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drops ISSN 2175-6716

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O artigo de Edson Mahfuz retoma e explora o chamamento feito por Luís Augusto Fischer aos arquitetos para que retomem sua participação no debate público sobre a cidade, ressaltando a importância dos profissionais da área na prática urbanística

how to quote

MAHFUZ, Edson. Arquitetos e sua participação no debate público. Drops, São Paulo, ano 11, n. 035.01, Vitruvius, ago. 2010 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/11.035/3364>.


Fundação Iberê Camargo. Arquiteto Álvaro Siza
Foto Nelson Kon


Há algumas semanas o professor e escritor Luís Augusto Fischer, aqui mesmo neste Caderno de Cultura, fez um chamamento aos arquitetos para que participassem mais do debate público sobre a cidade. Confesso que fiquei muito surpreso com a sua atitude, não porque fosse inadequada ou fora de propósito, mas por seu ineditismo. O modo como descreveu a nós, arquitetos, e a importância que nos concedeu são raríssimos e muito reconfortantes no cenário atual da prática arquitetônica e urbanística.

Não tenho maiores divergências em relação ao que ele pede, mas talvez seja oportuno fazer algumas precisões em relação aos temas que a sua manifestação suscita, falando desde a perspectiva de quem é da profissão por ele instada a participar mais.

Em primeiro lugar, duas observações: talvez pudéssemos participar mais ou de maneiras diferentes, mas muitos de nós continuam a expressar suas opiniões em público. O próprio Fischer mencionou os debates ora promovidos pelo IAB-RS e, se me permitem a auto-referência, eu mesmo mantenho há anos o blog Falando de Arquitetura, cujo público alvo são os não-arquitetos. Por outro lado, penso que a cobrança feita por Fischer aos arquitetos é um fato isolado: a sociedade não parece estar exatamente ávida pela nossa opinião, nem demonstra nenhuma carência consciente em relação ao nosso trabalho.

Após ler o texto de Fischer fiquei com a impressão de que talvez a sua percepção do papel do arquiteto na sociedade atual não corresponda mais à imagem por ele formada durante a sua formação universitária e ao longo dos embates contra a ditadura sob a qual vivemos por várias décadas, dos quais os arquitetos tanto participaram.

Nas últimas décadas a arquitetura mudou e isso talvez explique, ainda que parcialmente, a pouca participação dos arquitetos nos debates culturais. É evidente uma crise disciplinar, marcada pela perda da influência que a arquitetura gozava até meados do século XX como centro ideológico do modernismo; isso acarretou a decadência da arquitetura como profissão relevante aos olhos da sociedade. Não obstante a relevância que Fischer atribui corretamente à arquitetura, e a caracterização dos arquitetos como profissionais que, pelo seu conhecimento profundo da arquitetura e das cidades, deveriam estar prestando maiores serviços à sociedade, a verdade é que, na sociedade do século XXI, nossa profissão se tornou superficial e acessória. A sociedade parece seguir em frente sem arquitetura e urbanismo − afinal, pouco do que é construído tem a participação de arquitetos. Se deve fazer isso é outra discussão mas está mais do que comprovado que é possível, embora as consequências possam ser nefastas do ponto de vista da qualidade de vida.

Existem vários motivos para a decadência da arquitetura e, consequentemente, do papel dos arquitetos na sociedade nos tempos atuais. Um deles tem a ver com o fato de que o mundo atual parece ser regido pelos valores do mercado − e da sociedade de consumo que o define −, o que atinge, embora de modo parcial, inclusive os redutos mais resistentes da cultura. Entre esses valores estão o lucro imediato como objetivo primordial, a obsolescência planejada, a exacerbação da personalidade individual e o uso das situações de impacto como recurso promocional. Ao abraçar esses valores, a arquitetura passa a ter um papel instrumental e subalterno na sociedade. Prova disso é o fato de que a maior parte das decisões sobre o meio ambiente construído ou os objetos de uso já não passam pelas mãos de arquitetos, estando agora dominadas pelos aspectos prospectivos do marketing. Nesse cenário há pouco espaço para conceitos como o bem comum, a preservação ambiental e cultural, e a busca de soluções arquitetônico-urbanísticas adequadas e permanentes, as quais têm retorno em longo prazo.

Outro motivo da decadência do papel e do valor do arquiteto tem a ver com a falta de interesse real pela cidade por parte tanto do público como do poder público. Em qualquer cidade em que qualidade de vida seja algo real e não um slogan publicitário, a sua administração estuda a cidade, identifica áreas com potencial de desenvolvimento e literalmente projeta o seu futuro. Assim, raramente é pega de surpresa por situações como a do Pontal do Estaleiro − cuja verdadeira questão, por falar nisso, não deveria ser permitir ou não a construção de imóveis residenciais, mas se deveríamos construir na orla. Ao invés de projetar e induzir o futuro, definindo o que deve ser feito em cada parte da cidade, nossas administrações limitam-se a criar restrições − de uso, de ocupação, de altura, etc. Isso faz com que estejam sempre “apagando incêndios”, tendo que responder apressadamente e sob intensa pressão às demandas dos empreendedores. Prova da visão equivocada dos governos a respeito do urbanismo e da arquitetura é o fato de que secretários de urbanismo e planejamento raramente são técnicos: ou imagina-se que qualquer um pode exercer cargo de tal importância para a vida de todos com igual eficiência ou, como não entendem a sua relevância, o tratam como mais um posto a ser incluído nos acertos entre partidos. É muito revelador que a arquitetura e o urbanismo continuem sem fazer parte da cultura dos cidadãos.

Ainda na esfera do poder público, a ausência de programas de obras de infra-estrutura para a vida cotidiana − bibliotecas, mercados, centros culturais, centros esportivos, centros de saúde, etc. − não qualifica a vida da população e não envolve os arquitetos naquilo para o qual se prepararam: a prestação de serviços para a sociedade como um todo. A administração não propõe, a sociedade não reivindica, os arquitetos não fazem.

Um terceiro motivo para a decadência do papel do arquiteto e consequente baixa participação dos arquitetos nos debates importantes é uma mudança perceptível no seu perfil profissional. Pelo menos até o final do regime militar no Brasil, a arquitetura era vista como uma profissão com um papel social definido, e aqueles que nela ingressavam tinham a esperança de contribuir para a elevação da qualidade de vida do maior número de pessoas. Hoje nem todos pensam assim, preferindo ver a profissão como um veículo de auto-promoção e enriquecimento atrelado aos valores do mercado e ignorando os aspectos sociais e culturais da profissão. A própria natureza da profissão como prestadora de serviços é entendida por alguns hoje como rendição total aos desejos do cliente e às imposições do mercado, configurando uma prática que muda ao sabor das modas, não importando a sua falta de relevância.

Esse breve quadro configura uma situação de um certo desânimo para os arquitetos que ainda acreditam que sua profissão pode fazer diferença. O chamado de Fischer aos arquitetos é importante e faz sentido, mas nos encontra ressabiados pela falta de receptividade de iniciativas anteriores. Talvez a retomada da militância generalizada dependa de que nos convençamos de que o professor Fischer não é uma voz isolada a nos convocar para que usemos nosso conhecimento em benefício da cidade e da sociedade que nela vive.

nota

Artigo originalmente publicado no jornal Zero Hora de Porto Alegre, em 29 de agosto de 2009.

sobre o autor

Edson da Cunha Mahfuz, arquiteto, professor titular da UFRGS.

Edson da Cunha Mahfuz, Porto Alegre RS Brasil

 

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