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interview ISSN 2175-6708

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Haruyoshi Ono, sócio e interlocutor de Roberto Burle Marx por quase três décadas, dá um amplo depoimento sobre sua atuação como paisagista ao lado do mestre e de sua trajetória autônoma à frente do escritório que ainda leva o nome do fundador.

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BARBOSA, Antônio Agenor; RODRIGUEZ, Stella. Entrevista com o arquiteto paisagista Haruyoshi Ono. Entrevista, São Paulo, ano 15, n. 057.01, Vitruvius, jan. 2014 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/15.057/5010>.


Kuala Lumpur City Centre Park, Kuala Lumpur, Malaysia
Foto divulgação [Academic dictionaries and encyclopedias]

AAB / SR: Roberto Burle Marx morreu em 1994 e, desde então, nestes últimos 18 anos, o senhor é que está à frente da empresa ainda chamada Burle Marx & Cia. Ltda. Comente a respeito do seu trabalho no escritório nestes últimos 18 anos.

HO: Após a morte de Roberto, concluímos os trabalhos pendentes onde ele estava à frente. Houve um intervalo de tempo, uma pequena interrupção de uns três a quatro anos em que nós tivemos muita dificuldade de conseguir novos trabalhos.

Eu não tinha a experiência de divulgar o escritório; não era como o Roberto que saía muito, conversava, tinha um relacionamento social muito grande. Por causa disso tivemos, de fato, uma série de dificuldades após a morte dele. Alguns arquitetos, conhecidos nossos, amigos, nos ajudaram bastante nessa época. E, aos poucos, fomos conseguindo pequenos trabalhos e reconquistando o espaço.

Um grande trabalho praticamente ocupava todo o nosso tempo, o Kuala Lumpur City Centre Park, na Malásia. Fomos convidados a projetar esse trabalho quando o Burle Marx já estava muito doente. Ele foi duas vezes para lá, com muita dificuldade e sem poder ajudar muito. Mas a figura dele era importante, porque os donos do empreendimento se apoiavam no nome dele. Nessa época éramos seis arquitetos efetivos, além dos estagiários e desenhistas e, naturalmente tínhamos que manter essa turma toda. Conseguimos entregar o trabalho; fizemos um bom trabalho e ficamos satisfeitos. Esse projeto terminou em 1997, foi executado e entregue ao público logo após.

A partir daí os trabalhos começaram a surgir naturalmente: pequenos trabalhos, portarias de prédios, reformas de jardins e até pequenas intervenções, como nas Vilas Olímpicas. Na época o governo do Estado estava muito ligado aos esportes. Então fizemos vários parques, como o Parque da Maré, no caminho do Aeroporto do Galeão, que hoje está totalmente desfigurado em relação ao nosso projeto. Fizemos uma série de Vilas Olímpicas, que eram intervenções pequenas em determinados bairros e em várias cidadezinhas aqui perto, no nosso entorno, Nova Iguaçu, Caxias, Nilópolis, Belford Roxo, Mesquita, entre outros.

Pista de triciclo no Parque dos Patins, bairro Lagoa, Rio de Janeiro
Foto Eduardo P e Ney Malher [Wikimedia Commons]

Um trabalho grande, dos primeiros a surgir após o falecimento de Roberto, foi o Parque da Lagoa, que na verdade já tínhamos realizado com ele. Aliás, nós o fizemos por duas vezes, o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Mas havia um trecho que ficou intacto, onde funcionava um parque de diversões chamado Tivoli Park. Muita gente era contrária a essa atividade naquele local, e até nosso próprio escritório era contrário àquele parque de diversões da maneira que estava ali inserido: era uma intervenção muito invasiva e forte, mas que sempre permanecia. E os brinquedos do parque de diversão foram ficando velhos e decadentes com manutenção precária, com problemas de segurança. Mais ou menos, em 1995, fomos contratados pela Prefeitura – o Secretário de Urbanismo era o Arquiteto Luiz Paulo Conde – para uma intervenção paisagística nesse trecho da Lagoa que faltava ser urbanizado. E então nasceu o Parque dos Patins, inaugurado pelo já então Prefeito Luiz Paulo Conde, algum tempo depois.

AAB / SR: O Parque dos Patins então é uma obra sua? Dentro do escritório Burle Marx, mas depois que o Burle Marx já tinha falecido, certo?

HO: Sim. Foi um projeto que se iniciou em 1995, um ano após o falecimento de Roberto, e foi concluído e entregue ao público em 1998.

Arquiteto Hans Broos e paisagistas Roberto Burle Marx e Haruyoshi Ono, casa do arquiteto, São Paulo
Foto divulgação [Acervo Escritório Burle Marx]

AAB / SR: O senhor disse que o Parque da Maré está desfigurado, como descreve essa situação?

HO: Fizemos dois projetos para o Parque da Maré. O primeiro em 1991 foi totalmente executado conforme o nosso projeto. Na época, a execução ficou por conta de nossa equipe – arquitetos e jardineiros, juntamente com pessoas das comunidades que compunham o Complexo da Maré, que na época eram sete ou oito. Após a entrega do parque à população, lamentavelmente não houve o apoio da Prefeitura para a sua conservação e então o parque foi decaindo até que chegou à degradação. Após alguns anos, em 1996, fomos contratados novamente para reestudar o Parque, agora pela Secretaria de Habitação. Decidiram derrubar tudo o que restava do remanescente e a recomendação era partir da estaca zero, transformando-o em um Parque Esportivo, já que a cidade nessa época vivia a febre das vilas olímpicas, voltadas mais para o Esporte. Dessa forma projetamos para a área um complexo esportivo aquático com piscinas olímpicas, saltos ornamentais, vestiários e atendimento médico, entre outras funções, e um campo de futebol com dimensões oficiais com arquibancadas e vestiários, além de várias quadras polivalentes e pistas de atletismo. Havia também playgrounds para diferentes idades, praças de convivência e de alimentação. Cada atividade era entremeada por uma vegetação arbórea, plantada em grupos da mesma espécie, de forma a identificar visualmente cada área. Ligando esses grupamentos propusemos o plantio de palmeiras, ora em renques, ora em grupos, em terrenos modelados formando pequenas ondulações. Para amenizar o forte calor do sol, enquanto as árvores não estavam desenvolvidas, projetamos em todas as áreas de estar pérgulas com plantas trepadeiras. O Parque foi executado parcialmente. O que vemos atualmente é um parque cercado por painéis “antirruído” com o intuito de esconder as construções das comunidades, abandonado e ocupado por animais soltos (cavalos, porcos, cachorros etc.), por uma instituição religiosa e pela própria Policia Militar.

AAB / SR: Mas, além dos fatos sociais que, em sua opinião, desfiguraram o projeto, quando se faz uma paisagem tem que haver uma manutenção, certo?

HO: É claro. É preciso que haja um controle por parte dos responsáveis. Não cabe a nós projetistas fazer isso, até porque esse trabalho de educação e preocupação em preservar e manter o espaço nós já havíamos feito na época junto às pessoas de cada comunidade. Algumas eram muito cordiais e dialogavam conosco, tanto é que nesse período conseguimos fazer várias pequenas praças nos pequenos espaços que sobravam e que seriam urbanizados. Pelo menos, projetos e sugestões para amenizar a aridez e a falta de áreas verdes, eu posso garantir que entregamos. Fizemos vários projetos por dentro das comunidades. E eram dezenas de projetos, inclusive num lugar onde a área lembrava de longe a do Parque do Flamengo, em muito menor escala, por onde passava um riacho (um córrego muito poluído que cheirava mal e que até hoje deve estar assim). Ao longo, implementamos várias áreas de esporte e de lazer, playgrounds e áreas de estar, ligadas por uma ciclovia. Foi na época do Prefeito Marcelo Alencar, quando o Secretário de Cultura era o Dr. Leonel Kaz.

E foi nessa época também que projetamos o Parque do Colubandê, em São Gonçalo, no Estado do Rio, e que também era voltado aos esportes, e que também foi executado e depois abandonado. Hoje eu não sei em que estado está. Curiosamente nesse parque foi colocado um painel de Roberto Burle Marx.

Paisagistas Roberto Burle Marx e Haruyoshi Ono
Foto divulgação [Acervo Escritório Burle Marx]

AAB / SR: Quais são os principais projetos que o escritório vem executando atualmente?

HO: Temos feito muitos trabalhos para diversas empresas. A maioria com a finalidade dos eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, e também alguns projetos importantes para nós e para a nossa cidade, como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio – MAR, na Praça Mauá, e aqui onde era a Help (casa noturna em Copacabana), nós estamos desenvolvendo o paisagismo para o Museu da Imagem e do Som – MIS. Esses são trabalhos que eu considero emblemáticos atualmente. São três grandes projetos, pelo menos em importância. E estamos desenvolvendo, ainda na prancheta, o projeto de paisagismo para urbanização do entorno do Estádio do Maracanã, criando uma ligação com a Quinta da Boa Vista através de praças-passarelas sobre as linhas férreas com um novo parque com 90 mil m² aproximadamente, o Parque Glaziou.

AAB / SR: O senhor é frequentemente tratado como um discípulo de Burle Marx. Como o senhor recebe esta afirmação?

HO: Com naturalidade, não sou nem a favor e nem contra com esta situação (risos). Me chamam assim, não é? E é verdade, é como me sinto e continuo sendo, porque eu sigo os seus conceitos e não nego isso.

AAB / SR: O senhor não acha que depois da morte dele houve uma quebra e/ou ruptura no seu trabalho individual com os valores, conceitos e atributos da obra de Burle Marx?

HO: Não acredito que minha criatividade tenha sofrido uma parada após o "trauma" causado pela morte de Roberto. Acho até que na continuidade do seu trabalho, houve de minha parte, um desenvolvimento criativo mais pessoal e próprio. Neste sentido, há uma dissertação de mestrado, desenvolvida por uma pesquisadora em Recife que enfoca entre outros tópicos, o diálogo entre a forma de compor de Burle Marx e a minha. Creio que ainda hoje, a percepção de Roberto ao avaliar e enfocar um problema compositivo serve de exemplo para mim, porque ele foi meu professor e mestre de verdade. Sem dúvida, no diálogo criativo que acontecia entre nós no dia a dia, suas ponderações frequentemente prevaleciam, mas nunca eram impositivas ou impostas. Realmente havia uma grande interação entre nós.

AAB / SR: Além de Burle Marx, que outros paisagistas o inspiram ou lhe servem de referência? O senhor conhece a obra de outros paisagistas?

HO: Na correria diária, fato que creio que aconteça com quase todos os escritórios que conheço, depois das conversas com clientes, viagens, rabiscos, desenhos, discussões de projetos, entregas, não me sobra muito espaço para estudar trabalhos de outros paisagistas. Não dá tempo! E no tempo que me sobra, faço questão de me desligar da azáfama diária e me dedicar a outras atividades. Mesmo assim, conheço algumas obras de outros paisagistas, sem muito aprofundamento é verdade, nos congressos, feiras e seminários, ao contrário de muitos dos meus colegas, que estudam bastantes obras em busca de novas referências para seus trabalhos. Concordo que deveria ser assim, mais estudioso e mais atento, mas não pratico a idéia de conhecendo os trabalhos de outros, melhorar o meu. Isso para mim não funciona dessa maneira.

AAB / SR: E nesse sentido, já que estamos falando no momento de autores, digamos de referências culturais que também sejam inspiração para seu trabalho, essa relação que pode ter outras culturas com a natureza, com a paisagem. Quais as referências culturais lhe servem como inspiração? Estamos aqui nos referindo à relação homem e natureza.

HO: No trabalho cotidiano, normalmente eu foco em exemplos vivenciadas em viagens e nas lembranças e experiências adquiridas no escritório. Significa lembrar-se de fatos que motivaram soluções nas composições dos projetos, que às vezes são corriqueiras e banais ou variadas, como as formas da Natureza que observamos nas formações rupestres no Vale dos Pancas ou de Diamantina, ou observar da janela de um avião, as formações mutantes das nuvens, os meandros dos rios, as formações montanhosas, as áreas de cultivo. Tudo são fontes de inspiração que estão à nossa vista, prontas para serem capturadas e adaptadas para serem aproveitadas em nossos trabalhos. Às vezes penso que fico dando voltas, perseguindo soluções ao consultar trabalhos antigos para me ajudar a solver certas dúvidas de hoje. Mas prefiro isso a beber em outras fontes, talvez isso seja uma deficiência de minha parte.

AAB / SR: Mas eu acho que tem um dado aí interessante, quer dizer, o senhor se realimenta da própria produção do escritório. Então pega, por exemplo, a encomenda nova aí de repente “ah, isso parece um projeto que fizemos lá nos anos 1970”, aí o senhor pega aquele projeto? É por aí?

HO: Não, não é por aí. Nesse caso eu estaria me copiando... Não foi isso que eu quis dizer. Consulto às vezes em minha memória projetos anteriores, porque Roberto me ensinou que a partir de exemplos passados bem resolvidos, sempre poderemos encontrar soluções melhores. É assim que vou tentando me aperfeiçoar. Soluções não são fórmulas. Não pego projetos antigos para copiar, porque cada projeto novo é outro projeto.

AAB / SR: Então o senhor acha que não tem uma ruptura entre o seu trabalho e o do Burle Marx. A gente pode pensar numa linha de continuidade?

HO: Não acredito que haja uma ruptura entre nossos trabalhos, acredito que o meu trabalho seja uma continuação.

Haruyoshi Ono em seu escritório
Foto AAB / SR

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