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Abilio Guerra comenta os diversos eventos e fatos paralelos ao evento oficial da edição 2019 da Feira Literária Internacional de Paraty, a Flip.

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GUERRA, Abilio. Paraty em chamas. Do lado de fora da Flip. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 211.02, Vitruvius, jul. 2019 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.211/7414>.


Atravesso a ponte e não resisto à oferta de uma água de coco. Do canal vem o barulho turbulento de dois jet skys e o murmurar da água revolta. O vendedor para de me atender e grita para os inoportunos: “Dois nós, dois nós!!!”, avisa sobre a velocidade máxima permitida. Outros vendedores gritam também, conseguem atenção, os dois rapazes, paramentados com roupas especiais para suportar o frio invernal, se constrangem e diminuem a velocidade. A raiva deforma o rosto do vendedor de água de coco, morador local, indignado com a invasão física e simbólica de seu território. Pago e sigo o caminho, me equilibrando nas pedras irregulares que pavimentam todo o centro histórico da cidade.

Barco da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes – Flipei
Foto Abilio Guerra


Luta de classes, penso eu. Tema de fundo da palestra que ouvi há pouco na tenda da Flipei, a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes. Deveria ser uma mesa de conversa entre André Takahashi e Jones Manoel, mas apenas o segundo falou, encarapitado no alto da cobertura do barco ancorado na margem esquerda do rio Perequê-Açú, canal que corta como faca o tecido urbano da vila colonial. Os livros estão sobre estande improvisado no casco do barco, não é exatamente uma tenda, como não é exatamente uma mesa de debates, pois apenas um dos debatedores falou, discurso articulado, com ranço de universidade, mas banhado de indignação genuína de um homem negro falando em um evento majoritariamente branco.

Bancas informais, turistas e moradores locais, Paraty durante a Flip
Foto Abilio Guerra

Com o coco gelado nas mãos, observo um dos jet skys passar lento ao lado do barco da Flipei. Os vendedores de água de coco, refrigerantes, pipoca já se esqueceram da ocorrência, já é passado, entra na lista dos insultos, ultrajes e injúrias que as classes subalternas acumulam em silêncio rancoroso numa comporta emocional prenhe de ódios e injustiças seculares prestes a se romper de abrupto, tal como suas metáforas invertidas de Mariana e Brumadinho. Quem sabe um dia, mas pode ser que nunca...

Apresentação de José Miguel Wisnik na Flip 2019
Foto Abilio Guerra

Inversão que foi tema inadvertido no dia anterior, durante a apresentação de José Miguel Wisnik sobre o universo mineral que habita a poesia e a vida de Carlos Drummond de Andrade. Sua poética, nos ensina Wisnik, brota das rochas que modulam a paisagem itabirana natal, situada em algum lugar entre o quadrilátero ferrífero mineiro e as cavernas que abrigam a memória do poeta. Não uma pedra no caminho, mas muitas, paisagem milenar conspurcada pela ação temerária dos homens, que permitiram toneladas de dejetos matar a vida nos rios que nascem no interior do país. O poeta alertou, avisou, informou, advertiu, ninguém ouviu, achamos que era apenas versos de poemas. Falava Wisnik pai dessas coisas enquanto rompia a barragem do Quati na cidade baiana de Pedro Alexandre. A vida copia a arte, agora são os deuses negros e indígenas que alertam, avisam, informam, advertem para quem quiser ouvir.

Manifestação de moradores locais durante a Flip 2019
Foto Abilio Guerra

E saio dos meus pensamentos com índios de verdade diante dos meus olhos, se manifestam no meio do casco antigo de Paraty (e talvez o espírito tribal desse grupo tenha tomado o corpo do famoso editor transvestido em lutador de MMA...). Vestem roupas típicas, batem tambores, gritam palavras de ordem, empunham cartazes com denúncias, não dá mais para fingir que não sabemos que Paraty tem Flip, mas não tem escola em um bairro mais periférico, que as minorias não têm protagonismo na festa de gringos, que depois que os moradores de aluguel se forem tudo volta à mais santa normalidade da pobreza. Fotografo, faço uma pequena tomada em vídeo, ajo como turista e me esquivo do aglomerado, minha agenda aguarda ser cumprida.

Travessia da ponte, com nevoeiro de Laura Vinci, Flip 2019
Foto Abilio Guerra

Palestras e livros depois, rumo para a casa da editora do Sesc São Paulo para assistir Giselle Beiguelman conversar com Solange Ferraz e Alexander Kellner sobre seu livro “Memória da amnésia: políticas do esquecimento”. Na fala da autora surge o fogo que consumiu o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista há alguns meses, o mesmo que destruiu a Cinemateca Brasileira em 2016, o Museu da Língua Portuguesa em 2015, o Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios em 2014, o Museu de Ciências Naturais da PUC-Minas em 2013, o Memorial da América Latina em 2013, o Instituto Butantan em 2010, o Teatro Cultura Artística em 2008, o Teatro Oficina em 1966, o Teatro Castro Alves em 1958... Um país programado para não refletir sobre de onde veio, que não tem a menor ideia para onde quer ir, condenado ao auto-esquecimento eterno.

Na margem direita do rio Perequê-Açú, protesto contra a presença de Glenn Greenwald, Flip 2019
Foto Abilio Guerra

O dia vai embora, chega a noite de lua quarto crescente, preciso andar rápido para ouvir Glenn Greenwald, jornalista do jornal eletrônico The Intercept, a celebridade mais aguardada da edição 2019 da Feira Literária Internacional de Paraty. Atravesso novamente a ponte e conforme ando apressado junto à margem esquerda do rio Perequê-Açú, do outro lado do canal – na margem direita – se aglomera uma pequena multidão silenciosa. Carregam bandeiras verde-amarelas que tremulam batidas pelo vento que sopra do oceano. Não é possível ver na penumbra que invade o cenário as caixas acústicas potentes que despejam de abrupto o hino nacional no volume adequado para surdos e mudos. E rojões barulhentos completam o ato reacionário e intolerante. Discurso do Glenn, hino nacional, palavras de ordem, xingamentos, rojões, tudo ao mesmo tempo, um rio canalizado na função de árbitro de boxe apartando os antagonistas.

Na margem esquerda do rio Perequê-Açú, público ouvindo Glenn Greenwald, Flip 2019
Foto Abilio Guerra

Não é necessário ouvir nada, vale o aspecto simbólico da guerra ideológica que vivemos hoje em nosso país. Mais uma inversão em um dia especialmente rico nessa modalidade, na Flip de Paraty a maioria é feita dos atuais perdedores. São “jornalistas, intelectuais e artistas” conforme nos lembrou o historiador José Murilo de Carvalho na palestra na hora do almoço, algo que me esqueci de comentar, mas foi um dia onde tudo aconteceu... Onde não para de acontecer. Agora é Zé Celso Martinez Corrêa, o diretor do Teatro Oficina, e o líder e pensador indígena Ailton Krenak que estão em cena, posso ver com nitidez no telão instalado na tenda da Matriz, espaço para os que não conseguem acessar a tenda principal do evento logo ao lado. Iluminados, os dois xamãs fazem a exegese definitiva do dia: Paraty encarnou Canudos, o Perequê-Açú virou o Vaza-Barris, o exército republicano se transmutou na legião fardada em verde-amarelo, enquanto os perdedores se metamorfoseiam em sertanejos, jagunços, antonios conselheiros. Me sinto constrangido com a alegoria, sinto-me deslocado como figurante da legião pronta para o abate, afinal os vendedores de água de coco e os índios sem escola fariam melhor o papel.

Paraty está em chamas.

Telão na tenda da Matriz mostra encontro de Zé Celso Martinez Corrêa e Ailton Krenak na tenda principal, Flip 2019
Foto Abilio Guerra

nota

NA – Texto n. 105 do álbum “Crônica de andarilho”, publicado no Facebook.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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211.02 flip 2019
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