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interview ISSN 2175-6708

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Entrevista com Benjamin Adiron Ribeiro, ex-coordenador da Cogep, responsável pela primeira Lei de Zoneamento, Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo da cidade de São Paulo assim como suas delimitações, além de ser responsável pela Fórmula de Adiron.

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PESSOA, Jorge. Entrevista com Benjamin Adiron Ribeiro. Entrevista, São Paulo, ano 16, n. 062.02, Vitruvius, maio 2015 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.062/5523>.


Croqui executado por Benjamim Adiron Ribeiro durante a entrevista, mostrando o esquema teórico da grelha de vias expressas e das unidades escalonadas.
Foto divulgação


Jorge Pessoa: E até porque a essa altura estava-se esboçando essa lei de zoneamento, e o sr. era o funcionário da prefeitura, era o grande especialista em zoneamento.

Benjamin Adiron Ribeiro: Nós tínhamos dois especialistas dentro do Departamento de Urbanismo. Éramos eu na área de legislação e controle do uso do solo e o Luis Sangirardi na área de código de edificações – que era mais especificamente a área de controle de projetos de edificações. Éramos os dois grandes especialistas no Departamento de Urbanismo, certo? Então eu era especialista nessa área de controle do uso do solo e legislação sobre o uso do solo; e, por causa disso, meu interesse era produzir uma lei de uso do solo para o município da capital. Você sabe que até então, 1972, não existia nenhuma legislação completa de uso do solo na capital de São Paulo? Na época a cidade já tinha seus 4 milhões de habitantes ou pouco mais. Não tinha, não existia; havia o Código de Obras do Estado, que era a única coisa que tratava – assim muito de leve, em alguns artigos, sobre os problemas de uso do solo. Preocupavam-se muito mais com os projetos de edificações, com as regras que deviam ser obedecidas nos projetos, mas muito pouco com uso do solo. Então não havia controle de uso do solo no município, que estava crescendo de forma explosiva, brutal.

JP: Como surgiu a idéia do zoneamento?

BAR: A idéia do zoneamento já vinha um pouco anterior. Em 1956 tivemos um prefeito, que ficou pouco mais de um ano... Os prefeitos mudavam assim de uma maneira impressionante, porque eram nomeados; quer dizer, mudava governador mudava prefeito. Governador brigava com o cara, trocava de prefeito... era assim. Então foi nomeado um médico chamado Vladimir Toledo Pizza. Bom sujeito, eu gostava dele como pessoa. O Pizza tinha ouvido falar alguma coisa sobre o assunto. Não entendia nada dessa área especifica de legislação urbana, é evidente, ele era um médico. Mas decidiu contratar um serviço de análise social do aglomerado paulistano, que envolvia a Capital e os municípios que estavam na época mais ligados. Ele decidiu isso porque havia lido um trabalho feito para o Rio de Janeiro por um sociólogo francês chamado Lebret. O Padre Lebret, que já era conhecido mundialmente como um sociólogo que analisava problemas urbanos, problemas sociais, foi contratado pelo governador do Rio de Janeiro para fazer uma análise social do Rio de Janeiro. E o Vladimir Toledo Pizza deu uma examinada naquilo e disse: “Podíamos fazer alguma coisa assim também em São Paulo, é uma análise importante para a gente ter conhecimento dos problemas com mais detalhes”. Então ele contratou o serviço do Lebret em 1956. Na época eu nem estava no Brasil, tinha imigrado pros Estados Unidos. Literalmente imigrei e fui trabalhar em Nova Iorque, em escritório de planejamento urbano. Fiquei trabalhando lá durante algum tempo. Mas voltei exatamente na época em que o trabalho estava sendo entregue, e o prefeito não era mais o Vladimir Pizza, que ficou pouco mais de uma ano; a única coisa realmente permanente que ele fez foi contratar esse serviço. O prefeito era Ademar de Barros, que tinha se encaixado na Prefeitura para substituir o Vladimir Pizza.

Quando eu voltei, o trabalho estava sendo justamente entregue à Prefeitura. Demorou 2 anos, deve ter sido feito entre 55 e 57. E eu compareci à entrega oficial do trabalho, o que foi feito assim como os políticos gostam de fazer, com certo estardalhaço fazendo de conta que ele era o mentor da idéia, etc, etc. Isso então foi o começo, o trabalho do Lebret – o melhor trabalho de pesquisa urbana feita até hoje em São Paulo. Isso foi em 55-57, portanto há mais de 50 anos. No trabalho, o problema de uso do solo era levantado. Na análise toda que se fez do aglomerado paulista, muito bem feita, detalhada, o problema de uso do solo era levantado para demonstrar que já existia uma espécie de estrutura espontânea de desenvolvimento urbano em SP. A cidade estava crescendo muito rapidamente, dentro de uma orientação espontânea, mas que tinha um certo sentido; quer dizer, surgiam nucleozinhos urbanos de periferia, em geral em torno de alguns equipamentos que se instalavam em determinados lugares. Começava com uma vendinha, depois o negócio virava um empório, depois aparecia uma padaria ali pertinho, uma farmácia se instalava... Então era essa a forma pela qual os bairros iam surgindo e começavam. Era espontâneo, mas estava dentro das características recomendáveis para o desenvolvimento urbano. Quer dizer, as unidades urbanas devem se desenvolver em torno de equipamentos essenciais, certo?

JP: Centralidades.

BAR: Então Lebret chamou isso aí de unidade de primeiro grau ou qualquer nome semelhante. Depois, aos poucos, surgiam outros nucleozinhos desse tipo na região, loteamentos eram feitos, a maioria deles de forma bastante desordenada, sem qualquer planejamento, sem nenhuma orientação. Os loteadores, os proprietários de terra ou os grileiros – a maior parte na verdade eram grileiros, não eram nem proprietários realmente, mas pegavam a terra lá e, se ninguém reclamasse, dividiam e vendiam. Eram loteamentos mal feitos, sistema viário desenhado literalmente na base de régua e esquadro, sem muita preocupação com as curvas de nível do terreno. Para atrair compradores de lotes, eles próprios patrocinavam uma padaria para se instalar ali. Porque alguém tinha que comprar pão todo dia, tinha que comprar leite. Então Lebret constatou isso aí e conseguiu, de certa forma, identificar o que ele chamava de unidade elementar, que era esse grupinho em volta de alguns pequenos equipamentos. Depois a unidade de segundo grau, que reunia várias unidades elementares e passava a contar com a escola pública, que o governo ia lá e construía, ou com algum tipo de equipamento que exigia uma clientela maior, um mercado um pouco maior... Então surgia essa unidade de segundo grau; e depois aparecia um centro de bairro com uma concentração maior de comércio e de serviços e assim por diante. Ele dividiu geograficamente a cidade em unidades escalonadas. Quer dizer, o que eram unidades elementares, a localização delas no território, o que podia ser já classificado como unidade de segundo grau; por fim de terceiro grau, que seria o que hoje nós chamamos de Subprefeitura. Quer dizer, onde ficavam os centros de desenvolvimento histórico de várias áreas da cidade. Ele fez esse trabalho, que era mais de análise urbana, de identificação da estrutura geográfica e administrativa, do que propriamente um trabalho de análise social.

É curioso, ele acabou resvalando do contrato inicial, que era para ser uma análise das condições sociais, para uma analise da estrutura de organização urbana da cidade de São Paulo. O relatório final deu maior ênfase a isso do que propriamente às questões de problemas sociais. Esse foi o primeiro produto que nós tivemos de uma analise completa de como estava ocorrendo o uso do solo da cidade de São Paulo, na medida em que ela estava crescendo de forma explosiva. Então, esse é o que eu considero o documento básico dos estudos de desenvolvimento urbano de nossa cidade. Depois disto, alguns anos depois, veio o prefeito Faria Lima; que, se estou bem lembrado, deve ter entrado em 65 ou 64, por ai... Foi antes, foi em 64 pelo menos. Foi certamente no tempo do regime militar, certo? Foi sucessor de Prestes Maia: ou seja, Prestes Maia foi o prefeito anterior a Faria Lima. Prestes Maia era um engenheiro-arquiteto; antigamente esse negócio era o que existia: a Politécnica tinha seu curso de engenharia e, como uma das ramificações, a especialização em arquitetura. O aluno podia se formar engenheiro-arquiteto na Politécnica, naquela época; então, Prestes Maia era um engenheiro-arquiteto. Ele se supunha arquiteto porque fazia projetos de arquitetura, mas eram muito ruins, pesadões. Existem vários exemplos de projetos do Prestes Maia executados em São Paulo, que eu sempre achei meio pesados. Era homem honesto e muito trabalhador, mas não tinha muita visão de urbanista. Ele passou a ser considerado urbanista porque foi prefeito nomeado de São Paulo por 8 anos sucessivos, no tempo de Getúlio Vargas. Foi o prefeito que teve mandato mais longo na Prefeitura de São Paulo, que eu saiba. Na época, desenvolveu um Plano de Grandes Avenidas para a cidade de São Paulo. Isto é o que já tinha sido feito em Paris, é o que tinha sido feito em outras grandes cidades do mundo, e ele resolveu fazer em São Paulo. O grande trabalho de Prestes Maia como prefeito foi desenvolver aquele plano das avenidas. Que até hoje ainda constitui a estrutura viária básica da cidade de São Paulo. Prestes Maia, depois de passar esses 8 anos, ficou conhecido como urbanista, porque a principal preocupação dele era viária. Urbanismo, para ele, era principalmente sistema viário, era circulação. Ele pouco pensou em outros aspectos do planejamento urbano porque na época não se falava nisso.

Então é isso: Prestes Maia foi um grande viarista. Ele desenvolvia os projetos pessoalmente, em cima da prancheta, era notável! Quando desenhava seus projetos viários, tinha até o cuidado de localizar a posição em que deviam ficar as árvores no passeio. Fazia tudo pessoalmente, ficava horas e horas na prancheta, como prefeito! A gente procurava para falar com Prestes Maia e ele estava na prancheta desenhando; e dizia para não chatear, porque estava ocupado. Eu trabalhei com Prestes Maia, no gabinete dele. Foi o primeiro prefeito que me requisitou para trabalhar no gabinete. isso já na segunda gestão, em que foi eleito, certo? Ele não foi nomeado daquela vez, foi eleito. Gozava de bom conceito, de pessoa honesta. Como prefeito eleito sua gestão foi bastante boa. Só o fato de ser honesto, no caso de um prefeito, já coloca o camarada como um bom prefeito. Basta isso! Além disso, ele era trabalhador. Mas continuava a ser apenas um viarista. Não era um urbanista, nunca considerei o Prestes Maia um urbanista, era um viarista, um camarada que se preocupava com o sistema viário da cidade. Ele entendia que aquilo era a coisa mais importante; eu não entendo assim. Minha a opinião é diferente, mas ele entendia que era a coisa mais importante. Acho que sistema viário é um dos aspectos que têm de ser somados, dentro de um conceito mais completo de organização do espaço urbano. Mas Prestes Maia teve uma gestão muito boa, com estas características: fazia obras, gastava o dinheiro que a Prefeitura tinha e assim mesmo ainda economizava um pouco. Ele não pedia empréstimos. Ele não começava a hipotecar a Prefeitura para o futuro. Temos dinheiro, fazemos. Não temos, não fazemos. Ele trabalhava com o dinheiro que tinha, não era um demagogo, um desses políticos que ficam hipotecando, colocando a Prefeitura para pagar no futuro aquilo que ele vai fazer agora, para adquirir votos. Não, era um homem honesto. Os políticos que fazem o contrário são desonestos. São basicamente políticos desonestos. Estão mais preocupados com a carreira deles do que com o futuro da cidade que eles estão administrando. Isso é um ponto importante em planejamento urbano! Eu vou mostrar daqui a pouco porque a honestidade, no trabalho público, é um dos fatores mais importantes, fundamental.

Bom, quando Prestes Maia saiu, entregou uma Prefeitura que estava uma beleza em termos de organização, em termos de disponibilidade financeira. Entregou ao Faria Lima – na época, um quase desconhecido. Faria Lima era militar da aeronáutica, era brigadeiro, tenente-brigadeiro; tinha atingido o posto máximo, na carreira militar dele. Pertencia à roda de Jânio Quadros, era cupincha do grupinho de Jânio Quadros. Quando foi governador do Estado de São Paulo, Jânio levou Faria Lima para ser seu o secretário de obras. Faria Lima começou sua carreira pública como secretario de obras do Estado de SP, no governo do Jânio Quadros. E quando terminou o governo do Jânio, e se procedeu à eleição de um novo prefeito para São Paulo, Jânio Quadros indicou Faria Lima. Ele era um homem pouco conhecido; mas foi indicado por Jânio Quadros – e o Jânio, na época, elegia quem ele quisesse. Se indicasse um hipopótamo para candidato a prefeito, esse seria eleito sem a menor sombra de dúvida. E Faria Lima, lógico, foi eleito, porque era o candidato de Jânio Quadros. Entrou na Prefeitura como um político pouco conhecido. Mas ele não era burro, não. Eu briguei muito com Faria Lima; tive muitos atritos com ele. Trabalhei com ele o tempo todo, toda a gestão dele, de ponta a ponta. Nunca fui secretario de planejamento com ele, porque só colocava seus cupinchas em postos importantes; mas eu era o principal assessor de planejamento do gabinete dele. Então, por causa disso, eu tinha contato permanente com ele. E brigávamos o tempo todo, ele era extremamente grosseiro, era militar. Não é que ele fosse grosseiro por isso, é porque essa é uma forma de comportamento usual em certos militares: tratar os subordinados de forma grosseira.

Faria Lima, assim que assumiu a Prefeitura, disse: “Bom, quero fazer obras”. Por que? Porque ele recebeu a Prefeitura em ótimas condições financeiras, sem dívidas, e ainda com dinheiro em caixa. E, por coincidência, houve uma mudança na legislação federal logo no inicio da gestão do Faria Lima, foi uma sorte tremenda que ele teve. Havia um artigo 20 qualquer na Constituição, em que as prefeituras das capitais não podiam receber um determinado valor que era distribuído a todos os municípios do país, como parte do retorno da arrecadação federal. Menos para as capitais, curioso não é? Era um negocio estranho, porque eles entendiam que a Capital tinha uma estrutura de arrecadação mais avançada que os municípios menores. Mas, exatamente no inicio da gestão Faria Lima, o pessoal derrubou este artigo, e ele passou a receber. Era bastante dinheiro para uma cidade grande como São Paulo; quer dizer, era uma porcentagem do que o governo federal arrecadava em São Paulo, muito dinheiro. Faria Lima passou a contar com o que tinha em caixa, deixado por Prestes Maia, e mais todo esse dinheiro que passou a receber de mão beijada, assim que começou sua administração. Então ele disse: “Bom, vamos fazer obras! Temos de fazer muitas obras!” Ele queria ser governador, evidentemente. Todo prefeito de São Paulo quer ser governador. Entra na Prefeitura de São Paulo hoje de manhã, e hoje à tarde já é candidato a governador, certo? É assim. A Prefeitura de São Paulo sempre foi degrau, no entendimento dos políticos. Então: “Temos que fazer muitas obras. Vamos ver quais são os projetos!”. Não havia projetos! Não havia quase projeto nenhum... Por quê? Não é que Prestes Maia não tivesse deixado projetos, deixou muitos! Prestes Maia era um especialista em fazer um montão de projetos viários. Só que todos eles dependiam de desapropriações, de aprovação prévia da Câmara Municipal... Era um processo demorado, não é? Então, para fazer imediatamente, para pegar o projeto e tacar ali e tal, praticamente existia muito pouca coisa. Ele queria fazer centenas de viadutos, centenas de pontes, centenas de avenidas, só que não havia projetos, eram escassos, eram poucos... E ele ficou uma fera, viu?! Ih! como esbravejou o Faria Lima!

Então, levando em consideração aquilo que os assessores diziam para ele, eu entre eles; e o que o pessoal do Instituto de Arquitetos também começou a levar para ele de forma insistente, ele resolveu que São Paulo precisava fazer um Plano Diretor. Porque não tinha! Nunca tinha tido um Plano Diretor urbanístico. Na época quase nenhuma cidade no Brasil tinha, não existia. “Vamos fazer o Plano Diretor para a cidade de São Paulo, pois precisamos ter uma forma de produzir projetos em grande escala”. Aí ele concordou com o Instituto de Arquitetos, que tinha que fazer assim. E essa foi a primeira briga que eu tive com Faria Lima. Porque o Instituto de Arquitetos tem – como, aliás, qualquer outra categoria profissional – o chamado espírito coorporativo. Eles queriam que o Plano Diretor da cidade de São Paulo fosse elaborado através de um concurso público, de tal maneira que os arquitetos tivessem a oportunidade de captar um projeto grande, que daria origem a uma sucessão de outros projetos grandes. Apesar de arquiteto, minha opinião, já naquela época, era totalmente diferente: eu entendia que planejamento urbano é atividade contínua, permanente, não pode ser episódica, não pode ser um projeto, um concurso. E o que eu dizia ao Faria Lima era o seguinte: “Não. Vamos criar um órgão de planejamento urbano bem estruturado para a cidade de São Paulo, nós ainda não temos isso! O Departamento de Urbanismo é uma coisa ridícula, não faz planejamento urbano, só projetos viários. Vamos criar de fato um sistema de planejamento urbano, que tenha um órgão da Prefeitura, além de estruturas do setor privado que participem do sistema. Mas um sistema permanente, não um sistema que mude com cada prefeito. E que se assegure sua permanência e continuidade através de uma forma legal, para que um prefeito não possa, pura e simplesmente, atirar tudo no lixo e começar de novo, como todos os prefeitos sempre fizeram.”

Essa foi a primeira briga que eu tive com Faria Lima. Mas venceu o Instituto de Arquitetos e ele resolveu contratar um Plano Urbanístico Básico: PUB, Plano Urbanístico Básico, um negócio grandioso!

Então ele decidiu: “Vamos fazer um concurso internacional! Não vai ser um concurso aqui pro pessoal do IAB, não. Eles estão pensando o quê? Nada disso, vai ser um concurso internacional! Eu quero os melhores urbanistas do mundo para desenvolver o Plano Urbanístico Básico da cidade de São Paulo!”. Ele tinha, vamos dizer, essa megalomania, era um pouco megalomaníaco... e fez! Chamou o diretor do Departamento de Urbanismo, que na época era uma excelente pessoa, o arquiteto Carlos Lodi. Esse nome é hoje pouco conhecido. Era colega, estava no mesmo nível, na época, do engenheiro Berrini, do Luis Carlos Berrini Jr. Os dois trabalhavam no Departamento de Urbanismo, estavam no mesmo nível, mas Lodi era melhor que Berrini. Hoje Berrini é avenida, Lodi não é nada! Morreu, e não é nem viela sanitária! Tá certo? Na minha opinião, Lodi era mais competente que Berrini. Muito! Era um homem que tinha visão do problema urbano. Ele sabia que o Departamento de Urbanismo não fazia planejamento urbano, porque ele conhecia, ele tinha uma certa cultura na área de planejamento urbano. Carlos Brasil Lodi, excelente pessoa! Filho de italianos, lógico né? Com esse sobrenome! Mas então Faria Lima chamou Carlos Lodi e disse: “Bom, nós temos o que fazer! Eu vou criar aqui um negócio chamado Grupo Executivo do Planejamento, GEP, para administrar esse concurso, essa concorrência internacional que eu quero fazer para a elaboração do PUB. Já tenho todos os membros designados para o GEP. O presidente... – o presidente que no caso era o cupincha... (ele só nomeava os cupinchas dele para cargos importantes...) era o Quintanilha, advogado, que ia ser presidente de um Grupo de Planejamento. Não entendia nada do assunto, evidentemente. E um dos membros lá do Conselho do GEP era Ester Figueiredo Ferraz, também advogada, excelente pessoa, irmã do futuro prefeito que era o José Carlos Ferraz. Bom, antes do GEP, Faria lima já tinha criado o GEM – Grupo Executivo do Metrô. Ele criou o GEM antes porque metrô era a preocupação maior dele. Foi criado um pouco antes do GEP. Então “Eu vou criar o GEM” e na verdade ele colocou Quintanilha no GEM, no grupo do metrô. “Mas agora vou criar também o GEP, pois estou vendo que não temos Plano Diretor. Metrô vai demorar muito tempo ainda, não tem nem projeto”. Como Quintanilha já estava presidindo o GEM, colocou outro cupincha – o engenheiro José Meiches – como presidente do GEP. Para Lodi, do Departamento de Urbanismo, disse: “Quero que você me arranje um secretário executivo, a pessoa que vai trabalhar... que o resto do pessoal é mais feito assim para... que é o cara que vai trabalhar! E que não me encha a paciência, mas que trabalhe, que entenda do negócio e que fale inglês, que isso aí vai ser um concurso internacional!”. Então Lodi coçou a cabeça, coçou... “Só se for o Adiron, não? O Adiron trabalhou nos Estados Unidos alguns anos, ele fala bem inglês e conhece o assunto.” Eu era quase padrão zero no Departamento de Urbanismo. Mas fui nomeado Secretario Executivo do GEP, e o GEP ficou com a função de contratar grupos internacionais, urbanistas internacionais, para desenvolver o Plano Urbanístico Básico de São Paulo.

Foi feita uma concorrência, foi obtido um financiamento muito generoso através do FINEP, órgão federal que financiava esse tipo de coisas na época. E, veja bem, o valor era na época considerado abusivo: 5 milhões de dólares! Hoje é trocado! Na época era um valor abusivo, era um negócio que o pessoal ficava estarrecido! 5 milhões de dólares para contratar um Plano Urbanístico Básico!? Fizemos. Foi feita a concorrência internacional. Apresentaram-se cerca de uns vinte grupos, alguns muito importantes. O GEP procedeu à análise de todas as propostas, sendo escolhido o grupo que apresentou a melhor proposta. Na verdade fui eu quem escolhi, porque os outros membros do tal GEP não entendiam nada do negócio, eles jogavam tudo nas minhas costas: “Você apresenta ai os relatórios das analises...” e eu ia apresentando e eles iam aceitando, sem discutir muito. Então foi escolhido um grupo. Esse grupo desenvolveu o Plano Urbanístico Básico. Eles tiveram prazo muito curto porque quando terminou o processo de escolha já tinham se passado 2 anos. Foi um processo mais longo do que deveria ter sido, porque havia uma série de problemas de caráter legal que tinham de superados e tudo mais. E alguns dos grupos perdedores recorreram do resultado... Só quando faltavam menos de 2 anos para terminar a gestão de Faria Lima – a gestão dos prefeitos era de quatro anos – começou enfim o trabalho de preparação do Plano Urbanístico Básico. Olha, foram reunidos aqui em São Paulo, durante pouco mais de um ano, cerca de cem técnicos internacionais de planejamento urbano, cem! Que trabalharam quase o tempo todo aqui. Pessoas de padrão técnico muito alto.

JP: Quem eram os autores do projeto que ganhou?

BAR: Então vamos lá. Isso aqui é o relatório resumo. O relatório completo era um negócio que ocupava metade de uma sala. Na época recebemos financiamento do Finep, órgão do governo federal; e, como no grupo contratado havia escritórios americanos, a Usaid também financiou parte dos custos. Do Brasil, nesse grupo, nós tínhamos de São Paulo o escritório da Montor-Montreal, que existe até hoje como consultora de engenharia, e um escritório de planejamento chamado Asplan, que já sumiu, mas na época dispunha de um pessoal de padrão muito bom. Dos participantes americanos, havia uma firma Leo Daly, na época muito conhecida, e outro escritório chamado Wilbur Smith, além de consultores autônomos, especializados em várias áreas, contratados para o projeto. Foi esse grupo, mais ou menos 100 especialistas de grande competência, que preparou um plano tecnicamente muito bom.

Para começar, tiveram de fazer uma pesquisa urbana similar à que havia sido feita por Lebret, dez anos antes. Isso leva bastante tempo, pois o aglomerado urbano já era grande na época. Eles constataram que a cidade estava se desenvolvendo ainda dentro daquele modelo mais ou menos esboçado por Lebret. Não era tão desordenada como o pessoal pensava, havia uma certa coerência na forma pela qual a cidade estava se desenvolvendo, estava crescendo.

Por fim, eles apresentaram uma proposta detalhada de Plano Urbanístico Básico: a organização do espaço físico-territorial incluía infraestrutura viária e regulamentação do uso do solo. Foi, creio, a primeira vez que tivemos, na cidade de São Paulo, uma proposta ampla de legislação de uso do solo, amarrada a uma proposta de sistema viário. Em propostas anteriores, os dois assuntos eram tratados em separado.

Minha função pessoal nesse Plano Urbanístico Básico foi coordenar a equipe da Prefeitura que acompanhou os trabalhos. Nós tínhamos que acompanhar os trabalhos e participar de todas as decisões, e minha função era coordenar esse grupo. Bom então, a primeira proposta de legislação mais ampla de uso de solo ocorreu, portanto, em 1967, praticamente 10 anos depois da entrega da pesquisa Lebret. Só que o Plano Urbanístico Básico foi recebido em momento infeliz, no encerramento de uma gestão. Afinal, só conseguiram entregar no final da administração do Faria Lima. Então Faria Lima, que tinha tanto interesse nesse plano porque podia gerar projetos para ele fazer obras (pois ele só estava interessado em fazer obras, não estava interessado em planejamento, queria fazer obras), Faria Lima acabou não aproveitando.

O trabalho foi entregue no penúltimo dia de sua gestão. Ele fez um estardalhaço; estava saindo da Prefeitura, queria ser governador; fez, evidentemente, um estardalhaço ao receber o Plano Urbanístico Básico, e no dia seguinte foi embora. E olha, era papel! O que eles entregaram de cópias do relatório... O relatório completo era formado por muitos volumes dessa grossura assim, desse tamanho, com centenas, milhares de cópias. No dia seguinte assumiu o novo prefeito, agora nomeado. Que não foi eleito, hein? O município da Capital teve essas idas e vindas. Às vezes o prefeito era eleito... de repente mudava a legislação e ele passava a ser nomeado... de repente voltava outra vez e aparecia um prefeito que tinha de ser eleito ...

 Bom, Paulo Maluf sucedeu a Faria Lima. Paulo Maluf entrou e alguns dias depois, não foi assim tão repentino, eu diria que talvez uns 10 dias depois, indo em direção a seu gabinete, ele viu um montão de volumes, de coisas acumuladas enchendo uma sala que estava com a porta aberta. Ele olhou, perguntou a um assessor: “Escuta, o que tem naquela sala que está tão cheia?”. “Ah, aquilo é o PUB, que foi entregue no final do Faria Lima”. Era isso: milhares de exemplares do Relatório Resumo, impresso a cores, e milhares de exemplares do Relatório Completo, em cópias tipo xerox. “PUB? Aquilo é o PUB? Ah! deixa eu dar uma olhada”. E a primeira coisa que ele viu aqui neste volume, Relatório Resumo impresso – você vai notar que não tem mais, hein? – foi uma página inteira com a fotografia do Faria Lima: “Administração Faria Lima”, ele abriu, viu aquilo e disse: “Pode queimar tudo! Pode queimar tudo! Manda para o incinerador da Prefeitura! Toda a edição! Manda tudo pro incinerador da Prefeitura!”

Eram milhares. O cara – o assessor de Maluf, que era engenheiro – saiu de lá chateado, encontrou o Sangirardi e disse: “O Maluf mandou queimar todo o PUB, por no fogo! Diz ele que é promoção política do Faria Lima. Que é só uma peça de promoção política”. Sangirardi saiu preocupado, porque ele também tinha participado da coisa toda. Chegou no Departamento de Urbanismo e disse: “ Vai ser tudo queimado, vai ser tudo incinerado, vão incinerar! Levamos aí não sei quanto tempo para acompanhar e preparar o 1º Plano Urbanístico, e vai ser tocado tudo no fogo!”. Eu soube do negócio. Fui conversar com Sangirardi e disse: “Olha, Sangirardi, não podemos deixar. Não é que seja uma maravilha das maravilhas, nem que seja o que devia ter sido feito, não é nada disso. Nós devíamos ter montado um sistema de planejamento, isso seria o certo. Mas queimar também não está certo, parece-me que isto seria criminoso. Vamos fazer o seguinte, vamos nos reunir em grupo aqui do Departamento de Urbanismo e vamos conversar com o Maluf, vamos bater um papo com ele, vamos mostrar que não é esse o caminho”. Então fomos, montamos um grupo – Sangirardi, eu e mais dois ou três – e fomos conversar com o Maluf. Sangirardi era cupincha do Maluf. Ele tinha um amigo do peito chamado Paulo Ritcher, e Paulo Ritcher era o engenheiro principal da Eucatex, do grupo da família Maluf. Ele era de fato o engenheiro que comandava as indústrias de madeira e de compensados que a família Maluf tinha, e por causa disso tinha muita influência sobre Maluf. Maluf, que de fato não entendia nada de nada; o Maluf no começo da carreira era realmente uma negação total, não entendia coisa nenhuma, mas era presunçoso. Nunca tive simpatia pessoal por ele. Então Sangirardi conseguiu que Paulo Ritcher obtivesse uma audiência nossa com o prefeito. Conversamos e foi feita uma proposta. Quer dizer, o choque que o prefeito tinha sofrido foi porque, abrindo o Relatório Resumo, a primeira coisa que ele viu foi a fotografia de Faria Lima. Foi feita a seguinte proposta: vamos arrancar essa folha pô, paciência! Vamos reunir um grupo de bedéis para, pura e simplesmente, nesses milhares de exemplares, arrancar a primeira folha de todos eles. Pronto, aí desaparece o problema! [risos]. E foi feito. Então por isso que está assim, você entende? [mostra o volume com a encadernação estragada] Foi arrancada a fotografia. E ai ele concordou: “Está bom, vai. Mas tira essa porcaria do gabinete, pois eu não quero isso aqui!” Então foi tudo levado para o Departamento de Urbanismo, onde encheu salas; e alguém tinha que tomar conta daquilo. Fui eu que recebi a incumbência – pois continuava a ser secretário executivo do GEP, por estranho que pareça. O GEP fora criado por decreto para o fim específico de contratar e acompanhar a produção do Plano Urbanístico Básico. Mas, como o prefeito seguinte não se lembrou de extinguir o órgão, continuou a existir; e como a função de secretario executivo não tinha nenhuma vantagem pessoal, e nem projeção ou coisa assim, eu continuei a ser o secretario executivo.

Maluf não me conhecia, nem sabia quem eu era, mas também resolveu: “Esse negócio não existe, vai; como não existe, deixa como está”. Então eu recebi a incumbência de cuidar do acervo do Plano Urbanístico Básico, que ocupou duas salas do Departamento de Urbanismo; porque não eram só essas edições do Relatório Final e do Relatório Resumo: tinha toda a parte de pesquisa, centenas, milhares de questionários, de originais de todo tipo. Tudo. E até o material técnico, material de desenho, tudo foi entregue à Prefeitura, pertencia agora à Prefeitura. Foi colocado lá nas duas salas, e eu não sabia o que fazer com aquilo. Então fiz o que me pareceu lógico: distribuí coleções dos relatórios do PUB a todas as bibliotecas que pude localizar no Estado de São Paulo, a todas as Prefeituras do Estado de São Paulo; e passei a atender a todos os técnicos, arquitetos, engenheiros que estavam interessados em ter uma coleção. Assim mesmo não consegui acabar com a edição. Para todo mundo que aparecia lá, com prazer e alegria eu oferecia uma coleção, que eles quase tinham de contratar um carro para levar, viu?

Então foi isso. Estou sendo excessivamente prolixo? Estou querendo apenas dar a notícia mais ou menos por alto de como a coisa evoluiu, para chegarmos onde queremos chegar.

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062.02 Introdução
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062.01

Entrevista com o professor Jorge Figueira

Gabriela Celani

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