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projects ISSN 2595-4245


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Antonio Riserio, intelectual baiano, comenta as qualidades arquitetônicas e simbólicas do projeto do escritório Brasil Arquitetura para a Casa de Òsùmàrè em Salvador.

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RISERIO, Antonio. Casa de Òsùmàrè. Projetos, São Paulo, ano 18, n. 210.02, Vitruvius, jun. 2018 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/18.210/7004>.


A geografia como patrimônio

Partindo de uma escala maior, como podemos ver hoje em uma foto aérea do Google Maps, a mancha verde do Terreiro de Òsùmàrè na encosta da Vasco da Gama representa o que foi ao longo de séculos a lógica da ocupação do território acidentado de Salvador. Qual seja: pequenas construções nas cumeadas dos morros junto aos caminhos de acesso, ladeadas pela vegetação exuberante assentada em declive até os vales dos rios e córregos. Este modelo de ocupação foi desaparecendo nas últimas décadas, foi sendo destruído pelo processo de urbanização desenfreado e massivo. E o Terreiro de Òsùmàrè conserva esta característica original e lógica de se mediar construção com preservação da natureza. Na área urbana de Salvador, é um dos últimos remanescentes daquele que foi o modelo de ocupação adapta à topografia e aos acidentes geográficos, e tem se preservado graças às tradições dos cultos do candomblé.

O projeto arquitetônico

Nosso projeto de intervenção pode ser dividido em três grandes blocos, ou três possíveis fases de ação que correspondem aos três patamares topográficos: o núcleo histórico central onde está o barracão e suas construções circundantes; o núcleo superior, com frente para a Rua Alto da Bomba; e o núcleo inferior, com toda a mata original, ligado à Avenida Vasco da Gama.

No núcleo superior, consideramos a demolição total das atuais construções, com graves falhas estruturais e não condizentes com as mínimas necessidades de uso que se pretende implantar. Além disso, consideramos também a incorporação dos dois lotes (hoje ocupados por­­ vizinhos com obras inacabadas) que certamente foram invadidos e subtraídos da área original do terreiro.

Casa de Òsùmàrè, maquete, Salvador, 2017. Escritório Brasil Arquitetura
Foto divulgação

Um novo edifício – sacerdotal - em tons de terra ocre amarelado será erguido nesta área. No pavimento térreo projetamos uma nova cozinha de porte industrial, com câmeras frigoríficas, despensas climatizadas, depósitos de lixo e tudo que se exige do ponto de vista da vigilância sanitária para um equipamento como este, que trabalha ininterruptamente alimentando um grande número de pessoas no dia a dia e especialmente nas festas (que são muitas).

Ainda neste pavimento projetamos os banheiros e vestiários para os participantes dos cultos. Destinamos os pavimentos superiores para abrigar a lavanderia e os alojamentos (pequenos apartamentos individuais e coletivos) com boa ventilação e bons banheiros, acessíveis por elevador e escada, com capacidade de abrigar com conforto até quarenta pessoas (segundo e terceiro pavimentos). No último pavimento projetamos a residência do Babalorixá, espaço privativo de descanso e recolhimento; a administração geral do terreiro e a grande sala de reuniões. A escada deste núcleo ligará o patamar central do barracão à rua de cima. E, a exemplo da escada atual do núcleo inferior, deverá ser um marco simbólico forte.

Casa de Òsùmàrè, maquete, Salvador, 2017. Escritório Brasil Arquitetura
Foto divulgação

Para o núcleo central, o projeto prevê basicamente reformas com algumas demolições e algumas pequenas novas construções. Trata-se de levar melhorias de uso e conforto aos que trabalham e passam o dia todo no terreiro e também aos que frequentam em momentos de culto e festas, grandes ou menores, em termos de público.

Neste sentido, são os pontos trabalhados em nossa proposta: ampliação do espaço de culto do barracão com uma discreta mudança no layout dos espaços adjacentes, a questão da acessibilidade universal a todos os ambientes; o atendimento a todos os frequentadores com banheiros confortáveis e em número suficiente; conforto térmico (ar condicionado ou ventilação forçada, onde necessário); rotas de fuga com caminhos seguros em momentos de grande concentração de pessoas; racionalidade e flexibilidade dos espaços internos e adjacentes ao barracão.

Uma importante demanda que deve ser destacada nesta fase e completada na fase de construção do núcleo inferior é a expansão do pátio frontal ao barracão para abrigar maior número de pessoas com segurança e conforto em dias de festas.

É importante salientar que nesta etapa os trabalhos de projeto e obra deverão ser muito delicados e cuidadosos porque estaremos tocando justamente em questões e pontos – físicos e simbólicos - que fazem do terreiro o patrimônio que é, por ser tombado e para além do seu tombamento.

O núcleo inferior foi pensado em seus muitos usos e atividades. A começar pela conexão, já citada aqui, com a expansão do pátio frontal ao barracão sobre a cobertura do bloco de uso institucional – Memorial do Terreiro de Òsùmàrè - a ser construído nos pisos inferiores, onde se encontram hoje algumas casas. Nestes três pisos inferiores teremos o auditório no pavimento térreo (atual patamar do pé de Iroko), a sala de exposições no primeiro pavimento, e as salas de apoio no segundo pavimento, logo abaixo do terraço de cobertura. Todos os pisos serão servidos por elevador, escadas interna e externa, e banheiros).

Este novo bloco – institucional e representativo – será todo revestido de argamassa pigmentada em vermelho terroso oxido de ferro para se destacar do restante das construções.

Casa de Òsùmàrè, maquete, Salvador, 2017. Escritório Brasil Arquitetura
Foto divulgação

A grande e longa escada branca que penetra a mata e leva até o pátio frontal deverá ser mantida e recuperada onde necessário. É um forte elemento simbólico do terreiro. A partir dos patamares dessa escada definimos os novos futuros patamares das áreas adjacentes, como forma de facilitar os acessos aos caminhos da mata e às árvores sagradas e de culto –  os sacrários vivos. Uma desses patamares deverá abrigar uma grande praça ligada à casa de Exu. Será mais um espaço para ritos, encontros e lazer.

A “Mata Escura”, como era conhecida esta região da cidade até ao início do século 20, deverá ser recuperada e adensada, recebendo caminhos em suaves rampas para passeios e contemplação da natureza e do sagrado. Estes caminhos e rampas serão construídos a partir dos futuros muros de arrimo em concreto ciclópico que deverão estancar a erosão em curso e redefinir os patamares da encosta.

Na parte mais baixa do terreno, no nível da calçada da Vasco da Gama, projetamos a Casa das Artes, que será um espaço adequado à execução dos projetos sociais e culturais que o terreiro já implementa em benefício da comunidade interna e externa, para um público de diversas faixas etárias. Equipado com o devido conforto e segurança, este centro permitirá a realização de atividades pedagógicas e oficinas de trabalhos manuais, com foco nos saberes e ofícios tradicionais do candomblé, como indumentárias, bordados, fabricação de ferramentas de culto e utensílios em madeira e metal. Para incentivar o empreendedorismo e a economia solidária, o espaço contará também com um espaço expositivo para venda dos objetos manufaturados pela comunidade. 

Por fim, faremos pequenos incrementos na área da fonte para dar mais privacidade e conforto aos usuários.

Como linhas gerais, nos preocupamos com a unidade de linguagem das intervenções tentando manter a integridade e a forte personalidade das construções e espaços existentes, em consonância com as futuras construções, no sentido de que possam conviver em harmonia sem que se conflitem e nem se sobreponham umas às outras. Valorizaremos o que será preservado com as novas intervenções.

Procuramos introduzir com nossa arquitetura elementos da natureza como a pedra nos muros de arrimo; a terra em diferentes tons (ocre e vermelho óxido de ferro) no reboco dos novos blocos, em contraste com o branco do leite de cal utilizado atualmente nas casas de santos; ainda a terra batida em pisos como a futura praça de Exu; e pedriscos nos caminhos da mata. Elementos simbólicos deverão habitar os muitos nichos (rebaixos nas paredes e muros) do futuro bloco institucional (museu e auditório), a exemplo das figuras dos palácios de Abomei, no Benim. Convidaremos artistas consagrados ou anônimos a participar dessa empreitada que será agregar à arquitetura elementos simbólicos e museográficos, dando ao conjunto o caráter singular que merece.

O azul e branco que hoje trazem luz ao terreiro deverão continuar a brilhar após a implantação de nosso projeto. Projetamos novos cobogós para proteção das varandas e terraços de todo o conjunto inspirados na simbólica cobra enrolada. E, de cima abaixo, ou de baixo acima, a longa escada também representará a cobra/caminho a cruzar as terras sagradas de Ilê Òsùmàrè.

Casa de Òsùmàrè, maquete, Salvador, 2017. Escritório Brasil Arquitetura
Foto divulgação

ficha técnica

projeto
Casa de Òsùmàrè

local
Salvador BA Brasil

data
Início do Projeto - 2017

programa
Institucional

áreas
Terreno: 3.935m²
Construída: 3.883m²

arquitetura
Brasil Arquitetura / Arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz (autores); Roberto Brotero (coautor); Anne Dieterich, Cícero Ferraz Cruz, Gabriel Mendonça, Julio Tarragó, Laura Ferraz, Luciana Dornellas, Pedro Renault e William Campos (colaboradores); Gabriel Carvalho, Guega Rocha Carvalho, Heloisa Oliveira e Juliana Ricci (estagiários)

maquete física
Antonia Romer

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original: português

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