, o representante do IAB - RS entregou a indicação ao prêmio Albano Volkmer, de melhor trabalho do semestre, para a formanda orientada por um professor demitido e homenageado. Os formandos por sua vez, homenagearam nominalmente cada um dos demitidos do curso de Arquitetura. A plateia, de um Auditório Araújo Viana lotado, se ergueu e ovacionou de pé. Lembrando que a cerimônia foi celebrada dentro de edificação, patrimônio histórico do município de Porto Alegre, cuja revitalização contou com dois professores demitidos.

Para ficar apenas no ano de 2017, paraninfa e homenageados da formatura do semestre anterior também foram todos demitidos. A indicação do prêmio Albano Volkmer de 2017/1 foi dada ao formando orientado pela professora paraninfa demitida.

Por fim, diante de todas circunstancias expostas acima, e muitas outras, a mobilização da AeDFAUPA, já com mais de uma dezena de ações na justiça comum, vem expor junto ao conhecimento público, não só o conjunto de distorções, desmandos e irregularidades da Laureate International Universities no Brasil, mas mais do que isto, denunciar a dilapidação e perda de um importante patrimônio cultural do Estado do Rio Grande do Sul, que teve de imediato as principais vítimas, muitas ainda reféns: os estudantes.

nota

1
Importante destacar que a então reitora, em reunião de congregação, com todos os professores da instituição, colocou a culpa do insucesso no Enade anterior, nos professores de Arquitetura, sendo que a Reitoria trouxe professora especializada na matéria, de São Paulo para explicar as razões do insucesso e da nota baixa da instituição, a qual, para surpresa dos que assistiram a exposição de suas conclusões, declarou, expondo dados, que o índices de medição de qualidade acadêmica, principalmente da Arquitetura, eram ótimos. O que estava ruim eram os parâmetros que dependiam da instituição e reitoria.

sobre os autores

Os professores da Associação dos ex-Docentes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Porto Alegre são membro originalmente da Associação dos Docentes da Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre – ADFAUPA, fundada nos anos 1980, entidade que mudou seu nome após a demissão coletiva da maioria de seus membros.

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