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drops ISSN 2175-6716

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Ulisses Castro, arquiteto e especialista em história da arte, traça conexão improvável entre a obra Desvio para o vermelho, de Cildo Meireles, e It: A Coisa, de Stephen King.

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CASTRO, Ulisses. Quando Cildo e King (quase) se encontraram. Drops, São Paulo, ano 20, n. 149.05, Vitruvius, fev. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/20.149/7649>.



Demorei para assistir à versão cinematográfica do It: A Coisa, baseada no livro de Stephen King. Não é que eu não goste de filmes de terror. Até que gosto deles, muito embora não sejam meus favoritos. A razão da delonga é que simplesmente não calhou. Aqueles desencontros da vida, coisa sem explicação. Aconteceu e pronto.

Dia desses a história mudou. Eu zapeava sem expectativa pela TV e – pimba! – o dito cujo estava para começar em um canal por assinatura. Me ajeitei no sofá e medo pra que te quero.

Lá pelas tantas, já envolvido pelo filme, dei um pulo. E não foi por causa do Pennywise com sua gargalhada esquisita. Foi um banheiro. E um lavatório. Prometo não dar nenhum spoiler importante, mas para que você possa entender meu raciocínio, vou precisar descrever uma cena do filme. Aqui você decide se continua a ler o texto ou não.

Assim que a personagem entra no banheiro, ela começa a ouvir uma voz. Sem entender o que acontecia, a garota procura pelo dono da voz até perceber que o som vinha do ralo do lavatório. Depois de um diálogo rápido e improvável, o ralo começa a expelir um líquido vermelho. Sangue. Muito sangue. O líquido continua a sair em jato até que todo o cômodo e os objetos ali dentro ficam completamente vermelhos. Paredes, piso, teto, banheira, cortina, chuveiro, luminária, toalhas, cosméticos, escovas de dentes – nada escapa à vermelhidão. Um cômodo inteiro tingido de vermelho.

A essa altura, levando em consideração o título do texto e dependendo do seu grau de interesse e conhecimento em artes visuais, é provável que você já tenha entendido aonde quero chegar. Para mim foi impossível assistir a essa cena sem me lembrar de Cildo Meireles e do seu Desvio para o vermelho, exibido pela primeira vez em 1984. Para quem não conhece a obra, faço aqui uma descrição curta e que não dá conta de toda a sua grandeza, mas que servirá bem aos propósitos desse texto.

Trata-se de uma instalação dividida em três ambientes. No primeiro, um cômodo no qual se encontra uma infinidade de objetos vermelhos: sofá, estante, mesa e cadeiras, geladeira, quadros pendurados nas paredes, objetos decorativos e utilitários de toda ordem, esculturas, carpete no piso, máquina de escrever – tudo vermelho. No segundo ambiente, apenas uma pequena garrafa de vidro tombada no piso, de onde sai uma quantidade desproporcional de líquido vermelho que escorre pelo chão até sumir na escuridão do terceiro ambiente. Lá, o breu cede espaço para um único ponto de luz focado sobre – adivinhe! – um lavatório de banheiro instalado inclinado na parede, no qual uma torneira despeja líquido vermelho, que escorre ralo abaixo.

Depois de assistir à cena do filme e de identificar tantos pontos em comum com a obra de Cildo – o lavatório, o ralo, a vermelhidão tomando conta de um cômodo inteiro – fiquei curioso para saber como Stephen King havia trabalhado esse trecho em seu livro. Na primeira oportunidade que tive, entrei em uma livraria para dar uma olhada no texto original, sem interferência de roteiristas, diretores e afins. Quer saber? Se eu tivesse apenas lido o livro sem assistir ao filme, jamais teria feito a conexão com Desvio. O trecho passa batido, com uma descrição sucinta e pouco detalhada – o que, aliás, não é muito característico de King. Li e reli algumas vezes para ter certeza. Um verdadeiro balde de água fria. Toda aquela conversa sensacional entre Cildo e King que minha cabecinha fértil já tinha imaginado acabara de descer pelo ralo. Parado ali naquela livraria, tive a certeza de que os dois jamais se encontraram.

nota

NA – A imagem foi gentilmente cedida pela Galeria Luisa Strina, que representa Cildo Meireles.

sobre o autor

Ulisses Resende Castro é arquiteto e urbanista (UFMG/2006), especialista em história da arte (UCB/2020) e professor universitário em Campinas SP.

 

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149.05 instalação e cinema
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