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drops ISSN 2175-6716

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Leia o artigo de Vittorio Corinaldi sobre a participação de Israel na Bienal de Veneza e alguns outros pavilhões que lhe chamaram a atenção

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CORINALDI, Vittorio. Sempre Veneza. A Bienal de Arquitetura e a cidade como suporte expositivo. Drops, São Paulo, ano 11, n. 039.07, Vitruvius, dez. 2010 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/11.039/3705>.


Santa Maria dei Miracoli, Veneza
Foto Flavio Coddou


Voltei a Veneza – como aspiro constantemente fazer, por meu declarado amor por essa cidade – para presenciar a exposição da Bienal de Arquitetura que lá ora se encerra. Fui também atraído pelo tema com que se apresentou o Pavilhão de Israel: "Kibutz, uma arquitetura sem precedentes".

Resido em Israel há muitos anos, e uma larga parte deles passei como membro de um Kibutz, comunidade constituída em bases coletivistas de inspiração socialista. Também exerci durante todos aqueles anos a função de arquiteto no escritório de planejamento da federação dessas comunidades (1). E apesar de não ter tido qualquer participação na organização da mostra, queria ver de perto como seria apresentado e recebido um tema que por tanto tempo foi o centro de minha atividade profissional.

Lamento constatar que a intenção dos organizadores não teve sucesso e o cabedal criativo de quase cem anos na procura de uma identidade urbanística e arquitetônica para o Kibutz não foi adequadamente exposto. Mesmo porque a intenção expressa pelos curadores (dentre os quais alguns alheios ao cotidiano dessa singular organização social) foi – além de um enfoque histórico – a de procurar aplicar os princípios de unidade espacial e disciplina de planejamento que caracterizavam o kibutz, para uma sociedade urbana capitalista basicamente contrária a uma visão centralizada e não parcelada do território.

O próprio kibutz – que quer ver em sua experiência (hoje muito solapada) um potencial de renovação – alimenta ainda esta ilusória ambição. E ainda é difícil prever se algo de seus princípios urbanísticos poderá ultrapassar as ambições individualistas dos membros da comuna em transformação ou a barreira da especulação imobiliária que atualmente caracteriza toda a atividade do arquiteto e do urbanista.

Se alguma qualidade positiva pode se apontar na apresentação israelense, será esta a modesta austeridade, bem enquadrada na simples arquitetura do pavilhão, e em franco contraste com a custosa coreografia a que recorreram algumas delegações, num esforço pouco convincente de dar corpo a conceitos de duvidosa filosofia.

De fato, ao sair dos recintos da Bienal, o balanço a que se chega é de que seria tempo de fazer voltar a apresentação a uma exibição clara e despretensiosa de projetos, não de idéias abstratas cuja ligação com arquitetura é – quando muito – "cerebral". Neste sentido, há que salientar poucas representações, que fazem jus a este mais sadio critério.

O Brasil, apesar da infalível e já maçante enésima presença de Niemeyer, figura muito dignamente com projetos de jovens arquitetos voltados a problemas reais e concretos. Em especial destacam-se intervenções com sentido de saneamento e urbanização em áreas de favela: uma saudável digressão da corrente mundial de formalismo e simbolismo assentados sobre temas de exclusivo brilho pessoal de arquitetos "da moda" e de prestigio de políticos e homens de finanças.

Também faz um papel de honra a Sala Especial dedicada a Lina Bo Bardi. A contribuição desta grande artista é apresentada de forma simples, clara e direta: desenhos e projetos originais, maquetes didáticas como a do Sesc Pompéia, filmes documentários bem apresentados sobre a trajetória da arquiteta e o contexto social e cultural em que atuou.

A Finlândia mostra projetos de escolas, apresentando com gráfica impecável edifícios escolares de invejável alto nível, bem na tradição da boa arquitetura escandinava.

O Chile documenta de forma não-retórica o esforço de recuperação que se fez necessário com o recente grande terremoto, mostrando positivas soluções de emergência adotadas dentro de uma atitude civil merecedora de admiração e respeito.

Portugal apresenta-se de forma despretensiosa nos salões da majestosa "Cá Foscari" (O palácio renascentista sede da Universidade de Veneza) com quatro projetos exibidos com claríssimos painéis acompanhados de filmes e maquetes: um conjunto habitacional de caráter social no Porto, de Alvaro Siza; e mais três residências, dos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus, Ricardo Bak Gordon e João Luiz Carrilho da Graça: projetos de absoluta clareza planimétrica e volumétrica, como vem salientando a atual arquitetura portuguesa.

Porém, o grande mérito da Bienal é, sem dúvida, sua localização na cidade de Veneza: essa eterna maravilha, exemplo de vitalidade que sempre se renova, de equilíbrio anti-retórico; rica mas não exibicionista nem formalista, aristocrática e ao mesmo tempo popular, conservadora e também inovadora – como o demonstram novas intervenções, a exemplo do antigo Matadouro Municipal transformado em nova sede da Universidade (em um aproveitamento inteligente das construções existentes, no local que no passado havia sido destinado ao projeto do Hospital de Le Corbusier), ou os antigos armazéns da Alfândega, na inigualável posição dominante da "Punta della Dogana", magistralmente reformados em Galeria de Arte por Tadao Ando, ou a nova ponte de Calatrava ligando o terminal de ônibus à estação ferroviária no início do Canal, ou novos conjuntos habitacionais em áreas de periferia, habilmente enquadrados no singular tecido urbano.

E as próprias instalações da Bienal, no antigo recinto do "Arsenal" e nas impressionantes estruturas de Sansovino, fazendo uso dos estaleiros da histórica frota da Republica Serenissima – são um documento e uma lição de arquitetura, mais válidos do que grande parte do material exposto.

nota

1
Ver CORINALDI, Vittorio. Kibutz – exame de uma quase-utopia. Óculum, Campinas, n. 7-8, jan./dez. 1995, p. 68-75.

sobre o autor

Vittorio Corinaldi, italiano de nascimento, é arquiteto formado na FAU USP e está radicado em Israel, vivendo atualmente em Tel Aviv.

Pavilhão de Israel na Bienal de Veneza
Foto Flavio Coddou

Pavilhão do Brasil
Foto Flavio Coddou

Pavilhão da Finlândia
Foto Flavio Coddou

Pavilhão de Portugal
Foto Flavio Coddou

Casa Candeias, João Luis Carrilho da Graça. Participação de Portugal na Bienal de Veneza
Foto Fernando Guerra | FG + SG, 2009

Saal - Bouça, Álvaro Siza Vieira. Participação de Portugal na Bienal de Veneza
Foto Fernando Guerra | FG + SG, 2006

Saal - Bouça, Álvaro Siza Vieira. Participação de Portugal na Bienal de Veneza
Fernando Guerra | FG + SG, 2006

 

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