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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
O artigo busca investigar a pertinência da noção conceitual de não-lugar, apontando quais as implicações de tal suposição teórica sobre os usuários das instalações públicas de grande e rápida circulação de pessoas nas metrópoles contemporâneas.

english
The paper investigates the relevance of the conceptual notion of non-place, pointing out which implications of such theoretical assumption upon the users of public premises of great and fast circulation of people in the contemporary metropolises.

español
El artículo busca investigar la relevancia de la noción conceptual de no-lugar, señalando cuáles las implicaciones de tal supuesto teórico acerca de los usuarios de las instalaciones públicas de grande y rápida circulación de personas en las metrópolis co

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MACIEL, Ulisses. Não-lugares. Um olhar sobre as metrópoles contemporâneas. Drops, São Paulo, ano 15, n. 086.02, Vitruvius, nov. 2014 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.086/5334>.



“O conceito de lugar, considerado por muito tempo como um dos mais problemáticos da Geografia, tem se destacado, recentemente, como uma das chaves para a compreensão das tensões do mundo contemporâneo. Articulando, entre outras, as questões relativas a globalização versus individualismo, às visões de tendência marxista versus fenomenológica ou à homogeneização do ambiente versus sua capacidade de singularização, o lugar tem se apresentado como um conceito capaz de ampliar as possibilidades de entendimento de um mundo que se fragmenta e se unifica em velocidades cada vez maiores”.
Luiz Felipe Ferreira (1)

Para apreender a concepção de lugar que, em uma primeira leitura, pode parecer uma expressão evidente por si só, faz-se apropriado também discorrer sobre o conceito de espaço, esclarecendo, desde já, que essas noções ultrapassam, em muito, a esfera do conhecimento apenas geográfico, permitindo interlocuções com uma multiplicidade de disciplinas.

Embora exista uma profusão de autores que já dissertaram sobre o assunto, muitas vezes com interpretações divergentes e contestadas, é oportuno esclarecer que elas não serão tomadas aqui como categorias antagônicas, não havendo, stricto sensu, oposição entre elas. As ideias de lugar e de espaço são, portanto, espécies de camadas que se tocam, embora se diferenciem, mantendo uma constante relação dialética entre si.

Ainda que os sentidos de espaço e de lugar possam, facilmente, ser confundidos – e, no cotidiano, isso aconteça com muita frequência – o espaço é um conceito geométrico e vetorializável, munido de dimensões finitas, precisas e mensuráveis como altura, largura, profundidade, área e volume. Seus substratos são, exclusivamente, de caráter físico, referenciados em coordenadas e representados por uma extensão, uma distância entre dois pontos ou até mesmo uma rede com limites e conexões. O espaço, portanto, tem uma natureza estacionária, onde os objetos se põem distintamente em relação aos outros, implicando em uma delimitação própria a cada um deles, transmitindo, como consequência, uma ideia de estabilidade. Sua base é de cunho essencialmente pétrea e estacionária.

O lugar, por sua vez, é antropológico, impalpável e subjetivo, habitualmente ligado à noção de tempo, onde as ações e competências humanas se sucedem e ganham significado. Todas as vivências culturais, sociais e simbólicas do cotidiano, sejam individuais ou coletivas, manifestam-se nesse palco. No lugar, embora os objetos também se ponham distintamente em relação ao demais, eles estabelecem uma interação, transmitindo, como resultado, uma ideia de movimento. Sua base é de cunho essencialmente dinâmica e transmutável.

A partir de tais premissas e da permeabilidade existentes entre os conceitos de espaço e de lugar, o historiador e erudito francês Michel de Certeau enuncia que “o espaço estaria para o lugar como a palavra quando falada”, sendo, desse modo, “um lugar praticado”, “um cruzamento de forças motrizes” (2). Ambos os conceitos são construídos por componentes materiais e imateriais; eles entrelaçam-se e um ajuda, reciprocamente, a compor o outro. Edward Relph afirma que:

“Em sentido trivial, como localização, toda parte é um lugar, mas, em um nível mais complexo, lugar se refere às configurações diferenciadas do seu entorno, pois são focos que reúnem coisas, atividades e significados. Sempre que a capacidade do lugar de promover a reunião é fraca ou inexistente temos não-lugares ou lugares-sem-lugaridade. Essas ideias são importantes porque permitem entender lugar pela ausência, tanto quanto pela presença” (3).

Segundo Marc Augé, os lugares possuem, fundamentalmente, três propriedades. Para o antropólogo, eles são identitários, relacionais e históricos. Os não-lugares, por conseguinte, seriam o oposto do trabalho, do lar, do espaço familiar e íntimo, vendo-se representados tanto pelas instalações públicas de grande e rápida circulação, como autoestradas, rodoviárias, estações de trem e aeroportos, quanto pelos próprios meios de transporte. Fazem ainda parte da lista, além dos nós de mobilidade citados, hospitais, supermercados, shopping centers, quartos de hotéis, parques, dentre uma infinidade de outros locais – naturais ou construídos pelo homem. Nesse cenário, agrupa-se também uma realidade colateral não menos considerável: a relação que os usuários estabelecem com esses espaços e entre si mesmos quando os permeiam.

As palavras de ordem para os atores dos não-lugares são ação, movimento e inquietude, na acepção mais precisa dos termos. O conversar ou o socializar não é, exatamente, a temática de tais áreas. As relações que se instauram só dizem respeito, estritamente, à atividade final e qualquer interação entre as pessoas acaba por afastá-las de seu objetivo principal.

Embora o termo não-lugar tenha sido cunhado por Webber (4) em 1964 e só, amplamente, difundido por Auge (5) a partir de 1994, sua natureza maquinal já havia sido identificada e apreendida por muitos pensadores, pintores, fotógrafos, poetas e artistas dos mais diversos.  Em “O homem da multidão” (The man of the crowd), por exemplo, conto de Poe ambientado na Londres do século XIX, que naquele momento era a cidade mais populosa do mundo, o literato, já no ano de 1840, apontava para a essência marcial e automatizante dos não-lugares:

“Olhava os transeuntes em massa e os encarava sob o aspecto de suas relações gregárias. Logo, no entanto, desci aos pormenores e comecei a observar, com minucioso interesse, as inúmeras variedades de figura, traje, ar, porte, semblante e expressão fisionômica. Muitos dos passantes tinham um aspecto prazerosamente comercial e pareciam pensar apenas em abrir caminho através da turba” (6).

Os não-lugares, como se poderia acreditar desavisadamente, não são um território exclusivo para o tédio ou com peculiaridades essencialmente negativas. Eles existem, são um fato genuíno, uma nova classe de lugar. São espaços empíricos, do dia-a-dia, e que correspondem a uma das múltiplas características da contemporaneidade – a medida da época.

Vale esclarecer, aqui, que não se trata de promulgar o extermínio ou a extinção total do lugar. Na era das redes, o enorme fluxo de mercadorias, serviços, capitais e informações faz com que as vias de circulação mais tradicionais percam o protagonismo perante aeronaves, satélites e cabos de fibra ótica, levando os processos de produção e troca a perderem suas bases meramente territoriais.

A coerção imposta pela velocidade que se vive nas metrópoles basicamente apaga o teor da interação social e revela um hiato entre as pessoas. Dois pontos interligados. Um itinerário traçado. Uma marcha militar, ordinária e mecânica. Nenhuma aventura. Raras surpresas. Pouco (des)contentamento.

notas

1
FERREIRA, Luiz Felipe. Acepções recentes do conceito de lugar e sua importância para o mundo contemporâneo. In: Revista Território, Rio de Janeiro, n. 9, jul./dez. 2000 <www.revistaterritorio.com.br/pdf/09_5_ferreira.pdf>. Acesso em: 09 nov. 2013.

2
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis, Vozes, 1998, p. 202.

3
RELPH, Edward. Reflexões sobre emergência, aspectos e essência de lugar. In: MARANDOLA JR, Eduardo; HOLZER, Werther; OLIVEIRA, Lívia de (org.). Qual o espaço do lugar? São Paulo, Perspectiva, 2012, p. 25.

4
WEBBER, Melvin et al. Explorations into urban structure. Philadelphia, University of Pennsylvania Press, 1964.

5
AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, Papirus, 2012.

6
POE, Edgard Allan. O homem da multidão. In Histórias extraordinárias. São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p. 259.

referências bibliográficas

ARAÚJO, Rosane Azevedo de. A cidade sou eu. Rio de Janeiro, Novamente, 2011.

AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, Papirus, 2012.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.

BOGÉA, Marta. Cidade errante: arquitetura em movimento. São Paulo, Senac São Paulo, 2009.

GUATELLI, Igor. Arquitetura dos entre-lugares: sobre a importância do trabalho conceitual. São Paulo: Senac São Paulo, 2012.

MARANDOLA JR, Eduardo; HOLZER, Werther; OLIVEIRA, Lívia de (org.). Qual o espaço do lugar? São Paulo, Perspectiva, 2012.

TUAN, Yu-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo, Difel, 1983.

sobre o autor

Ulisses Maciel é arquiteto e urbanista graduado pela Universidade Católica de Pernambuco (2006), especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (2009) e mestrando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua desde 2008 como arquiteto da Companhia do Metropolitano de São Paulo – Metrô.

Acesso a estação de metrô, São Paulo
Foto Abilio Guerra

 

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