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interview ISSN 2175-6708

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Isa Clara Neves entrevistou Eduardo Souto de Moura no ano de 2012, um ano depois de ter ganho o Prêmio Pritzker. A conversa ocorreu no ateliê do arquiteto, na cidade do Porto, Portugal.

how to quote

NEVES, Isa Clara. Entrevista com Eduardo Souto de Moura. Entrevista, São Paulo, ano 16, n. 063.03, Vitruvius, jul. 2015 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.063/5603>.


Casa em Bom Jesus, Braga, Portugal, 2007. Arquiteto Eduardo Souto de Moura
Foto Luís Ferreira Alves [website Pritzker Prize]

Isa Clara Neves: Não me poderei estender muito mais em perguntas mas não poderei deixar de falar no livro Elogio da sombra (1) de que me falou recentemente na entrevista que lhe fiz para uma revista de arquitetura chinesa ... (a conversa vai longa, faz-se uma pausa discutindo o tamanho da entrevista pois já lá vão 30 minutos de conversa, comento  a entrevista concedida por Eduardo recentemente para uma revista chinesa, cujo tamanho da versão em mandarim ficou o dobro da versão em inglês).

Eduardo Souto de Moura: Têm imensa graça as traduções chinesas. Porque nestes projetos chineses e depois, tive que traduzir chinês, portanto contratei um tradutor, e depois, por acaso estive com não sei quem que sabia chinês e perguntei-lhe “o que é que diz mais ou menos aqui?” e depois é o meu texto, já traduzido em chinês, e aquilo na China nunca é preto e nunca é branco. Há uma maneira, não é bem pela positiva nem pela negativa, quase como dizer “hoje não é Domingo”, quer dizer, “amanhã é Segunda-feira”. É interessante, isso contradiz uma filosofia e uma ideologia muito pouco positivista, que nós ocidentais, cartesianos e racionalistas, fazemos. Portanto, as coisas têm muito mais nuances, não são bem o que parecem. Portanto, na própria escrita também, há um sentido de comunicação, mas pode implicar também um bocado o contrário, como o Távora dizia “na arquitetura o contrário também é verdade”.

ICN: E Eduardo fala também naquele livro que leu muitas vezes, que tem a ver com isso, pelas sombras.

ESM: Elogio da sombra. Foi um livro que me marcou muito e que me pôs a pensar nas coisas que tinha feito. Gostei tanto do livro, gostei tanto dos ambientes que ele descreve no livro. Então questionei-me: aquilo que ali estava descrito e que eu estava a achar maravilhoso, não acontecia nas minhas casas, porque têm demasiada luz. É evidente que depois posso controlar com as cortinas, mas falta um pouco esse meio termo. As passagens, ou como o Delleuze dizia les plies,  as dobras, quer dizer, o que se passa entre a luz e a escuridão, as penumbras, as sombras. O que acontece muito na arquitetura antiga, com a espessura das paredes. Portanto, existe quando a luz está na diagonal e é filtrada pelas partes laterais e depois tem as portadas que põem mesmo escuro, e depois tem a cortina, e depois tem a sanefa, tem uma série de layers, e isso cria um certo mistério e essa relação desses layers do mundo da casa que somos nós e o mundo exterior que são os outros, cria esses filtros possíveis. E penso que nesta época ultra moderna do vidro, da transparência, nós estamos sempre muito expostos, tem muito a ver com uma cultura e religião muito calvinista ligada à Reforma, em que as pessoas têm que ser transparentes. Vê-se tudo aquilo que se passa nas casas, não tem nada a ver conosco.

ICN: Daí esse seu interesse pelo paradoxo que, por exemplo, o Mies van der Rohe também encerra, por um lado as casas que fazia e por outro as casa onde ele vivia.

ESM: Pois isso é um tema que me apaixona, ainda ontem à noite com um amigo meu estivemos a discutir isso. Ele vai dar uma aula sobre o Mies e estivemos a conversar sobre esses paradoxos. Os arquitetos todos e os intelectuais que eu admiro vivem em casas  antigas...Uma aula que ando a preparar há anos, pois não tenho tempo e não é fácil, é sobre as casas dos artistas, em que há um mistério: como é que os artistas produzem tantas ideias de vanguarda, e essa vanguarda é uma atuação para alterar o mundo e as pessoas, e ao mesmo tempo esses mesmos artistas são tão conservadores com eles próprios e com os ambientes onde vivem? O que parece um pouco contraditório, não é? E o que é certo é que isso acontece. Não vou dar exemplos, mas conheço casas de escritores portugueses e casas de pintores que traduzem isso. O próprio Picasso que foi talvez o maior intelectual de ruptura com o passado, viveu sempre em casas antigas. Quanto mais rico era, mais palácios tinha, cada vez mais antigos.

ICN: E essas contradições? Tenta explorá-las?

ESM: Não. Apaixono-me por esses personagens. Ao princípio uma pessoa imagina-os como com uma aura, como super-homens, mitos, quase como aquelas histerias dos cantores pois gosta-se tanto de um personagem, um poeta, um escritor. Já passei por isso e depois quando percebemos que eles são humanos ainda os admiramos mais. Essa é a fase em que eu estou, que digo a todo o momento “isto é tão bom!”. Este tipo para chegar aqui, que era igual a mim, teve de sofrer tanto. Depois encarar esse exercício de solidão. Por exemplo, o Pessoa se não fosse desesperadamente só e não tivesse construído a sua própria solidão, à custa de muitos que nos levam à loucura, e aos suicídios, e por aí fora, as coisas não adquiriam essa qualidade. Portanto, a excelência, com a idade, passa pela resolução de grandes conflitos, interiores e exteriores. Daí as guerras, que dão boas coisas. E as próprias pessoas, ou seja, uma pessoa para ser artista, não pode dizer “eu sou um homem muito feliz”, ou “...uma pessoa muito feliz”, porque são incompatíveis, ser artista e esses graus de felicidade. À medida que vou descobrindo mais contradições nessa meia dúzia de pessoas por quem me interesso muito, mais fico obcecado. Há que perceber o porquê, e mais valor lhes dou, apesar de num primeiro momento julgarmos “Ah! esse tipo afinal é um mentiroso”... A arte é mentira, mas é interessante. As contradições, quer políticas, quer religiosas, têm essa base de tumulto que faz com que depois as pessoas tenham um escape e produzam coisas, eventualmente para elas próprias, mas que são boas para os outros.

nota

1
TANIZAKI, Junichiro (1933). Elogio da sombra. Lisboa, Relógio D'Água, 2008.

Casa em Cascais, Cascais, Portugal, 2002. Arquiteto Eduardo Souto de Moura
Foto Luís Ferreira Alves [website Pritzker Prize]

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