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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Divertida pesquisa do professor Martin Jayo sobre a Brasserie High Life localizada no Largo do Arouche, descoberta a partir de uma foto adquirida na internet.

how to quote

JAYO, Martin. Metamorfose urbana. O Largo do Arouche, de high life a high line. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 234.01, Vitruvius, jan. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.234/7596>.



Dias atrás, por meio de uma fotografia de 17 por 23 centímetros que encontrei à venda na Internet, fui apresentado a este estabelecimento paulistano: a Brasserie High Life.

Graças a um carimbo (“Aristides Greco, photographo”) e uma anotação manuscrita no verso (“31 de maio de 1914”), temos informações precisas sobre a autoria e a data da foto. Mas as informações mais interessantes estão na imagem em si, que é repleta de detalhes. Por um deles – duas placas de rua na fachada – sabemos que a brasserie ficava em alguma esquina do Largo do Arouche. Em qual delas exatamente, dependerá da nossa habilidade para decifrar a placa da esquerda, semioculta por um poste e um galho de árvore. Eu matei a charada, mas vou guardar a resposta para o final do artigo.

Brasserie High Life, detalhe da fachada, Largo do Arouche, São Paulo
Foto Aristides Greco, 31 mai. 1914 [acervo do autor]

Também gostei da variedade de produtos, listada em pequenas tabuletas na fachada. São sete placas no total, anunciando “sorvetes, refrescos, chops”, “café, leite, coalhada, chocolates”, “manteiga fresca e queijos de Minas”, “acceitam-se encommendas para festas”, “biscoutos e doces finos, fabricação especial”, e “cigarros 34, mistura da moda”.

Brasserie High Life, detalhes da fachada, Largo do Arouche, São Paulo
Foto Aristides Greco, 31 mai. 1914 [acervo do autor]

Um detalhe importante é o homem encarando a câmara, em pé junto a uma das portas da brasserie. É impossível não se sentir estranhamente atraído por essa figura soturna: reparem no olhar lúgubre, nas roupas forçadamente elegantes... Ele deve ser um funcionário da brasserie à espera de clientes, mas eu confesso que pensaria duas vezes se tivesse que comer um “biscouto fino” ou qualquer coisa servida por alguém que me encara com esse ar.

Brasserie High Life, porta de entrada, Largo do Arouche, São Paulo
Foto Aristides Greco, 31 mai. 1914 [acervo do autor]

Há muitos outros detalhes, mas os deixo para a exploração do leitor. O que eu queria mesmo dizer é outra coisa. Até conhecer a foto eu nunca tinha ouvido falar desta Brasserie High Life, mas já sabia de um cinema homônimo, que funcionou também no Arouche nesta mesma época: o High Life Theatre (1). Fico imaginando que tipo de relação terá havido entre os dois estabelecimentos. Será que a brasserie era uma espécie de café do cinema? O tamanho da loja, as portas para a rua e a extensão do cardápio indicam que não. Talvez ambos pertencessem a um mesmo dono, daí os nomes idênticos, ou quem sabe um deles tenha apenas copiado a denominação do vizinho.

Seja como for, é muito provável que eles compartilhassem a mesma clientela, e isso nos diz algo sobre o imaginário do lazer paulistano daquele início do século 20. Assistir a um filme mudo numa sala de cinema, emendando com um lanche, um chope ou um café com “biscoutos finos” servido pelo funcionário engravatado da brasserie ao lado, era um programa associado à ideia de bem-viver, de high life.

Fiquei curioso para descobrir em qual esquina exata funcionava a brasserie, já que apenas pela foto, como já vimos, não me foi possível sabê-lo. Não foi difícil achar a resposta. Em um anúncio de jornal no mesmo ano de 1914, a Secção de Licores da Companhia Antarctica Paulista divulgava os endereços de seus principais distribuidores. Um dos citados é “Brasserie High Life, rua Sebastião Pereira”, matando a charada (2).

O ponto exato em que, portanto, ficava a Brasserie High Life – a esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira – hoje está coberto pelo Minhocão. Sobre o viaduto, há quem esteja querendo implantar um parque ao estilo do novaiorquino High Line Park.

O que nos mostra que, de algum modo, a mudança nestes mais de cem anos não foi tão grande assim: de high life para high line, a mudança é de apenas uma letra!

Esquina da Brasserie High Life na atualidade
Imagem divulgação [Google Maps]

notas

NA – Republicação ligeiramente modificada de: JAYO, Martin. O Arouche, de high life a high line. Blog Quando a Cidade era Mais Gentil, 15 jan. 2020 <https://quandoacidade.wordpress.com/2020/01/15/o-arouche-de-high-life-a-high-line>.

1
Para referências sobre a sala de cinema, ver: SOUZA, José Inacio de Melo. Salas de cinema e história urbana de São Paulo (1895-1930): o cinema dos engenheiros. São Paulo, Editora Senac, 2016.

2
Anúncio da Cia. Antarctica Paulista publicado no Correio Paulistano, 28 de fevereiro de 1914, p. 10. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional <http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx>.

sobre o autor

Martin Jayo é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo - EACH-USP.

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