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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
O artigo expõe como a venda dos condomínios fechados nas cidades tem sido conduzida pela ideologia do viver bem, de forma segura e confortável, longe de qualquer ameaça ou perigo. Porém, a organização destes espaços acabam refletindo nas relações sociais.

english
The article shows how the sale of condominiums in cities has been driven by the ideology of living well, safely and comfortably, far from any threat or danger. However, the organization of these spaces end up reflecting social relations.

español
El artículo muestra como la venta de condominios en las ciudades ha sido impulsado por la ideología de vivir bien con seguridad, lejos de cualquier amenaza o peligro. Sin embargo, la organización de estos espacios reflejan las relaciones sociales.

how to quote

SILVA, Paula Juliana da. Vende-se! Segurança, conforto e lazer. Drops, São Paulo, ano 15, n. 090.05, Vitruvius, mar. 2015 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.090/5473>.



Segundo dados da base o Sistema de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde responsável por mapear os índices de violência no Brasil, em 2014 o país teve o maior índice de violência desde 1980 com 56.337 vítimas, número que chega a superar o de vítimas no conflito da Chechênia, que durou de 1994 a 1996 (1). Estes altos índices de violência têm gerado uma onda de pânico e medo na população brasileira. Isto, segundo José Miguel Cortés (2), reflete na busca por novas formas de viver e morar das grandes cidades, longe de qualquer ameaça ou perigo ao redor. Quem, por exemplo, não quer ter segurança 24 horas, está longe de qualquer onda de violência, ter área de lazer a qualquer hora do dia, ou até mesmo está longe das mazelas sociais?

Segurança, conforto e lazer são palavras chaves que o mercado imobiliário usa para vincular suas propagandas de venda dos grandes e luxuosos condomínios fechados espalhados nas cidades, mas também com a intenção de promover um novo estilo de viver e morar. A veiculação destes espaços acaba incutindo na sociedade contemporânea uma nova ideologia de moradia, uma nova forma de se estabelecer no território. Cortésargumenta que o que leva uma pessoa a querer viver nesses tipos de “bairros especiais” é o desejo de fugir de qualquer ameaça, seja ela física – ruídos, mau cheiro etc.– ou pessoal – pobre, imigrante etc (3). Trata-se de uma obsessão pela perpétua segurança que se verifica através de três importantes dispositivos: a criação de uma distância mínima de um entorno não desejado; a obtenção da máxima visibilidade em seus condomínios; e o uso da tecnologia de ponta. São como uma espécie de “enclaves fortificados” onde a classe média e alta se isola do restante da sociedade para conviver de forma homogênea e seleta com os grupos sociais semelhantes.

O marketing de um lugar seguro e tranqüilo está sempre associado como um lugar de relacionamento feliz longe das mazelas sociais presentes nas cidades. Porém, o controle de segurança e vigilância acaba sendo pago com a absoluta falta de intimidade, com a perda de intimidade, com a perda da liberdade de movimento e com a ausência de privacidade, pois não apenas as entradas, saídas e os deslocamentos são vigiados, mas também a formas de vida e os comportamentos pessoais, uma vez que tudo deve está nos conformes das regras do condomínio.

Por outro lado, estes espaços conseguem acentuar ainda mais as desigualdades e a marginalização social, ao mesmo tempo em que impossibilita a integração e a manifestação cultural dos diferentes setores da população. “Acaba-se não apenas com a rua como lugar de encontro e de relação entre os cidadãos, mas também com a multidão, entendida como a mistura heterogênea e diversificada de coletividades culturais, étnicas e de gênero. Espaços claramente demarcados por todos os tipos de barreiras físicas e artifícios de distanciamento e sua presença no espaço da cidade é uma evidente afirmação de diferenciação social. Eles oferecem novas maneiras de estabelecer fronteiras entre grupos sociais, criando novas hierarquias entre eles e, portanto, organizando explicitamente as diferenças como desigualdades” (4).

Diante desta nova forma de habitar na cidade, percebe-se que este processo de confinamento das elites, que longe de ser um privilégio de uma ou outra metrópole, tem se transformado num elemento estruturador da vida urbana nas grandes cidades contemporâneas. Produzem isolamento e distanciamento com o “outro”, acaba-se, portanto, interferindo nas relações sociais, escondendo-se tudo aquilo que é vulnerável da sociedade por meio de complicadas tecnologias de segurança. Além disso, cada vez mais as pessoas tornam-se indiferente com a situação social do “outro”. Não se pode, portanto, negar o papel da mídia nesta discussão. Os meios de comunicação têm contribuído para que a esfera pública e privada, considerados dois mundo diferenciados, começassem abolir suas fronteiras, uma vez que a vigilância - pelo medo do “outro”, pelo controle do diferente – inunda tudo e esses dois espaços tendem a se unificar sob um olhar perscrutador e pretensamente legitimador em uma cidade que parece construída de vidro transparente (5).

Manter o controle e vigilância parece ser uma atividade normal na sociedade contemporânea, nunca visto em outras sociedades. Somos constantemente monitorados e vigiados o tempo todo. Isso, no entanto, ultrapassou a esfera de controle do poder público e agora perpassa a esfera da vida privada.  O muro que separava claramente o espaço interior do exterior foi se deteriorando e abriram-se amplos orifícios que permitem contemplar o que acontece no interior da esfera privada, ao mesmo tempo que  condicionam a permanente teatralização da vida contemporânea (6).

notas

1
Mapa da violência 2014: taxa de homicídios é a maior desde 1980. Disponível em <http://oglobo.globo.com/brasil/mapa-da-violencia-2014-taxa-de-homicidios-a-maior-desde-1980-12613765#ixzz3Dbj5rITd> Acesso em: 20/08/2014.

2
CORTÉS, José Miguel G. Políticas do espaço: arquitetura, gênero e controle social. São Paulo, Editora Senac São Paulo, 2008.

3
Idem, ibidem.

4
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. 3ª edição. São Paulo, Editora 34/Edusp, 2011.

5
CORTÉS, José Miguel G. Op. cit.

6
MUXÍ, Zaida. La arquitectura de la ciudad global. Barcelona, Gustavo Gili, 2004.

sobre a autora

Paula Juliana da Silva é graduada em Geografia e especialista em Educação Ambiental e Geografia do Semiárido, pelo Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte. Atualmente é aluna de mestrado em Estudos Urbanos e Regionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

 

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