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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
O artigo aborda a reinauguração da Ponte Hercílio Luz no dia 30 de dezembro de 2019, mostrando as suas funções e impactos no crescimento da cidade através de sua construção e os motivos pelo qual é considerada patrimônio cultural.

english
The article addresses the reopening of the Hercílio Luz Bridge on December 30, 2019, showing its functions and impacts on the city's growth through its construction and the reasons why it is considered a cultural heritage.

español
El artículo aborda la reapertura del Puente Hercílio Luz el 30 de diciembre de 2019, mostrando sus funciones e impactos en el crecimiento de la ciudad a través de su construcción y las razones por las cuales se considera un patrimonio cultural.

how to quote

ROSA, Artur Hugo da. Ponte Hercílio Luz. A função do patrimônio e as transformações geradas na cidade de Florianópolis. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 240.02, Vitruvius, jul. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.240/7827>.



Florianópolis até início do século 20

Uma ilha, por definição, é uma porção de terra rodeada por água. A ilha de Santa Catarina, é envolta pelo Oceano Atlântico. Foi por ele que chegaram os primeiros navegadores europeus. João Dias de Solis em 1515, Sebastião Coboto em 1525, Diego Garcia em 1527. Mas por terra – e provavelmente alguma embarcação para atravessar a baía – que um bandeirante, Francisco Dias Velho, fundou a colônia de Desterro, atual Florianópolis, em 1673 (1).

Povoar e estruturar uma colônia em uma ilha não foi tarefa fácil, entretanto, necessária. Desterro era estrategicamente um ponto de parada para quem tinha como destino o Rio da Prata: fica no meio do caminho entre Rio de Janeiro e Buenos Aires. Além da localização, possui em sua geografia áreas de sacos – acidentes geográficos que formam enseadas protegidas por baías. Por exemplo o Saco dos Limões, antes dos aterros do século 20, localizado na baía-sul, proporcionava acesso fácil, comida e água, atributos valorizados por um navegador que acabara de cruzar o atlântico. Portanto, a preocupação da Coroa Portuguesa era manter a ilha integra sob seu domínio. Em 1750, enviaram seis mil famílias provenientes das Ilhas dos Açores para Desterro.

Sua vinda pode ser justificada a partir de dois pontos de vista. O primeiro é relativo a motivos econômicos: algumas ilhas passavam por um período de superpopulação, onde faltavam terra e comida para todos, e, geográficos: as ilhas do arquipélago de Açores eram constantemente assoladas por tremores de terra e erupções vulcânicas. O segundo ponto de vista refere-se à necessidade que o governo português tinha de proteger as terras litorâneas do sul do Brasil contra invasões espanholas e de corsários. Para tanto, a solução usualmente empregada era a de colonizar tais terras (2).

Com a colonização açoriana, vêm as ruas, as praças, as casas e igrejas. Se estruturam as Freguesias, nos moldes do urbanismo português, conforme a previsão régia de 1747, com a praça maior, as ruas a cordel, casas geminadas, igrejas em vista majestosa etc. (3). Tudo o que existia na ilha era o que o mar conseguia trazer, o que as embarcações podiam carregar e o que se podia retirar em suas próprias terras. Plantavam, colhiam e produziam a própria farinha nos engenhos. Pescavam e confeccionavam as próprias redes. Produziam os próprios utensílios de cozinha com barro e, também, produziam os tijolos e telhas para as moradias.

A integração de Florianópolis

A Desterro bucólica e provinciana caminhava a passos curtos rumo ao seu desenvolvimento. Até 1926, a capital de Santa Catarina tinha uma população de 40 mil habitantes e vivia de forma isolada. As travessias, quando em condição adequada de ventos e chuvas, eram feitas por botes e bateiras, que atracavam em trapiches (4). Estes eram os pontos mais movimentados da cidade. Dos trapiches ao interior, eram usadas carroças que percorriam o que atualmente são os eixos principais da malha viária de Florianópolis.

Geograficamente, para manter as funções de uma capital, era distante demais do restante do Estado. Houve então, um movimento que propunha a mudança da capital para a cidade de Lages (4). Em 1917, o governador e engenheiro Hercílio Luz, na tentativa de consolidação da capital, propôs a construção de uma ponte. O projeto foi encomendado a dois engenheiros norte-americanos, assim como todo o material da construção. Com ousadia, a provinciana Florianópolis começou a receber ares de uma modernidade inadiável. A Ponte da Independência, como inicialmente foi chamada, possuía uma técnica construtiva única através das barras de olhal, com 821 metros de extensão, duas torres de 74 metros de altura, 30 metros acima do nível do mar e com um peso de aproximadamente 5 toneladas, sendo a maior ponte pênsil do Brasil (5). Hercílio Luz faleceu antes de ver seu sonho de integração se concretizar. Em 1926 é inaugurada a ponte, com uma grande festa, presenças de autoridades como o presidente Washington Luiz e bandas de música (6).

A presença da ponte alterou a dinâmica de Florianópolis, que passou a receber carros, mercadorias, investimentos e muito mais pessoas, atraídas, na sua maioria, pelos encantos da ilha da magia. Os trapiches tornaram-se incapazes de competir com as inovadoras paradas de ônibus e os terminais. Os entornos das duas cabeceiras receberam mudanças com o objetivo de tornar a entrada da cidade mais bela. Entre as mudanças, as novas vias e a realocação do cemitério da Luz para o bairro do Itacorubi. Era perceptível que a cidade e a ponte transitavam em escalas diferentes. A busca deste equilíbrio foi acontecendo até seu uso ser interditado, em 1982, após uma desconfiança trazida pela queda da ponte Silver Bridge, sob o rio Ohio. O olhar preocupado se voltou para a Hercílio Luz. Em uma análise estrutural, foi descoberto que uma das barras de olhal possuía uma trinca de 5 centímetros (5). De lá pra cá, foram realizadas muitas reformas, aberturas e interdições até seu restauro completo ser entregue em dezembro de 2019.

Um patrimônio para além de sua estrutura

A ponte Hercílio Luz, atualmente, integra de novo a ilha ao continente, e vice-versa. Ela é monumental na paisagem e enche tanto os olhos dos turistas quanto aos dos nativos. Sua inauguração alterou o cotidiano dos moradores, assim como na sua inauguração há 93 anos. Criou mais uma forma de passeio na ilha e fortaleceu os laços, tantos daqueles que sonhavam em atravessá-la quanto as memórias de quem passou ainda criança. Foram 700 milhões de reais em sua reforma. Foram 29 anos interditada. Mas sempre esteve contribuindo da melhor forma com a paisagem. Esteve no imaginário e nos sonhos de uma geração que não via a hora de passar por ela. A ponte, em si, foi vítima da corrupção, praticada por pessoas de inúmeras gestões, porém, é importante não confundir a má índole e a imoralidade das pessoas com a ponte, a sua estrutura e função dela na cidade.

A velha senhora, assim chamada carinhosamente pelos manezinhos, contribuiu para que Florianópolis continuasse sendo capital do Estado, facilitou o acesso a ilha e acelerou o desenvolvimento urbano numa época que Florianópolis não passava de uma colônia provinciana de 40 mil habitantes. Ainda com todo esse tempo interditada, ela estampava inúmeros cartões postais. Ela é o bem cultural mais representativo em termos de patrimônio material de Florianópolis e não é à toa que é tombada a nível federal.

Ponte Hercílio Luz, Florianópolis, Santa Catarina
Foto Artur Hugo da Rosa

notas

1

VÁRZEA, Virgílio dos Reis. Santa Catarina: a ilha. Florianópolis, Ioesc, 1984 <https://bit.ly/3g4t7On>.

2
VIEIRA FILHO, Dalmo; NIZZOLA, Liliane Janine (Org.). As freguesias luso-brasileiras na região da grande Florianópolis. Brasília, Iphan, 2015 <https://bit.ly/3hHXQS1>.

3
PEREIRA, Nereu do Vale. O Ribeirão da Ilha, sua importância histórica e patrimonial. Florianópolis, Pousada do Ecomuseu, 14 jun. 2018.

4
PARAIZO, Lucas. Como era Florianópolis antes da Ponte Hercílio Luz. Florianópolis, NSC Total, 22 dez. 2019 <www.nsctotal.com.br/noticias/como-era-florianopolis-antes-da-ponte-hercilio-luz>.

5
HAYASHI, Fernando Augusto Yudyro; BARTH, Fernando. Ponte Hercílio Luz em Florianópolis. Patrimônio tecnológico. Arquitextos, São Paulo, ano 15, n. 178.00, Vitruvius, fev. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/15.178/5494>.

6
BOSCHI, Upiara. Passado, presente e futuro da Ponte Hercílio Luz. Florianópolis, NSC Total, 28 dez. 2019. <www.nsctotal.com.br/colunistas/upiara-boschi/passado-presente-e-futuro-da-ponte-hercilio-luz>.

sobre o autor

Artur Hugo da Rosa é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina.

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