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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
No Instituto Sedes Sapientiae, projeto do arquiteto Rino Levi, é possível observarmos a atenção dada aos elementos técnicos bem como às soluções propostas aos edifícios adequando-os ao uso, ao clima e ao entorno de uma cidade.

english
In the Sedes Sapientiae Institute, designed by Rino Levi, it is possible to observe the attention given to the technical elements as well as the solutions proposed to the buildings, adapting them to the use, climate and surroundings of a city.

how to quote

LANZI, Ana Maria Eder. Rino Levi e a arquitetura moderna na obra do Instituto Sedes Sapientiae. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 216.04, Vitruvius, jul. 2018 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.216/7066>.



Contemporaneidade

Conforme Diane Ghirardo, a contemporaneidade teve como um de seus princípios ressaltar as características locais que haviam sido deixadas de lado em nome da racionalização, da produção em série e da universalização proposta pelo movimento moderno (1).

No entanto, a despeito dessa universalização e da padronização propostas pelo movimento moderno, vemos na obra de Rino Levi grande influência das características do racionalismo italiano que, tal como Marcello Piacentini defendeu em 1930, deveria “admitir o quanto há de universal, de correspondente à civilização contemporânea nos movimentos artísticos europeus, inserindo-lhes nossas peculiares características e tendo presente nossas exigências especiais de clima” (2).

Conforme definição dada por Diane Ghirardo – e ainda o significado proposto pelo Dicionário Aurélio (3) onde contemporâneo significa “quem ou o que é do tempo atual” –, podemos observar que o projeto de Rino Levi para o Instituto Superior de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, de 1940, possui características contemporâneas.

Formação do arquiteto

“Enquanto as forças da modernização do século XX tendiam a obscurecer tendências locais, regionais e étnicas, o pós-modernismo concentra-se precisamente nessas diferenças e traz para o primeiro plano o que fora marginalizado pelas culturas dominantes” (4).

Filho de pais italianos, Rino Levi nasceu em São Paulo em 1901 e faleceu em 1965. Em 1921 ingressou na Escola Preparatória e de Aplicação para os Arquitetos Civis em Milão onde cursou três anos e, em 1924, transferiu-se para a Escola Superior de Roma. Escola essa que tinha como foco o conhecimento técnico e artístico na formação de arquitetos capazes de garantir a modernização das cidades, superando o então conservadorismo de Milão.

Em Roma, Rino Levi toma conhecimento dos precursores do movimento moderno mundial, Le Corbusier, Mies Van Der Rohe e Walter Gropius e, antes mesmo do término de seus estudos, em 1925, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um texto de Levi, “Arquitetura e estética das cidades” (5), onde são colocados os princípios do modernismo e ainda a relação estreita entre arquitetura e o urbanismo, uma das principiais características italianas que nortearam sua atuação profissional.

Vemos já nessa publicação a influência do racionalismo de Marcello Piancetini, que propunha “admitir o quanto há de universal, de correspondente à civilização contemporânea nos movimentos artísticos europeus, inserindo-lhes nossas peculiares características e tendo presente nossas exigências especiais de clima” (6).

A atuação profissional de Rino Levi se dá a partir de 1926 e, em 1929, a visita à casa de Warchavchik teve grande influência nos projetos que o arquiteto desenvolveu a partir de então, afirmando seus conceitos de formação e engajando-o na modernização da cidade de São Paulo que, na época, passava por um intenso crescimento horizontal e vertical. Crescimento este que enfatizou ao arquiteto a necessidade de propostas urbanísticas que ordenassem a expansão da cidade, discussão muito presente também na arquitetura italiana daquele tempo.

Seu escritório atuou em diversos seguimentos incluindo o residencial, educacional, hospitalar e de edifícios para teatros e ou cinemas, e em todos, defendeu o papel do arquiteto como detentor da técnica construtiva na solução dos programas propostos. Sua obra foi reconhecida não só no Brasil como também na Europa e em vários países da América Latina, onde especialmente participou de congressos e desenvolveu diversos projetos.

Segue abaixo a linha do tempo resumida com as principais atuações e fatos da época:

Linha do tempo da vida e obra do arquiteto Rino Levi
Gráfico da autora

Instituto Sedes Sapientiae

O projeto é composto por três volumes interligados externamente por uma marquise, e que propicia acesso independente aos distintos usos das edificações: residência para freiras, auditório e instalações para ensino superior (salas de aula, biblioteca e áreas administrativas).

Instituto Sedes Sapientiae, vista externa do conjunto, São Paulo, 1940-1942. Arquiteto Rino Levi
Foto divulgação [ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Op. cit.]

A partir da década de 1940, especificadamente no projeto para o Instituto Sedes Sapientiae, Rino Levi adota o pátio como elemento organizador dos volumes em sua arquitetura (tipologia do pátio mediterrâneo como área central de convivência) e o racionalismo na utilização de volumes geométricos definidos e com proporções clássicas, ausência de ornamentos, contraste entre a profundidade das aberturas e das vedações planas e ainda as discretas explorações estruturais.

O projeto conta com três volumes dispostos ao redor de um pátio central. Os volumes são interligados por uma marquise ondulada em concreto armado que marca o acesso principal às edificações. Vemos inclusive algumas características similares a esta no projeto desenvolvido por Danielle Calabi em 1946 para uma residência em São Paulo, no entanto, nessa o pátio seco similar ao de Le Corbusier se distancia do pátio de Rino Levi, que utiliza nele a exuberante vegetação nativa.

Instituto Sedes Sapientiae, vista do pátio central e da fachada ortogonal do bloco das salas de aula, São Paulo, 1940-1942. Arquiteto Rino Levi
Foto Ana Maria Eder Lanzi, abril 2016

O volume frontal à esquerda do acesso principal atende aos dormitórios das freiras e está propositalmente voltado para a face mais ensolarada, enquanto que o volume posterior, que abriga as salas de aula, possui fachada transparente, mas com a insolação controlada pelo elemento de vedação.

Instituto Sedes Sapientiae, vista do pátio central e do bloco das salas de aula, São Paulo, 1940-1942. Arquiteto Rino Levi
Foto Nelson Kon [ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Op. cit.]

O auditório, locado no prédio 2, merece atenção especial na medida em que segue a pesquisa aplicada pelo arquiteto nos projetos de cinemas e casas de teatro por ele desenvolvidos. Pesquisador dos cálculos de acústica, Levi controla na sala a reverberação do som adotando a forma paraboloide nas paredes e teto. Vale ressaltar que o arquiteto é autor de outros cinemas e teatros em São Paulo, a saber: Ufa-Palace (1936), Universo (1938), Ipiranga (1941) e o Teatro Cultura Artística (1943).

Seguem abaixo as plantas e um corte do projeto.



Instituto Sedes Sapientiae, plantas térreo e pavimento superior, São Paulo, 1940-1942. Arquiteto Rino Levi
Desenho Ana Paula Koury [ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Op. cit.]

Alguns aspectos da obra merecem especial atenção na medida em que inovaram e trouxeram à obra um caráter moderno com forte presença em grande parte dos projetos do arquiteto.

Podemos iniciar citando a marquise que cobre os corredores de circulação externos e que, apesar da referência clássica, possui características modernas no emprego do concreto armado que possibilitou a inversão da posição clássica dos arcos em sua ondulação.

Outra questão relevante foi a escassez de materiais que, por conta da II Guerra Mundial em curso na época, levou Rino Levi a adotar algumas soluções estruturais e de fechamento utilizando os material e técnicas disponíveis. Nesse sentido, o fechamento da fachada plana com elementos ortogonais em concreto e vidro foi uma das soluções adotadas para a transparência proposta. Esse elemento de vedação é também considerado por Renato Anelli (7) como um dos precursores do quebra-sol adotado em suas obras posteriores.

Instituto Sedes Sapientiae, elementos vazados em concreto com fechamento em vidro, bloco das salas de aula, São Paulo, 1940-1942. Arquiteto Rino Levi
Foto Nelson Kon [ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Op. cit.]

Ao contrário dos projetos anteriores, a apresentação da cobertura composta por telhas de barro sem o uso de platibanda revela a intenção de não mais escondê-la. No entanto, o beiral cuidadosamente inclinado e que desempenha também a função da calha, torna a cobertura inclinada despercebida ao olhar dos usuários.

Incluímos nos itens relevantes a adequação da arquitetura ao clima que, além da orientação adequada das edificações conforme o uso proposto, se utiliza dos elementos de vedação como controle da insolação e da ventilação permanente nos ambientes.

Conclusão

Utilizando as análises propostas, podemos concluir que a obra de Rino Levi para o Instituto Sedes Sapientiae é uma referência de arquitetura contemporânea pelo seu caráter inovador e de afirmação do que podemos chamar de arquitetura brasileira.

Nela, reconhecemos as palavras de Rino Levi publicadas no jornal O Estado de S. Paulo em 1925, antes mesmo da conclusão de sua formação, quando afirmou que deveríamos buscar no exterior os avanços da arquitetura, mas que esta deveria refletir a originalidade e a cultura das nossas cidades. Essa diretriz trouxe à obra de Rino Levi destaque no cenário da arquitetura brasileira onde podemos reconhecer autenticidade, características locais e a constante preocupação com o desenvolvimento do país.

notas

1
GHIRARDO, Diane. Arquitetura contemporânea, Uma história concisa. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

2
PIACENTINI, Marcello (1930). Architettura d’oggi. Apud ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi, arquitetura e cidade. São Paulo, Romano Guerra, 2001.

3
Dicionário Aurélio (on line) <https://www.dicionariodoaurelio.com>.

4
GHIRARDO, Diane. Op. cit., p. 2.

5
LEVI, Rino. Arquitetura e estética das cidades. O Estado de S. Paulo , São Paulo, 15 out. 1925.

6
PIACENTINI, Marcello. Op. cit.

7
ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Op. cit.

sobre a autora

Ana Maria Eder Lanzi é arquiteta (2000) e mestranda pela FAU Mackenzie. Atua como arquiteta na Fundação São Paulo, mantenedora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e responde pela infraestrutura da instituição.

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