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Análise do filme Playtime (Jacques Tati, 1967) no quadro das críticas aos postulados modernos e do processo de desagregação do modernismo arquitetônico nas décadas seguintes ao pós-guerra na Europa, abordando os aspectos técnicos e a narrativa do filme.

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LUCCA NETO, Luiz de. A (pós-)modernidade arquitetônica segundo Jacques Tati. Resenhas Online, São Paulo, ano 19, n. 217.03, Vitruvius, jan. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/19.217/7599>.


O período que compreende as décadas de 1940 até 1960, precisamente o do pós-guerra, é constantemente associado ao clímax da sociedade moderna, do acelerado processo de modernização urbana durante a reconstrução dos países europeus afetados pelas Grandes Guerras e de ampla e, também, vertiginosa urbanização e expansão do capitalismo nos países periféricos. Do mesmo modo, consiste na inauguração das primeiras revisões e críticas da modernidade com a ascensão de uma sociedade massificada e de consumo, de matriz individualista, marcadamente pós-moderna.

O filme Playtime (1) de Jacques Tati se insere neste contexto através da crítica distópica e cômica dos padrões e do modo de vida da sociedade no mundo moderno, caricaturando o ponto de chegada de uma modernização que se prometia redentora (2). Não somente se propõe a retratar o momento histórico do pós-guerra europeu representando a euforia do progresso e da renovação urbana, como se alinha temporalmente a uma considerável quantidade de obras emblemáticas da revisão crítica do modernismo na década de 1960, de autores que se tornaram canônicos na historiografia sobre o assunto, como Jane Jacobs (3), Robert Venturi (4) e Aldo Rossi (5). No cinema, além de Playtime, lançado em 1967, o contemporâneo Deux ou trois choses que je sais d'elle, de Jean-Luc Godard, apesar de pensado noutra corrente cinematográfica, também se inscreve na representação da sociedade de consumo e das contradições da modernização na Paris da década de 1960.

Contradição é exatamente o termo que define o universo explorado por Tati em Playtime que revela, de modo irônico, o ponto de chegada da modernização na Europa cujas cidades são, ao mesmo tempo, resultado da mais apurada aplicação dos postulados da urbanística moderna e espaço das mais cômicas irracionalidades proporcionadas justamente pela automatização da sociedade e universalização da paisagem urbana.

Direção

Jacques Tati é um cineasta francês nascido em 1907 e que iniciou sua carreira como ator, tendo dirigindo e atuado alguns de seus próprios personagens em seus filmes, como é o caso do próprio Monsieur Hulot, interpretado por Tati em Playtime e em filmes anteriores como Vacances de Monsieur Hulot, de 1953, e Mon Oncle, de 1958, e posteriores como Traffic, de 1971, cuja distribuição no Brasil recebeu o inusitado título As aventuras do Sr. Hulot no Trânsito Louco. Tati iniciou sua carreira artística na música e no teatro, dirigindo seu primeiro filme em 1947 e se destacando com suas comédias críticas e seus personagens emblemáticos como Hulot, que muito lembra o personagem icônico de Chaplin em Tempos modernos, de 1936, com seu jeito atrapalhado e desajustado ao mundo em rápida transformação.

Sinopse

Playtime apresenta o personagem Monsieur Hulot, um senhor alto e desajustado, em seus passeios pela Paris pós-moderna, encontrando pessoas habituadas ao ritmo acelerado e utilitário da cidade genérica. Em suas andanças, Hulot é atravessado por hordas de turistas e pelas mais diversas pessoas, funcionários de torres de escritórios, oficiais, vendedores em feiras de bugigangas tecnológicas esbarrando, até mesmo, um antigo colega de exército do período da guerra, que agora vive num apartamento funcional. Barbara, uma turista americana que visita a cidade, divide com Hulot o protagonismo e a sensação de deslocamento.

Cena do filme Playtime, de Jacques Tati
Foto divulgação

Análise fílmica

A Paris de Tati é o reflexo da racionalidade, do excesso tecnológico e da consagração do consumo, uma cidade atravessada por turistas que se deslocam pelo ambiente genérico de uma arquitetura e cultura universais. As cidades, antes definidas pelas suas características particulares, pela paisagem e costumes próprios, agora desfrutam de uma arquitetura padronizada e internacional aos moldes do movimento moderno, sob fluxos organizados e planejados, torres espelhadas e edifícios em lâmina. Através da comédia, Tati satiriza o que se tornou a sociedade no ápice da modernidade, que se prometia, justamente, como redenção humana.

Durante as décadas de 1950 e 1960 ganham destaque, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, as primeiras críticas que buscam revisar os postulados do urbanismo moderno em pleno ambiente de contestação da contracultura questionando, como produto da modernização, a cidade resultante de tais práticas (6). Os Situacionistas vão propor novos aspectos, pessoais e psíquicos, como fatores de escolha na apropriação de cada indivíduo na cidade, materializados na famosa colagem The Naked City. A radicalidade com a qual a primeira geração de modernos tratou as cidades históricas, com propostas de terra arrasada para a construção de lâminas e torres modernas, a exemplo de Corbusier em seu Plan Voisin para a mesma Paris em 1925, fez com que Aldo Rossi reiterasse a necessidade de diálogo entre arquitetura e história, evocando o peso destas para as cidades italianas.

Esta ambivalência entre patrimônio e cidade moderna aparece em Playtime de uma forma bastante sutil e indireta. Apesar da Paris moderna retratada na comédia de Tati, os simbólicos patrimônios da cidade ainda estão ali, mesmo que nunca apareçam diretamente. A Torre Eiffel e o Arco do Triunfo surgem nos quadros do filme sempre como reflexo das fachadas envidraçadas dos edifícios modernos, nunca enquadradas diretamente (56:40). Um personagem caminha pela extensa rua, se direciona à entrada do edifício, abre uma porta de vidro e nela, por poucos segundos, reflete o edifício símbolo parisiense, de forma extremamente rápida, inócua ao olhar desatento.

Cena do filme Playtime, de Jacques Tati
Foto divulgação

Os personagens que se deslocam freneticamente pela cidade são, em sua maioria, caracterizados por um evidente semblante de alienação, acostumados pela rotina da cidade moderna e desempenhando suas funções de forma utilitária, quase robótica, sem que nada esteja fisicamente fora do lugar, mesmo que predomine uma sensação oposta. Monsieur Hulot e a turista norte-americana Barbara, apesar de frequentarem os mesmos espaços durante as cenas do filme e dificilmente se encontrarem, se distinguem justamente por seus movimentos desajustados, alheios ao ritmo e ao controle que parece pairar sobre os corpos normatizados da Paris funcionalista.

Os ambientes representados por Jacques Tati, literalmente construídos em um cenário projetado e executado em uma área de 15 mil metros quadrados, compõe uma estética monocromática, acinzentada, repleta de painéis envidraçados e estruturas de aço, de edifícios repetidos de forma incessante e ordenados linearmente. Os espaços internos, repetem a monotonia da cidade: os escritórios se parecem com as residências, que se parecem com os espaços comerciais. Nos cartazes que divulgam a imagem de Paris aos turistas os edifícios são os mesmos que aparecem nos cartazes de Londres ou da Cidade do México, dispostos na parede quando Barbara visita uma agência de viagens. Todas as pessoas usam roupas em tons cinzas, inclusive Barbara, um pouco menos Hulot, com suas meias a mostra.

A forma de captar e enquadrar estes extensos espaços criados na cidade cenográfica de Tati são, também, pensados de forma a privilegiar a sensação de uma escala muito pouco humana, na qual a prioridade se dá para os carros e não para o caminhar do pedestre. Crítica frequentemente aplicada às cidades de urbanismo moderno, a exemplo de Brasília, onde a hierarquização das vias e circulações e a escala monumental de seus edifícios produziu espaços extremamente amplos e de difícil apropriação pelas pessoas.

Cena do filme Playtime, de Jacques Tati
Foto divulgação

O áudio que se ouve durante quase toda a obra se restringe ao barulho da cidade e das maquinarias tecnológicas que surgem ao longo da trama: os carros no trânsito, os aviões no aeroporto, o sino dos elevadores, a fala intensa e embaralhada dos grupos de turistas e os ruídos dos sapatos das pessoas caminhando ao longo dos corredores internos. As falas são bastante limitadas fazendo com que o filme remeta durante quase todo o tempo aos clássicos filmes do cinema mudo. Ao fundo o som do jazz, que dá o ritmo progressivo e atabalhoado da cena do restaurante.

A cena do aeroporto, que inicia o filme, reitera a nulidade dos espaços, os ambientes idênticos e genéricos, os mobiliários padronizados predominam em um local somente de passagem e de consumo, o aeroporto cria uma conexão com as cidades do mundo globalizado, todas semelhantes, produto da modernização acelerada. Rem Koolhaas descreve com exatidão este produto do espaço moderno:

“Espaço-Lixo (junkspace) é o que sobra depois que a modernização terminou seu curso ou, mais precisamente, o que se coagula enquanto a modernização ocorre, seu efeito colateral. A modernização tinha um programa racional: distribuir as benesses da ciência. O junkspace é sua apoteose, ou sua dissolução… embora cada uma de suas partes seja fruto de invenções brilhantes, hipertécnicas, lucidamente planejadas pela inteligência, imaginação e infinita computação humana, a soma delas evoca o fim do Iluminismo, sua ressurreição como farsa, um purgatório de segunda classe… O junkspace é a soma total de nossa arquitetura atual; construímos o equivalente, em quantidade, a toda a história anterior somada, mas dificilmente na mesma escala. O junkspace é fruto do encontro entre a escada rolante e o ar-condicionado, concebido numa incubadora de divisórias de gesso (nenhuma das três coisas está nos livros de história)” (7).

Entretanto, é parte final da obra que, de fato, condensa os percalços da modernização excessiva da cidade e dá o tom crítico do diretor. A cena que dura quase toda a segunda parte do filme se passa em um restaurante ainda em construção, que atrai turistas e a elite parisiense. O desfecho deste fragmento, no entanto, coroa uma longa trama com uma resolução esperada, mas extremamente cômica que, se encerra após longa progressão. No restaurante, que recebe clientes ainda em processo de construção exigindo que seus funcionários se desdobrem para esconder os percalços, Monsieur Hulot, convidado pelo seu ex-colega de exército, aparece naquele local cada vez mais instável e prestes a desmoronar.

Cena do filme Playtime, de Jacques Tati
Foto divulgação

Hulot, então, passa a se orientar pelo espaço do restaurante (1:24:55) de forma desajustada, como de comum. O jazz tocado pela banda do restaurante dá o ritmo cada vez mais frenético e que antevê o desastre anunciado. Os quadros da filmagem estão dispostos em alguns pontos do restaurante e na porta de entrada, sempre parados, o movimento se dá somente pelo ritmo acelerado dos personagens que se deslocam pelo saguão causando um efeito cômico e de apreensão pela catástrofe próxima.

O conjunto composto pelos quadros estáticos se alternando em velocidade, dando uma compreensão total do cenário amplo e dos personagens numerosos, em oposição ao ritmo do jazz e dos personagens em aceleração constante, gera o ambiente ideal para o clímax: Hulot, envolvido no festejo que se forma, se propõe a ajudar o turista americano a alcançar um objeto disposto a certa altura, a piada aqui está também na própria estatura de Jacques Tati, que interpreta Hulot (1:31:00). A plateia acompanha e grita com as tentativas, Hulot puxa o objeto e o cenário vem abaixo, toda a estrutura do restaurante e todo esforço dos funcionários em maquiar a construção desmorona com Hulot ao chão.

A metáfora está exposta, num ato que de tão simples e banal é quase tosco, Tati constrói um momento hilariante do filme cuja sensação é próxima ao alívio pelo desmoronamento daquele cenário fadado à derrocada. O disfarce moderno vai ao chão criando um ponto de virada na estética e na disposição dos elementos, até então, organizados nos quadros do filme pela padronização e pelo ordenamento. A festa continua entre os escombros, agora de forma muito mais natural, Hulot e Barbara se encontram (1:42:30), ela mantém a música assumindo o piano. O restaurante está em ruínas, para desespero do arquiteto.

notas

NA – As bases deste texto foram produzidas na disciplina História e Fontes Visuais, ministrada pelo Professor Dr. Marcos Francisco Napolitano, no departamento de História da Universidade de São Paulo no ano de 2019.

1
Playtime, 1967 (119 min). Direção de Jacques Tati.

2
Sobre os filmes de Jacques Tati, ver: CASTELLO, Lineu. Meu tio era um Blade Runner: ascensão e queda da arquitetura moderna no cinema. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 024.03, Vitruvius, maio 2002 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.024/781>; FOLEGATTI, Luiza Geraldi. As cidades de Jacques Tati: novas relações sócio-técnicas presentes na década de 50. Cordis – Revista de História Social da Cidade, v. 6, 2011, p. 1-19; FELTRIN, Rodrigo Fabre. Arquitetura, cidade e modernidade. Considerações a partir do filme Mon Oncle, de 1958. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 200.01, Vitruvius, ago. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.200/7067>; ROMNEY, Jonathan. Jacques Tati’s Playtme: life-affirming comedy. The Guardian, 2014. Disponível em: <www.theguardian.com/film/2014/oct/24/jacques-tati-playtime-intensely-complex-life-affirming-comedy>; SALLES, Walter. A redescoberta de Playtime, a obra-prima de Jacques Tati. São Paulo: Ilustrada, 2002. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2505200224.htm>.

3
JACOBS, Jane (1962). Morte e vida das grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes, 2009.

4
VENTURI, Robert (1966). Complexidade e contradição em arquitetura. São Paulo, Martins Fontes, 2004. Do mesmo autor, ver: VENTURI, Robert. Aprendendo com Las Vegas: o simbolismo esquecido da forma arquitetônica. São Paulo, Cosac Naify, 2003.

5
ROSSI, Aldo (1966). A arquitetura da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 2001.

6
Ver: ARANTES, Otília. O lugar da arquitetura depois dos modernos. São Paulo, Edusp, 1993; ARANTES, Otília. Urbanismo em fim de linha: e outros estudos sobre o colapso da modernização arquitetônica. São Paulo, Edusp, 2014; HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. 2a edição. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.

7
KOOLHAAS, Rem. Junkspace. In SKYES, Krista (org.) O campo ampliado da arquitetura: antologia teórica 1993-2009. São Paulo, Cosac Naify, 2013.

sobre o autor

Luiz de Lucca Neto é arquiteto urbanista, graduado em História pela FFLCH USP, mestrando em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU USP.

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