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interview ISSN 2175-6708

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NOLL, João Francisco; ODEBRECHT, Silvia. Gottfried Böhm e sua obra no Brasil. Entrevista, São Paulo, ano 15, n. 057.02, Vitruvius, jan. 2014 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/15.057/5013>.


Igreja de Blumenau
Perspectiva de Gottfried Böhm [Arquivo Histórico do Museu Alemão de Arquitetura, Frankfurt]

Silvia Odebrecht: Como o Sr. veio a realizar projetos no Brasil, mais precisamente em Santa Catarina?

Gottfried Böhm: Os padres franciscanos convidaram meu pai Dominikus Böhm (1) para realizar o projeto da nova Igreja Matriz de Blumenau. Como meu pai não pode viajar naquele momento, indicou que eu fosse em seu lugar. Inicialmente os padres não acreditaram que eu pudesse realizar um bom projeto, e se posicionaram receosos. Todavia, isso eu fiz em aproximadamente um mês. A partir deste projeto eles já puderam realizar a construção. Naturalmente depois, aqui na Alemanha, eu ainda fiz os detalhamentos, mas o projeto em si foi desenvolvido em Blumenau. E neste meio tempo, veio o Sr. Renaux, de Brusque, e viu como eu estava trabalhando; e foi assim que ele também encomendou uma igreja para sua cidade. No entanto, esse projeto não foi desenvolvido no Brasil, mas já de volta, aqui em Colônia.

SO: O Frei Brás Reuter, idealizador do projeto em Blumenau, conhecia seu pai, Dominikus? Como foi este contato?

GB: Não, meu pai nunca esteve no Brasil. Um outro padre, de quem não lembro o nome, esteve aqui e fez o contato com meu pai, e foi ele que me levou a Blumenau.

João Francisco Noll: Quantas vezes o senhor esteve no Brasil?

GB: Eu estive cinco vezes no Brasil. A primeira vez que eu voei para lá foi em janeiro de 1953, quando os aviões ainda eram de hélice. Para mim esta viagem foi muito excitante; os motores esquentavam muito e pela noite ficavam incandescentes, parecia que iam pegar fogo. Sempre que eu estive no Brasil também estive em Blumenau. A igreja de Blumenau eu conheci concluída, pois estive lá, com minha esposa Elisabeth (2), na inauguração. Nós fomos com um navio cargueiro numa viagem de três semanas. Eu também estive pessoalmente em Brusque.

Igreja Nossa Senhora do Rosário, Presidente Getúlio SC, década de 1960, projeto do arquiteto Dominikus Böhm, pai de Gottfried Böhm
Foto divulgação [Acervo da Paróquia Nossa Senhora do Rosário]

JFN: Quantos projetos o senhor realizou para Santa Catarina? E no Brasil, foram realizados projetos para outros estados?

GB: Somente realizei projetos para Santa Catarina. A igreja de Blumenau e a igreja de Brusque. Para Tubarão eu fiz um projeto para uma catedral, mas não sei se ela foi construída. Aliás, para Tubarão eu fiz dois projetos, uma catedral e um abrigo para crianças. Temos que procurar no meu livro onde estão esses projetos. Por favor pegue aí em cima o meu livro, aí dentro está o croqui da igreja para Tubarão.

JFN: E a igreja de Presidente Getúlio?

GB: Sim, é uma igreja pequena. Este projeto é de meu pai, Dominikus Böhm. Ela é anterior. Quando eu fui para o Brasil acho que sua construção já estava praticamente pronta. Naquela época eu fui visitá-la (3).

SO: E os originais de seus projetos, poderíamos ter acesso a eles?

GB: Os originais estão no Museu Alemão de Arquitetura em Frankfurt. Vocês poderiam ir até lá e provavelmente conseguirão cópias dos projetos (4).

JFN: A igreja em Blumenau foi construída conforme o projeto? E a torre já fazia parte do projeto inicial?

GB: Sim, igreja e torre nasceram juntas. Para mim, o início, lá em Blumenau, não foi nada fácil. Em primeiro lugar, eles esperavam meu pai, o famoso Dominikus (5), e aí apareceu um jovem rapaz. Depois, os padres franciscanos me disponibilizaram uma grande sala de aula na escola ao lado, já que era período de férias. Os materiais necessários para desenvolver o projeto, como papel e outros, creio que eu havia levado junto. Eles me deixaram lá sozinho e estava extremamente quente. Assim, eu tive que tirar a roupa e colocar algo debaixo para não molhar o papel dos desenhos com o suor. Isto se deu com muita dificuldade (6). A todo instante chegava um padre e entrava para espiar o que eu estava fazendo. Até que eu fiz uma grande perspectiva, de um metro de altura. Quando eles viram a perspectiva o gelo se quebrou. Então à noite fui convidado para ir ao convento, pois eles ficaram realmente entusiasmados. A partir de então eles tornaram-se muito amáveis.

Depois deste episódio, até fui com os padres à praia onde eles possuíam um terreno com uma pequena casa. Foi naquela praia, que agora se transformou numa cidade muito grande, e onde, naquela época, somente existiam casas unifamiliares (7). Ela era tão encantadora e hoje ficou tão horrível. Para esse lugar também desenvolvi um projeto de uma residência para o jovem Renaux (8). Esta casa também está no meu livro.

Chegou meu filho Paul (9).

Residência junto ao mar
Perspectiva de Gottfried Böhm [Arquivo Histórico do Museu Alemão de Arquitetura, Frankfurt]

Paul Böhm: Olá! Muito prazer. Nós, nesse momento, estamos aqui com uma estagiária do norte do Brasil.

GB: Paul, podes verificar em que livros estão os projetos realizados no Brasil?

Paul: Nesse aqui está o projeto para a igreja de Tubarão.

JFN: Mas esta igreja é diferente da existente. Isso comprova que esse projeto não foi construído. A igreja atual possui outra autoria.

GB: Para o bispo eu realizei, ainda naquela época, um projeto de um asilo para menores, em Tubarão. Eu pensei que também estivesse no livro, mas não está. Pelo que sei este asilo também não foi construído. Não, não era um asilo para crianças, era para cegos. Naquela época existiam lá muitos cegos.

Paul: Ano passado, em 2011, nosso escritório participou da 9ª Bienal Internacional de Arquitetura. Infelizmente minha viagem não foi possível, e não pude estar lá pessoalmente.

GB: Em São Paulo eu estive rapidamente. Não é uma cidade muito atrativa. Mas Rio de Janeiro sim, é muito bonita, com uma situação maravilhosa.

Paul: Vou ausentar-me por uns instantes. Tenho que dar atenção aos meus trabalhos. Até mais tarde.

João Francisco Noll, Gottfried Böhm, Silvia Odebrecht e Paul Böhm e, escritório do arquiteto, Colônia, Alemanha
Foto divulgação [Acervo Noll & Odebrecht]

notas

1
Na época, Dominikus Böhm era um dos mais renomados arquitetos de igrejas da atualidade e, conforme Frei Brás Reuter, de origem alemã e idealizador da nova igreja de Blumenau, o arquiteto era reconhecido e recomendado pelo próprio Papa em Roma (REUTER, 1963). Conforme Der Spiegel (1953), Dominikus Böhm foi condecorado, em 1953, pelo Papa Pio XII com a Ordem de São Silvestre.

2
Elisabeth também graduou-se em arquitetura pela Universidade Técnica de Munique, onde o casal se conheceu. Profissionalmente foi colaboradora no escritório do marido. Faleceu em setembro de 2012.

3
A igreja de Presidente Getúlio foi construída a partir do projeto realizado em Colônia, Alemanha, entre 1949-51, conforme os originais encontrados nos arquivos da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Presidente Getúlio, SC.

4
Em posterior visita ao Museu Alemão de Arquitetura em Frankfurt, tivemos acesso a alguns originais no respectivo Arquivo Histórico, onde nos foi permitido fotografar os documentos, como as impressionantes perspectivas de grandes dimensões.

5
Dominikus foi pioneiro no conceito de um volume único, de uma igreja de planta aberta. Suas obras tendem para o expressionismo, mas mantém um forte senso de geometria e materialidade. Ao reduzir a forma da igreja à sua forma essencial, e jogar uma sofisticada iluminação natural sobre o altar, ele criou uma nova tradição de moderna arquitetura de igrejas. Em particular, ele usou a luz como material de construção e como parte da liturgia católica.

6
Blumenau é uma cidade com alto índice de umidade relativa do ar, e por isso a transpiração é elevada no verão.

7
Gottfried estava fazendo referência à Balneário Camboriú SC.

8
Conforme documento encontrado no arquivo histórico do Museu Alemão de Arquitetura em Frankfurt, a localização da residência Renaux é em Itajaí, cuja perspectiva apresenta o título “Residência junto ao mar”. Portanto, provavelmente deve tratar-se de Cabeçudas, balneário próximo à Balneário Camboriú e pertencente ao município de Itajaí.

9
Paul Böhm (1959) é o filho mais novo de Gottfried Böhm.

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