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Cêça Guimaraens, professora da FAU UFRJ, comenta os cinco volumes da “Coleção Arquitetura Moderna na Bahia (1947-1951)”, de autoria do arquiteto Nivaldo Vieira de Andrade Júnior.

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GUIMARAENS, Cêça. Para uma verdade sobre a arquitetura modernista baiana. Sobre a coleção de Nivaldo Andrade. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 216.02, Vitruvius, dez. 2019 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.216/7566>.


O arquiteto Nivaldo Vieira de Andrade Júnior enriquece a fortuna crítica da história da arquitetura brasileira com os cinco volumes da Coleção Arquitetura Moderna na Bahia (1947-1951), os quais devem ser apreciados com vigoroso reconhecimento. Os principais personagens e processos de configuração da arquitetura na cena mítica do Movimento Moderno são os focos desse exemplar estudo de Andrade Junior, o jovem presidente nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil que é, também, professor da Universidade Federal da Bahia. Representante da nova geração de “arquitetos de projeto” que são, ao mesmo tempo, teóricos e historiadores da arquitetura, o autor aborda a complexidade do Modernismo em primorosa coletânea autoral.

Complexo hospitalar Santa Terezinha, Pau Miúdo, 1949 [DAD-COC-Fiocruz]

A Coleção recorta e desdobra uma história da nossa arquitetura modernista que, idealizada, corria sem amarras, ou seja, “deitava o cabelo”. Particular interesse tem o reconhecimento e o diálogo transformador que Andrade Júnior impõe ao que define de “obras canônicas”. Ao denominar alguns dos roteiros sacralizados que tratam do Movimento Moderno brasileiro, ele utiliza estratégia sutil, pois a Coleção anuncia o propósito de romper com as regras que foram estabelecidas “a contrapelo” das realidades regionais. Portanto, na Coleção de Andrade Júnior, Objeto e Sujeito fundem História e Memória para trazer à cena elementos inéditos.

Clínica Tisiológica da Universidade da Bahia, Canela, atual Centro Pediátrico Prof. Hosannah de Oliveira, da UFBA [Centro de Documentação e Referência da Odebrecht]

As abordagens historiográficas e críticas traduzem profícuos diálogos com os autores das principais cenas históricas de nossa arquitetura. Esquecimentos e ausências da historiografia são postos à luz para ampliar uma arena olímpica há muito reverenciada. Nessa arena, mostra Andrade Júnior, lutas e confrontos de ideias, associados a desejos de poder fundados em ideologias restritas, determinaram a “única” singularidade na cultura moderna em nosso país.

Conjunto Residencial Salvador, Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários – IAPI, que acabou dando nome ao bairro [Acervo do Conjunto Residencial Salvador]

Consciente das bandeiras políticas da categoria profissional a que pertence, ao reescrever de maneira propositiva relatos consolidados do Modernismo brasileiro, Andrade Júnior enfrenta, em roteiro e método criteriosos, as contradições da escrita da história da arquitetura. Dessa maneira, ele oferece aos leitores densa narrativa “a contrapelo”, sugerindo reconsiderar conflitos de interpretação e abrir novas sendas para se observar a arquitetura baiana.

Edifício Caramuru, 1949, primeiro edifício vertical de escritórios construído no Comércio, arquiteto Paulo Antunes Ribeiro [Centro de Documentação e Referência da Odebrecht]

Produtos das pesquisas desenvolvidas para a tese de doutoramento defendida em 2012, os textos e a iconografia – composta de documentos gráficos e desenhos elaborados pelo autor – descortinam O lugar da Bahia na história da arquitetura moderna brasileira; O Epucs e a autonomização do campo arquitetônico na Bahia; “Um teto para cada escola”: o Plano de Edificações Escolares de Anísio Teixeira; Arquitetura, educação e arte: o Centro Educativo de Arte Teatral; e O transatlântico e o avião: arquitetura moderna e turismo na Bahia.

Residência Raul Faria, terreno atualmente ocupado pelo Barra Center, arquitetos Lev Smarcevski e Antônio Rebouças [Revista Casa & Jardim]

A compreensão dos conceitos e definições que delineiam o tema central, panoramas históricos e objetos estudados são as primeiras pautas desenvolvidas no conjunto. Na sequência, articulando as fontes historiográficas mais reconhecidas no campo acadêmico, Andrade Júnior interpreta o cenário sociológico e político para configurar apropriada e didática análise dos programas de governos, “lugares” e projetos de edifícios que fizeram o Modernismo baiano florescer e traduzir de modo inclusivo a linguagem internacional arquitetônica.

Residência Waldemar Gantois (demolida), com o painel de ladrilhos hidráulicos de Carybé à direita, Piatã, arquitetos Lev Smarcevski e Antônio Rebouças [Acervo da família Gantois]

As temáticas são abordadas com racionalidade operativa, resultando na articulação de referenciais e fontes de natureza diversa. A descoberta e a interpretação de novas raízes e influências formais do modernismo arquitetônico nordestino promovem reconhecidos princípios sob os quais se formaram arquitetos e professores que consolidaram o Movimento Moderno na Bahia.

Anísio Teixeira no Pavilhão de atividades de trabalho da Escola-Parque, na Caixa d’Água; em segundo plano, o painel “Os Cinco Elementos”, de Carybé [Acervo do Centro Educacional Carneiro Ribeiro – Escola-Parque]

O autor dispõe e complementa a teoria, a história e a crítica, narrando fatos sociais e atos arquitetônicos de origem. Desse modo, a estrutura da Coleção demonstra apropriada maneira de refazer a história, garantindo aos leitores novos conhecimentos e resultados analíticos que agregam valor aos cenários historiográficos instituídos há mais de cinco décadas.

Centro Educativo de Arte Teatral – Teatro Castro Alves, maquete, arquitetos Alcides da Rocha Miranda e José de Souza Reis [Acervo da Construtora Carioca Christiani-Nielsen, Rio de Janeiro]

Traçada por cima da história factual e enredada na dimensão crítica do tempo antecedente à construção da nossa nova capital federal, a sequência temática dos volumes também revela que a reprodução baiana dos padrões promovidos pelo grupo de Lucio Costa e Oscar Niemeyer configurou inusitados desdobramentos. Dessa perspectiva, a Coleção demonstra, com ineditismo acadêmico, que a influência da Escola Carioca foi o fio de Ariadne gerado para cristalizar as expressões arquitetônicas do Modernismo brasileiro na Bahia.

Centro Educativo de Arte Teatral – Teatro Castro Alves, maquete, arquitetos Alcides da Rocha Miranda e José de Souza Reis [Acervo da Construtora Carioca Christiani-Nielsen, Rio de Janeiro]

Ao configurar o coroamento do seu edifício crítico com as análises de políticas, planos e projetos, Andrade Júnior imprime coerência à sua construção, elaborando com apuro redesenhos e reproduções que, ao lado das fotografias, reforçam a objetividade e a acuidade de suas argumentações. Na seara assim percorrida, Andrade Júnior dispõe critérios analíticos, normas legais, informações jornalísticas e artigos científicos, incluindo fontes informais e curiosidades inéditas acerca da história escrita da Bahia. Dentre os diferentes tipos de recursos documentais, as entrevistas são novas fontes primárias geradas para confirmar a originalidade do estudo. A diversidade dos recursos documentais utilizados ainda se expressa na bibliografia, na qual estão registrados folhetos e boletins institucionais, periódicos e livros.

Teatro Castro Alves em etapa final de construção, arquiteto José Bina Fonyat Filho [Acervo do Centro de Documentação e Referência da Odebrecht]

O tempo que serve de fundo aos argumentos de Andrade Júnior compreende os momentos em que a Bahia do elevador Lacerda, disneylandeizada, se tornou apenas mais um padrão folclórico regional, e a cultura brasileira foi reduzida ao eixo Rio-São Paulo. Os personagens da saga modernista poderiam ou não habitar ou trabalhar em Salvador, pois o engajamento na luta era o que importava. Ideias, planos urbanísticos, programas arquitetônicos novos e a funcionalidade simbólica e excepcional de alguns edifícios de arquitetura moderna baiana foram os sujeitos dessas transformações, o que também representou o novo modo de viver nas cidades brasileiras na primeira metade do século vinte.

Hotel da Bahia, maquete, Salvador, arquitetos Diógenes Rebouças e Paulo Antunes Ribeiro Revista L’Architecture d’Aujourd’hui

Naqueles momentos, o Socialismo utópico definia a Educação, a Cultura e o Lazer na condição de bases e plataformas para a formação da pessoa livre, criativa e original. Nesse sentido, as políticas de estado privilegiaram a Educação dos brasileiros com a finalidade de retirar a população do analfabetismo e preparar a juventude para o trabalho na agricultura e na indústria. Crentes nesses objetivos, governos republicanos iniciais definiam ainda os espaços de convivência para os talentos artísticos se pronunciarem. Então, pilotis, telhados planos, escolas-parques e o urbanismo de avenidas largas e jardins públicos moldaram perspectivas urbanas diferenciadas.

Hotel da Bahia visto do Campo Grande [Revista Arquitetura e Engenharia]

Na conjunção de entes aparentemente abstratos, os sonhos de uma sociedade melhor transmudaram-se em estradas, escolas, hospitais, hotéis, habitações e estruturas urbanas. Entrementes, tendo em vista a mudança dos modos de trabalho e o refinamento do setor de serviços no capitalismo, a indústria do turismo fez da hotelaria atividade necessária. Elos com outras cidades e estados onde o Modernismo parecia assumir o papel de símbolo único da política “nova” fortaleceram a arquitetura baiana. As cidades se tornaram contemporâneas na dimensão do Modernismo. Na Bahia não foi diferente.

Hotel da Bahia visto do Passeio Público [Revista Arquitetura e Engenharia]

Àquela época, alguns grupos de homens engajados com a modernidade estabeleceram-se em quase todos os estados brasileiros com o apoio de sucessivos governos. Ancorados no empreendedorismo privado intelectuais, artistas e arquitetos irradiaram os princípios das diferentes dimensões da ação modernizadora emitida na cidade que abrigava as estruturas administrativas do então Distrito Federal. Nessa medida, as artes e a arquitetura modernistas assumiram o papel principal na transformação física radical das cidades.

Hotel Paulo Afonso em construção, visto a partir da Usina da Chesf [Arquivo da Superintendência do Iphan na Bahia]

Apesar de, em maioria, os fatos urbanísticos idealizados e modernizantes terem sido concebidos na metade do Dezenove, o Movimento Moderno também angariou adeptos que pelejaram contra tecidos e morfologias edilícias históricas e tradicionais. O ideário e as construções do Modernismo detidos em registros dos projetos excepcionais são heranças tornadas História e Memória que Andrade Júnior apresenta e reinterpreta. Conferidas e recontextualizadas, tais heranças configuraram ações de governos, demonstrando que Planejamento e Projeto foram, ao mesmo tempo, processo e meio para relacionar ideias, espaço, tempo e matéria.

Hotel Paulo Afonso em 1953, com todo o esqueleto de concreto construído [Memorial da Chesf, Paulo Afonso]

Esta é a explicação para o trabalho de arquitetos, engenheiros e administradores brasileiros que, na Bahia, ousaram replicar ideais – então ditos novos e originais – de arquitetos europeus e americanos.

Este é, enfim, o motivo que a Coleção de Andrade Júnior desvela para promover e preservar, em todos os rincões, uma verdadeira arquitetura modernista da Bahia.

Perspectiva do projeto original para a Praça de Esportes da Bahia, futuro Complexo Esportivo da Fonte Nova, arquiteto Diógenes Rebouças [CEAB/FAUFBA]

sobre os autores

Cêça Guimaraens é arquiteta, professora da UFRJ e pesquisadora do CNPq.

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Coleção Arquitetura Moderna na Bahia

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Coleção Arquitetura Moderna na Bahia

Nivaldo Vieira de Andrade

2019

216.02 livro
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