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O arquiteto Jorge Mario Jáuregui faz uma reflexão sobre o coronavírus que causa estrago no mundo, apontando a falta de coordenação global e o insuficiente recorte nacionalista que tem prevalecido nas ações de combate à pandemia.

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JÁUREGUI, Jorge Mario. Reflexões a partir da pandemia e seu contexto. Drops, São Paulo, ano 20, n. 151.05, Vitruvius, abr. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/20.151/7711>.



Partindo da mudança radical de condições no mundo, eu gostaria de contribuir para o diálogo com essas reflexões iniciais. Reflexões de alguém que observa, analisa, interpreta e tenta “desconfinar-se” mentalmente.

Começarei tomando cinco questões que considero fundamentais neste momento: a política, o econômico-produtivo-tecnológico, a “coisa pública”, a “vigilância” e a subjetividade.

No primeiro, a política, vemos diariamente na mídia em geral (de todos os tipos) chamados a sanidade comportamental, o que é positivo.

Mas a crise também colocou em evidência a total falta de coordenação internacional das ações, sendo esta, do meu ponto de vista, a mais grave; a incapacidade de ação comum. O que mais se viu foi um isolamento nazionalista.

Primou demasiadamente o “salve-se quem puder”, com pouca (ou nenhuma) solidariedade internacional.

Vimos como o “pensamento” econômico ofuscou o raciocínio da maioria dos países. Foi colocada uma falsa alternativa entre “o econômico” e a vida. Hipótese, obviamente, individualista, mesquinha e errônea.

Esta crise está mostrando atitudes solidárias tanto individuais como coletivas, juntamente com individualismos e egoísmos ferozes, destrutivos.

Em um texto de Deleuze em italiano, ele se refere a que, às vezes, manca il popolo (“falta o povo”). Dizendo que em certas circunstâncias “falta o povo”. Dizendo que em certas circunstâncias “se falta o povo, eu posso ser o povo. Porque se falta o povo, se se dividem em minorias, sou eu em primeiro lugar a ser um povo; o povo dos meus átomos, o povo das minhas artérias” (1).

Obviamente, Deleuze não estava se referindo a algo como o que está acontecendo no momento atual no planeta, que é de outra “natureza”, mas creio que nos ajuda a pensar, nos encoraja a pensar.

Diante da falta de uma “inteligência de liderança planetária”, uma ecologia existencial se torna imprescindível.

Há uma questão fundamental colocada com pleno vigor neste momento, a relativa ao papel do Estado e sua função insubstituível, contra tudo o que preconiza o neoliberalismo. Acho que isso está muito claro agora. Apesar do que os conservadores reacionários ainda balbuciam (sabemos que também há conservadores sérios que precisam ser ouvidos) ficou evidente a necessidade de um Estado articulador, ao qual nós, arquitetos e urbanistas, juntamente com todos aqueles do campo das ciências sociais que atuam na saúde, na educação, nas ciências, na filosofia e na psicanálise, devemos contribuir para apontar políticas públicas responsáveis.

E está claro também que é necessária capacidade para liderar os processos.

Um tema adicional é o da escala dos problemas. Ficou demonstrado que não é possível lidar em escala planetária desde a lógica limitada de cada país. Como tampouco é possível induzir a infinita variedade de comportamentos individuais, apenas dependendo da tecnologia, das “redes sociais”, que também contribuem para a “negligência das probabilidades” através da confusão de informações, das “notícias”, da superinformação. É necessário combater a ignorância e a desinformação e estimular o espírito de colaboração e confiança entre os cidadãos e entre os países.

A falta de instâncias capazes de coordenar o global com o local e o coletivo é evidente. E isso não foi, e nem está sendo, feito da maneira necessária.

Em relação ao econômico-produtivo-social, devemos considerar simultaneamente a crise do modo de acumulação de capital (que compreende “o colapso da espiral de acumulação infinita” a que se refere David Harvey, e a financeirização da vida) o modo vigente de produção e consumo irresponsáveis, o comportamento social do tipo “gado feliz” de uma grande parte da população do planeta (vamos viajar, vamos consumir “porque está barato”) e o desenvolvimento tecnológico que substitui o trabalho humano por máquinas , sem pensar alternativas, em todas as áreas de produção, tanto na indústria quanto nos serviços e no campo.

Este conjunto de fatores combinados, vinculados à ampla urbanização do planeta e à criação industrial intensiva de animais confinados (que além de ser uma barbárie é uma fonte de produção de vírus) é bastante preocupante. Fica evidente a falta de relação entre “desenvolvimento”, “progresso”, “crescimento” e a condição humana. Está claro que esses paradigmas não são mais úteis. Há um gap na relação entre indivíduo, sociedade e “sistema” (qual sistema?).

Nas últimas décadas, o neoliberalismo exacerbou o comportamento individualista e competitivo, a meritocracia. Há um giro radical a ser feito, sem dúvida. Este é um momento de reflexão, de autocrítica e de revisão-redirecionamento. Tanto no individual quanto no coletivo e no que se refere ao papel do Estado.

Ao mesmo tempo há uma anulação do horizonte de expectativas; a sociedade no seu conjunto fica hoje “desnorteada”. Flutua uma sensação de futuro mais incerto do que nunca.

O que impõe repensar e reorientar os hábitos de uma grande parte da população do planeta. Incluindo os hábitos de lidar com “a coisa pública”.

Está também colocada agora uma discussão, que deverá ser prolongada, envolvendo indivíduo, sociedade e Estado, sobre o tema da vigilância, que tem a ver com a relação público-privado. Foi aberta uma brecha para que “passem” todos os tipos de medidas restritivas à privacidade em nome do “bem-estar de todos”. Mas essa discussão deverá ser realizada afirmando ao mesmo tempo o indivíduo, e a busca de um sentido de comunidade política, tendo o Estado como garantia de um novo pluralismo identitário renegociável, em que a Constituição poderá ter que ser periodicamente revisada.

Em relação à subjetividade, a primeira constatação é a reconsideração da relação com o tempo que as circunstâncias impõem. O tempo ficou sem parâmetro. Foi interrompido o cronológico habitual. Há uma “suspensão” temporal. Isso abre interrogantes. E aqui vem a pergunta: qual é a nossa “contribuição” para o estado das coisas?

A subjetividade da nossa época sairá profundamente afetada.

Também está claro que não se trata apenas do que é racionalmente correto. A ética e o desejo estão em jogo. Como já expus em outros textos, de acordo com a psicanálise, trata-se precisamente de não ceder do desejo. Desejo que é sempre de outra coisa.

E aqui volto à questão de Freud: pulsão de vida ou pulsão de morte?

A resposta permanece sempre em aberto...

E, finalmente, não coincido com os “otimismos” nisto de que tenha “servido” para estreitar laços familiares, sociais, de amizade etc. – vejam o que diz a esse respeito, Massimo Cacciari, na entrevista “La casa è un inferno”, destes dias (2). Junto com isso aparece a desagregação, o exibicionismo de todos os tipos de “especialistas” e opinadores; inconsequências. O abandono e a indiferença, com espasmos de “alegria” forçada para “animar e informar às pessoas”, na melhor das hipóteses...

As mídias deverão passar de ser apenas transmissoras de informações e opiniões, para fazer aparecer o debate da sociedade.

Devemos buscar o equilíbrio entre liberdade para os indivíduos e grupos, sem perder a capacidade de governar o conjunto social do qual somos membros.

notas

1
No original em italiano: “se il popolo manca, io posso essere il popolo. Perché, se il popolo manca, se si scinde in minoranze, sono io in primo luogo a essere un popolo; il popolo dei miei atomi, il popolo delle mie arterie”.

2
MIRENZI, Nicola. Massimo Cacciari: “La casa è un inferno”. Huff Post News, Milão, 05 abr. 2020 <https://bit.ly/34I5juQ>.

sobre o autor

Jorge Mario Jáuregui é um arquiteto-urbanista do Rio de Janeiro, Brasil. Ele se formou na Universidade Nacional de Rosário, Argentina, como arquiteto, e na Universidade Federal do Rio de Janeiro como arquiteto-urbanista. Ele pesquisa e trabalha com a divisão socioespacial entre as favelas do Rio e o resto da cidade desde os anos 1990.

 

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