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drops ISSN 2175-6716

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A arquiteta Juliana Duarte comenta sobre a evolução dos escritórios e como a arquitetura e a neurociência juntas – neuroarquitetura – podem contribuir para a qualidade do ambiente corporativo, bem-estar dos colaboradores e redução de doenças ocupacionais.

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PURCINELLI, Juliana Duarte dos Santos. Neuroarquitetos e o compromisso com a saúde corporativa. Drops, São Paulo, ano 20, n. 151.03, Vitruvius, abr. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/20.151/7707>.



De escritórios tayloristas a coworkings, as últimas décadas mostraram uma grande evolução dos espaços e do modo de pensar o ambiente corporativo. Quando falamos em escritórios com modelo Taylorista, falamos de espaços setorizados e pensados racionalmente. A preocupação com o conforto físico dos funcionários não era uma questão empática, social, tampouco visava ao bem-estar daquele colaborador. Neste modo de pensar, a preocupação com o ambiente mostrou-se essencial apenas para extrair o máximo de desempenho e produtividade do ser humano. Hoje, os novos modelos de escritórios, conhecidos como coworkings, revelam uma nova forma de despertar a produtividade dos colaboradores, com espaços mais dinâmicos, flexíveis, acolhedores e práticos, onde profissionais de diversas áreas dividem o mesmo espaço; sócios e colaboradores dividem o mesmo conjunto de mesas, diminuindo as distâncias hierárquicas e fazendo com que a cada dia mais o profissional se sinta parte da empresa.

A tecnologia, hoje totalmente enraizada no ambiente corporativo, surge para oferecer às pessoas facilidades para execução de tarefas, disseminação e acesso à informação. Entretanto, essas ferramentas facilitadoras não foram capazes de evitar problemas corporativos, fazendo com que aumentassem cada vez mais os casos de doenças ocupacionais.

Vivemos em uma era em que valorizamos o excesso de trabalho e somos constantemente pressionados para termos o melhor desempenho no emprego, nos estudos, na família etc. Estar ocupado e com uma agenda cheia de compromissos é como mostramos que temos uma posição importante na sociedade.

Para atender a esta nova urgência da sociedade, os arquitetos ganham uma nova atribuição, a de neuroarquitetos. Os neuroarquitetos são doutores munidos de papel, caneta e empatia que identificam e diagnosticam o problema de um espaço e o tratam de forma a beneficiar os colaboradores, amenizando impactos e estresses causados no ambiente de trabalho.

A fenomenologia, que sempre foi um termo muito forte na arquitetura quando nos referimos a projetos que despertem diversas sensações nos seus usuários, hoje dá espaço para a neurociência incorporada à arquitetura – neuroarquitetura – e vem se tornando forte aliada para que os profissionais possam compreender melhor as pessoas e consequentemente projetar melhor os seus espaços.

Os projetos corporativos deixam de ser uma receita de bolo, tornando-se cada vez mais personalizados a fim de criar coerência entre o ambiente, a imagem da empresa e o ser humano que vivencia o espaço.

A inclusão da neurociência na arquitetura vem alcançando espaço e ditando algumas tendências que estão ganhando e ganharão ainda mais força nos próximos anos.

Uma grande tendência dos espaços corporativos é a flexibilidade de mobiliário. Lidando com espaços cada vez menores e ao mesmo tempo com necessidades múltiplas, surge a necessidade de incorporar aos projetos, mobiliários que possam ser desmembrados, remembrados e reinventados para diversos usos. Este novo layout mutável aproxima pessoas e cria espaços de trabalho inteligentes. Um mobiliário que compõe uma sala de descompressão ou ócio criativo, por exemplo, pode ser remontado de forma onde os colaboradores possam realizar pequenas reuniões casuais sobre diversos temas.

Outra tendência é a inclusão, e o assunto vai além de falar sobre pessoas com necessidades especiais. Hoje temos pessoas de várias idades dividindo um mesmo setor e cada geração exige diferentes zonas de trabalho. É necessário que o colaborador possa se sentir parte da empresa e para isso os espaços devem ser pensados para acomodar a diversidade de pessoas. Cada ser humano tem suas necessidades e suas particularidades, claro que na maioria dos casos o espaço físico de uma empresa não comporta soluções para todas essas pessoas, mas devemos nos atentar a disponibilizar espaços, ou estratégias, que possam ser reinventados para atender à maior diversidade possível. Para exemplificar, vamos considerar uma empresa que julga importante ter um som ambiente no seu espaço. Alguns colaboradores necessitam de maior concentração para executar um trabalho do que outros, neste caso, o som ambiente que proporciona bem-estar a uma boa parte dos funcionários, mas pode resultar em desconcentração e irritabilidade em outros, fazendo assim com que não consigam desenvolver bem o seu trabalho, alterando drasticamente o seu humor e levando esse colaborador a um grande nível de estresse. Desta forma, promover espaços calmos e reservados onde possam ser realizados trabalhos que exigem maior atenção ao colaborador poderiam influenciar positivamente.

Por fim, outra tendência forte para os ambientes corporativos é o bem-estar. Em um passado não muito distante, as empresas tinham o seu foco e concentração total no cliente. Estudos comprovaram que não somente o foco no cliente é importante, mas que é fundamental o foco na equipe de colaboradores desta empresa. As pessoas trabalham mais, mais horas, mais dias e mais anos. Neste sentido, a preocupação com o colaborador pode – e deve – ser refletido através da ergonomia do mobiliário que o indivíduo utilizará, climatização e iluminação do espaço, a fim de não só atender às normas, mas atender às necessidades físicas e biológicas desse ser humano.

Atualmente, os “espaços google” estão crescendo cada vez mais: projetos coloridos, dinâmicos e com um ar descontraído. Porém, há a necessidade de entender a dinâmica e perfil da empresa e de seus funcionários para não cairmos simplesmente no modismo e criarmos um espaço sem eficiência. Precisamos ter em mente que o espaço corporativo requer alta produtividade, e se nossos projetos não oferecem condições para que isso aconteça de maneira confortável, devemos voltar aos croquis.

Concluímos que o espaço deve contribuir de forma positiva para o bem-estar do colaborador. Percebemos como os espaços têm condições de afetarem positivamente o ser humano e suas atividades. Mais do que nunca precisamos de arquitetos, designers, engenheiros que exerçam sua função profissional e social para minimizar as doenças ocupacionais dessa era tão conturbada.

sobre a autora

Juliana Duarte dos Santos Purcinelli é arquiteta e urbanista (Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, 2013) com extensão em Lighting Design (2018), atuante na área de arquitetura de interiores residencial e corporativo. Autora de Fenomenologia e o espaço urbano: A tipologia do bairro da liberdade (Conic Semesp,2012).

 

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151.03 neuroarquitetura
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