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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo apresenta as ecovilas como uma forma diferenciada de assentamento humano sustentável, de caráter comunitário, de respeito à natureza e a favor da renovação e maior significância das relações sociais.

english
The article presents ecovillages as a differentiated form of sustainable human settlement of a community character, of respect for nature and in favor of the renewal and greater significance of social relations.

español
El artículo presenta las ecoaldeas como una forma diferenciada de asentamiento humano sostenible, de carácter comunitário, de respeto a la naturaliza y en favor de la renovación y una mayor importancia de las relaciones sociales.


how to quote

BRITTO, Ana Luiza Rodrigues de; ESPÓSITO-GALARCE, Fernando. Ecovila como forma de vida alternativa. O movimento do século 21 para uma vida em mais equilíbrio com o meio ambiente e o ser humano. Arquitextos, São Paulo, ano 21, n. 241.07, Vitruvius, jun. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.241/7780>.

“O desenvolvimento foi – e continua a ser em grande parte – uma abordagem de cima para baixo, etnocêntrica e tecnocrática que trata as pessoas e culturas como conceitos abstratos, estatísticas que podem ser movimentadas para cima e para baixo em gráficos de progresso” (1).

Em meio à sociedade contemporânea e suas mudanças velozes e incessantes, o individualismo é percebido de forma cada vez mais presente, assim como a criação constante e excessiva de novas necessidades. É necessária a compreensão – também acrescentaria indagação – sobre a forma de dominação exercida pelo capital em relação às formações sociais; o capital “é a ‘luz universal’ que modifica todas as outras ‘cores’ econômicas e sociais” (2).

As prioridades da administração urbana muitas vezes são redefinidas negativamente pelo poder político e econômico, causando impactos diretos na vida pública e no desenvolvimento das cidades, já que as economias baseadas nos capitais internacionais se pautam em grande maioria, em interesses de retorno financeiro, pouco relacionados à qualidade do espaço urbano, da vida urbana e tampouco nas relações que estas definições de espaço geram na vida das pessoas (3).

Atualmente, a vida pública tem se transformado em obrigações mais formais, negligenciando muitas das vezes princípios de convívio, contato e interação social (4). Nas metrópoles, os costumes e interações com os outros, são percebidos como formais, distantes e frios, e no pior dos casos, como falsos. O próprio espaço urbano e arquitetônico tem muitas vezes deixado de estimular tais questões fundamentais da vida em comunidade e convívio.

Frente à emergência global de mudança por conta de diversos problemas sociais, ambientais e espaciais, nas últimas décadas experiências de cunho comunitário alternativo têm surgido em maior quantidade e vigor, e em diversas localidades. Estas experiências marcam um movimento de contracultura, de contradição ao convencional da sociedade atual, e de busca por um novo sentido de vida pautado na melhoria entre as relações sociais e o ambiente habitado, questionando valores comuns da sociedade pós-industrial, bastante marcada pela produção em escala, consumo desenfreado, desigualdade social e grande degradação para o meio ambiente. A partir da construção coletiva de identidade, apresentam também um modelo diferenciado de vida e sociedade, a partir da própria criação de valores sociais e de desenvolvimento – aparentemente não pautado em sua totalidade no retorno financeiro e necessidades supérfluas. É nessa articulação de valores de vida em sociedade que a ecovila surge.

“É com base em um propósito comum que todo grupo de ecovila genuína nasce, e principalmente, se desenvolve ao longo de um processo de construção fatível do lugar zeloso. Nesse contexto, a intenção [..] se mescla a configurações valorativas, técnicas e administrativas [...] em construção no intuito de oferecer base para o grupo afirmar seu lugar diante de um mundo global, em crise, e em permanente contexto de mudanças socioespaciais” (5).

A ecovila vem então como uma das possíveis formas de desvio à dependência da economia global, seus objetivos impostos de maneira impessoal, do descaso das consequências ambientais e da fragilização das relações sociais. Vale enfatizar que a ecovila não pretende realizar um mesmo posicionamento errôneo da ocidentalização (6) ao ser apresentada no passado como um “modo de vida apropriado a todas as sociedades humanas” (7).

Partindo de uma análise em escala ampliada, a ecovila se apresenta como uma alternativa – ao modo de vida das grandes cidades, que apesar de ser um lugar de diversidade e encontro de culturas, pode ser compreendido negativamente por muitos – podendo ser considerado um espaço opressor, violento, individualizado, desconectado e impessoal, a partir de uma matriz racional particular. De maneira a auxiliar o desenvolvimento do movimento das ecovilas e também a propagação de suas ideias nas cidades, há uma série de redes e institutos que trabalham auxiliando estas comunidades intencionais que estão focadas na preocupação ambiental ao redor do globo.

“Trata-se de um empreendimento de certa complexidade, fruto de uma opção grupal e comunitária ou de uma filosofia de vida, uma entre tantas que marcam a sociedade moderna e pluralista. Sob essa ótica, a ecovila é um ideário e uma pedagogia” (8).

Esquema resumo sobre ecovilas
Elaboração Ana Luiza Britto

 

Ecovilas, organizações e redes de apoio

De forma a apresentar o panorama de ecovilas a nível global e também nacional, são apresentadas aqui redes de apoio – e outras organizações relacionadas à pesquisa sobre o tema – e também exemplos de ecovilas, com o intuito de elucidar a importância da presença das ecovilas no cenário atual, e o aumento de sua relevância conforme sua evolução. Tais redes se constituem a nível internacional, nacional e até mesmo regional, cada uma com sua diretriz particular, mas sempre focadas em auxiliar o movimento a obter maior repercussão em sua localidade e em âmbito internacional. As redes de maior influência no movimento podem ser consideradas: FIC, Gaia e GEN.

FIC

Possivelmente, a Fellowship for Intentional Community – FIC (9), fundada nos Estados Unidos em 1968, foi a primeira organização a nível global, voltada para comunidades intencionais – “grupos de pessoas que vivem com base em valores em conjunto com alguns recursos compartilhados com base em valores comuns explícitos” (10). Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, com o intuito de apoiar e promover o desenvolvimento destas comunidades cooperativas a partir da potencialização de troca de bens, serviços, técnicas e experiências entre tais grupos dos Estados Unidos. O diferencial em relação a outras redes é a distinção de abranger também comunidades cujo foco não seja necessariamente voltado para o meio ambiente, agregando ecovilas, cohousing, comunas, cooperativas estudantis, comunidades espirituais, entre outras.

Gaia

Em 1987, fundou-se a associação Gaia Trust na Dinamarca, uma organização filantrópica, criada por Hildur e Ross Jackson. O objetivo era a promoção de um modo de vida mais espiritual e sustentável, através de cursos e encontros para troca de informações e também financiamento de iniciativas e negócios ecológicos entre comunidades diversas (11). “O intuito era de promover o movimento das ecovilas como uma estratégia de transformação da sociedade” (12). A estratégia da Gaia era de trabalhar oferecendo suporte ao movimento das ecovilas através de concessão de valores em dinheiro, e investindo capital em empresas sustentáveis para fomentar tal indústria e também criar mais empregos na área. O maior projeto da Gaia foi a criação da Global Village Network – GEN, que será abordada a seguir.

Gaia Education

Entre 2003 e 2005, foi criada a Gaia Education (13), uma entidade educacional voltada para o desenvolvimento, sistematização, aplicação e divulgação de um currículo para o desenho de comunidades sustentáveis, buscando algo que pudesse conformar algum tipo de padrão destas iniciativas que se identificavam como ecovilas. Este currículo é elaborado a partir do conhecimento relativo aos ideais e também às práticas das ecovilas, de acordo com diversas comunidades ao redor do mundo. A principal contribuição da Gaia Education é o programa de capacitação interdisciplinar, chamado Educação para Design em Ecovilas – EDE, cujo objetivo é o auxílio para o desenvolvimento de comunidades sustentáveis alternativas.

GEN

A nível internacional, a Global Ecovillage Network – GEN (14) pode ser considerada a principal rede, voltada para dar apoio para as iniciativas denominadas ecovilas, sendo um canal através do qual diversas ideias são compartilhadas, a partir da publicação constante de livros, boletins e periódicos. Além disso, constitui um portal online de informações constantemente atualizado, com o objetivo de prover dados, ferramentas e exemplos para auxiliar na expansão destas práticas sustentáveis, e naturalmente, com os avanços tecnológicos e ampla difusão da internet, a mesma acaba sendo um grande instrumento de divulgação e troca para ampliar o alcance das ideias das ecovilas.

A GEN foi criada em 1995 (15), “tendo como objetivo estreitar as relações entre as diversas comunidades espalhadas pelo mundo, coordenar projetos, assim como aperfeiçoar e expandir o número de assentamentos” (16). A criação da GEN conforma uma importante iniciativa para o movimento de maneira ampla, pois busca unificar tal mobilização, assim como auxiliar a enfrentar desafios.

No momento a GEN está presente na Ásia, Oceania (GEN for Oceania and Asia – Genoa), Europa (GEN Europe), África e Américas, com o intuito de difundir informações e propiciar interações desta rede global. A rede continua tendo um papel bastante importante de articulação, unindo muitos adeptos ao movimento que buscam maneiras de transformar suas vidas nas esferas pessoal e coletiva, e que, ao mesmo tempo, direta ou indiretamente buscam realizar uma mudança em prol de um novo modelo de sociedade. Vale ressaltar que apesar do importante papel para o desenvolvimento e também para a solidificação das ecovilas, muitas experiências acabam ocorrendo de forma autônoma, sem qualquer conexão com a rede global.

Outros canais – de menor atuação e influência – podem ser mencionados, como a Danish Ecovillage Network (17) e a Ecovillage Network of America – ENA (18). Tendo como referência o Brasil, podemos citar a ENA Brasil, a Associação Brasileira de Comunidades Auto-sustentáveis – Abrasca, Ecovilas Brasil, Movimento Brasileiro de Ecovilas, Instituto de Permacultura – Ipoema e o Instituto de Permacultura e Ecovilas do Serrado – Ipec.

Abrasca

Abrasca é a associação mais antiga no Brasil, criada entre 1978 e 1982 com o intuito de unir as comunidades alternativas do país para que houvesse troca de experiências entre seus moradores, e também para catalogar tais comunidades, unindo dados, criando boletins, organizando eventos e, principalmente, divulgando temas sobre o movimento de comunidades no Brasil.

Ecovilas Brasil

Este é um projeto de pesquisa realizado com o objetivo de produção de material recolhido a partir de vivências em ecovilas – por parte de um casal pesquisador -, para gerar reflexões e questionamentos frente ao mundo contemporâneo e trazendo colaborações para uma possível mudança de paradigma atual do modelo de civilização. O conjunto das pesquisas realizadas até o presente momento foi lançado ao final do ano de 2017, que contou com um apoio de colaboração financeira coletiva.

Movimento Brasileiro de Ecovilas – MBE

Esta pode ser considerada a organização mais recente no país, tendo sido fundada em 2011 por Marcio Bontempo juntamente a moradores de ecovilas e proprietários rurais com o mesmo interesse em comum de organizar comunidades de permacultura. A MBE se utiliza bastante do recurso de redes sociais (19) para manter sua atividade de forma constante, publicando uma agenda de reuniões, seminários, encontros, cursos e diversas outras iniciativas referentes ao tema de ecovilas. Além disso, o movimento busca a realização de mapeamento, cadastro, organização e também disponibilização de dados sobre ecovilas brasileiras e internacionais. De forma geral, é possível perceber uma similaridade com o intuito do GEN, em fortalecer o movimento e disponibilizar uma série de informações referente ao assunto.

Foram apresentadas acima algumas das muitas redes de apoio aos movimentos, porém, mesmo com uma série de instituições e organizações, não há uma definição universal e definitiva acerca do tema, tampouco uma forma ideal de identificação destes assentamentos. Sendo assim, há diversas metodologias e sistemas de registros de ecovilas ao redor do mundo, mas cada sistema conta com suas próprias definições e considerações, não havendo uma matriz global capaz de realizar um levantamento único. Porém, segundo informação oferecida pelo próprio site da FIC em maio de 2016 (20), GEN e FIC estão trabalhando em parceria, a partir da produção de livros sobre comunidades. Ambas as organizações estão de comum acordo quanto a colaborar em suas bases de informação, melhorando-as e criando um banco de dados mais preciso e útil.

Apesar de não haver um levantamento preciso de ecovilas ao redor do mundo e em território brasileiro, é valido apresentar para este artigo a estimativa a partir de registros realizados pela GEN e pela FIC. Como não há um monopólio sobre as ecovilas, e tampouco um programa de certificação, cada ecovila decide de que maneira irá se identificar e onde se registrar. Há uma série de ecovilas que compartilham dos ideais e práticas disseminadas pelas associações que não estão oficialmente inscritas em nenhum tipo de organização, fazendo parte informal do movimento mais amplo, porém não se privando de serem compreendidas como ecovilas.

Enquanto a GEN tem registradas 558 ecovilas – sendo 17 no Brasil -, a FIC contabiliza 463 ecovilas – sendo 22 no Brasil. De acordo com levantamento realizado pela GEN, a relação de países com maior número de ecovilas segue a seguir:

  • Estados Unidos: 118 ecovilas;
  • Austrália: 31 ecovilas;
  • Canadá: 26 ecovilas;
  • Brasil, Espanha e Itália: 17 ecovilas cada.

Como casos referenciais, serão apresentadas três ecovilas de conhecimento mais difundido ao redor do mundo, de forma a aprofundar alguns aspectos e demonstrar o caráter de heterogeneidade do movimento, sendo elas: Findhorn na Escócia – por ser reconhecida como a primeira ecovila do mundo –, Damanhur na Itália – pelo desenvolvimento de sua economia própria –, e Auroville na Índia – por sua dimensão considerável em termos de espaço físico e número de habitantes. Esta apresentação é realizada para que se possa obter uma melhor noção de algumas diferentes maneiras de composição de ecovilas; é importante ressaltar que não se busca realizar um aprofundamento acerca de cada modelo específico, mas sim apresentar um panorama para auxiliar em uma posterior análise sobre a práxis da ecovila. É importante perceber estas práticas como, “um conjunto de iniciativas que esboçavam a visão de uma nova cultura, com um estilo de vida simples, comunitário e integrado com a natureza” (21).

Findhorn

Findhorn (22) Foundation and Community (23) é reconhecida como a primeira ecovila ao redor do mundo, tendo sido iniciada em 1962 na baía de Findhorn no Norte da Escócia. A ecovila começou a se desenvolver em um momento de crise financeira, com somente três fundadores – sendo que atualmente conta com aproximadamente quinhentos habitantes de mais de quarenta nacionalidades distintas – em um parque, com um conjunto de trailers, que posteriormente foram sendo substituídos por residências fixas.

Um dos motivos que atraiu rapidamente muitos adeptos, logo em seu início, foi o trabalho de recuperação do solo e também de reflorestamento do local, que consistia em solo arenoso e árido, atraindo a atenção de curiosos e auxiliando uma rápida disseminação de suas propostas. A partir desta propagação, um grande número de pessoas se juntou ao movimento e, em 1972, foi criada a Fundação Findhorn, voltada para práticas educacionais.

Atualmente esta ecovila é uma associação sem fins lucrativos, a qual oferece programas de educação holística – que atrai indivíduos compromissados em criar um modelo de cooperatividade, modo de vida voltado para a espiritualidade e um ambiente sustentável altamente conectado com a natureza. Os habitantes de Findhorn trabalham em sua administração, ou então em diversas iniciativas do local tais como: artesanato, serviços de terapias alternativas, produção de queijos, vinhos, frutas, editora, cafés, lojas, gráficas, produção de painéis solares e cursos para capacitação voltados para o tema da sustentabilidade.

Anualmente, são recebidos aproximadamente catorze mil visitantes, que em grande maioria participam da chamada Semana de Experiência – uma proposta para auxiliar a compreensão dos preceitos e funcionamentos do lugar, que opera como um programa básico preliminar. A partir deste programa, outros cursos, vivências e workshops são oferecidos, sobre valores e técnicas utilizados na ecovila, como técnicas de construção ecológica, geração de energia responsável, reciclagem, tratamento de esgotos e produção de alimentos orgânicos.

Buscando estabelecer e fortalecer a economia local, a ecovila procura gerar renda e realizar os gastos dentro de seus limites territoriais e, para tal objetivo, possui uma série de negócios comunitários que se estruturam em diversos segmentos (24):

  • Centro internacional de educação;
  • Comércio com fornecedores éticos;
  • Fundo de investimento para empreendedores éticos;
  • Construtora para construção ecológica e gestão;
  • Empresa fundiária para conservação, regeneração e assentamento humano ecológico;
  • Ensino de design de comunidades sustentáveis (Gaia Education);
  • Padaria de produtos orgânicos;
  • Escola de artes visuais para incentivar o estudo;
  • Hospedagem para férias;
  • Produção de remédios florais;
  • Programas de intercâmbio;
  • Projeto de restauração ecológica, entre outros.

Assinalamos algumas das características de Findhorn:

  • Todas as construções seguem princípios estabelecidos pela própria organização, se tratando de bio-construções, com técnicas variadas;
  • Para suprir sua demanda energética, há turbinas eólicas e painéis solares que, juntos, produzem o necessário para seus habitantes;
  • Possui seu próprio sistema de esgotos, a partir de sistemas biológicos de tratamento de águas cinzas e pretas;
  • Possui sistema de captação de águas da chuva, para seu reaproveitamento;
  • Utiliza um sistema de aquecimento solar de água;
  • Desenvolveu uma moeda complementar, denominada Ekos, que circula dentro da Ecovila e também em negócios locais em suas proximidades mais imediatas;
  • Possui um programa de compartilhamento de veículos, para diminuir a quantidade de automóveis, sem contudo atender às necessidades dos moradores;
  • É capaz de suprir sua demanda de alimentação a partir da plantação de verduras;
  • Possui seu próprio centro de reciclagem.

Damanhur

Damanhur foi fundada pelo líder espiritual Oberto Airaudi (25) junto com parceiros, em 1975, em Vidracco em Piemonte, no Norte da Itália – pouco mais de uma década após a criação da primeira ecovila Findhorn –, como um experimento social de maior espiritualidade. Passou a ganhar notoriedade por este motivo, por se conceber como uma espécie de laboratório de experimentações de formas de vida sustentáveis, em busca de harmonia com a natureza e seus elementos, com base na solidariedade, compartilhamento, amor e respeito ao meio ambiente – pensada como uma alternativa para o futuro da humanidade. Segundo o embaixador da ecovila, Crotalo Sesamo, a comunidade pode ser vista como um local propício para as pessoas retornarem a seus princípios, valores, sonhos e ideais, que não necessariamente são os impostos pela sociedade no mundo de hoje (26).

Atualmente Damanhur possui sua própria Constituição e é uma Federação de comunidades espirituais com reconhecimento da Organização das Nações Unidas – ONU; através de um modelo de vida social e espiritual, busca levar inspiração para pessoas e conta com uma população de aproximadamente seiscentos habitantes – habitantes estes chamados de damanhurianos –, distribuídos em uma área de quinze quilômetros quadrados, os quais vivem em sua maioria em residências que abrigam em média vinte pessoas (a ideia é agregar diferentes grupos, não havendo distinção entre sexo nem idade, mas havendo um espaço pessoal para cada indivíduo, mas sim compartilhamento de ambientes como cozinha, salas e jardins). Vale ressaltar que a ecovila busca oferecer diferentes possibilidades para cada indivíduo, de acordo com o nível de compromisso escolhido por cada um, criando a opção de se viver integralmente na comunidade e também de se viver fora, mas participar dos variados projetos ligados a Damanhur (27).

O terreno é estruturado em cinco principais áreas: florestal (de preservação), agrícola (de campos de produção e fazendas orgânicas), habitação, industrial (de empresas e diversas atividades econômicas) e educação (escolas, universidade e outras oficinas de aprendizado). A partir do desenvolvimento de uma escola e uma universidade, são oferecidos cursos e seminários para interessados de todo o mundo, além de centros de pesquisa e ensino nas áreas de ciências e tecnologia. Além de sediar estas experiências, a ecovila também possui centros em outras cidades da Itália, Europa e Japão, onde organizam eventos com a intenção de compartilhar seu conhecimento sobre como viver em coletividade e como criar uma comunidade de sucesso a partir de um sistema social baseado na ideia de comunhão.

A ecovila também conta com uma moeda complementar denominada damanhurian crédito – com valor equivalente ao euro, podendo ser trocada pelo mesmo valor dentro da ecovila -, com o intuito de fomentar a economia local, através de compras e realização de serviços dentro da própria comunidade. Diferente da posição da ecovila Findhorn, em não fomentar fins lucrativos, Damanhur conta com negócios bem sucedidos, criados por seus habitantes – em diversas áreas como energia renovável, roupas ecológicas, produção alimentícia, construção ecológica, educação holística, entre outros.

Auroville

Auroville foi inaugurada em 1968 – logo após a criação de Findhorn – no estado de Tamil Nadu (28), no Sul da Índia, sob a liderança de uma guia espiritual. O propósito deste assentamento é a união do ser humano frente a toda diversidade existente, através do desenvolvimento de uma comunidade ideal. Segundo informação de seu portal oficial (29), Auroville é a primeira e única organização reconhecida internacionalmente, de experiências vigentes na união do homem e transformação da consciência, com preocupação em vida sustentável. A intenção é ser uma cidade universal (30), na qual todos possam viver em uma mesma paz, independente de nacionalidade, crenças, política e ideias.

Sua população consiste em habitantes na faixa etária média de trinta anos, vindos de mais de quarenta e cinco países, somando aproximadamente duas mil e quinhentas pessoas (31), – das quais, um terço é indiana – e com uma população flutuante (32) de duzentas pessoas. Esta comunidade consiste em uma área de cerca de três mil acres – podendo ser considerada a maior ecovila do mundo. O terreno é dividido nas seguintes áreas principais:

  • Área da Paz – construção principal da ecovila, de representação dos ideais de união e harmonia;
  • Zona Industrial – administração da cidade e diversos negócios;
  • Zona Residencial – construções dos moradores, com pequenos jardins e áreas de convívio comunitário;
  • Zona Internacional – pavilhões de diferentes nacionalidades, para que cada uma possa demonstrar sua contribuição para a causa da comunidade sustentável, e também espaço para troca de experiências;
  • Zona Cultural – espaço destinado a atividades culturais, artísticas e esportivas como um todo;
  • Cinturão Verde –, fazendas orgânicas e vegetação nativa, com a intenção de agir como uma barreira contra o contato urbano, além de servir como fonte de alimentos, insumos para cura e local de recreação.

Assim como muitas outras comunidades intencionais, conta com abertura para visitantes de todo o mundo e oferta de trabalho voluntário, além de uma extensa variedade de cursos e programas com os principais temas:

  • Tecnologias de construção de baixo custo e sustentáveis;
  • Formas de vida sustentável;
  • Auto suficiência alimentar;
  • Planejamento arquitetônico e urbano sustentável;
  • Educação ambiental;
  • Medicina alternativa;
  • Educação experimental;
  • Filosofia.

Considerações finais

Enfrentamos uma crise global, com emergência por um novo paradigma, baseado em uma melhor compreensão da relação entre o ser humano e a natureza, e a conscientização sobre sua atuação neste mundo. São necessários a reflexão e pensamento holístico para o desenvolvimento de novas práticas e valores. A ecovila aparece como um modelo propositivo de novas socio-espacialidades, redefinindo a forma de viver a partir de uma transformação social, econômica, física, de estilo de vida, de novos hábitos e nova cultura.

É errôneo e ingênuo, contudo, enxergar as ecovilas como a solução dos problemas atuais, ou como uma alternativa perfeita. Há uma série de problemas, contradições e melhorias a serem realizadas. Vale enfatizar que as soluções sugeridas são somente parciais e em determinados agrupamentos, não compondo uma ação de macro escala. Somada a isto, sua conotação é utilizada de forma ampla e indiscriminada, muitas vezes como forma de atração comercial, fruto de estratégias de empreendedores visando alcançar lucros para diversos projetos imobiliários. Porém, mesmo com diversos aspectos negativos, sua importância para a necessidade de conscientização e pensamento crítico permanece.

notas

1
RADOMSKY, Guilhermo Francisco Waterloo. Desenvolvimento, Pós-Estruturalismo e Pós-desenvolvimento: a crítica da modernidade e a emergência de “modernidades” alternativas. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 26, n. 75, São Paulo, fev. 2011, p. 153.

2
LOWY, Michael. A teoria do desenvolvimento desigual e combinado, mimeo, s/d, p. 73.

3
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo, Loyola, 2014.

4
SENNET, Richard. El declive del hombre público. Barcelona, Península, 2002, p. 20.

5
JUNIOR, Severiano Jose dos Santos. Zelosamente habitando a Terra: Ecovilas genuínas, espaço geográfico e a construção de lugares zelosos em contextos contemporâneos de fronteiras paradigmáticas. Tese de doutorado. Salvador, Igeo UFBA, 2015, p.120.

6
Neste caso, estamos nos referindo à ocidentalização como ideia propulsora de mudanças globais baseadas em princípios de cultura ocidental de consumo e produção, que seriam igualmente aplicadas em diferentes contextos sociais, políticos e físicos, e que teoricamente seriam equitativamente apropriadas para todos, universalmente, ao redor do globo.

7
CASTORIADIS, Cornelius. Reflexões sobre o desenvolvimento e a racionalidade. In CASTORIADIS, Cornelius. As Encruzilhadas do Labirinto II, os domínios do homem. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, p. 146.

8
CAPELLO, Giuliana. Meio ambiente e ecovilas. São Paulo, Editora Senac São Paulo, 2013, p. 14.

9
Associação de Comunidades Intencionais.

10
Segundo definição da própria associação. Disponível em <https://www.ic.org/>.

11
ROSA, Lana Mignone Viana. Inspirações e aspirações do Marizá Epicentro (Tucano, BA): as contribuições de uma ecovila no panorama socioambiental brasileiro. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, Nupem UFRJ, 2014.

12
Disponível em <www.gaia.org/gaia/gaiatrust>.

13
Educação Gaia.

14
A GEN foi desenvolvida a partir de uma outra organização mundial de forte influência, a Gaia, cujo objetivo é dar suporte para a transição para uma sociedade mais sustentável e espiritual.

15
Em 1995 foi criado o endereço online <www.gen.ecovillage.org>, como instrumento de divulgação do conceito de ecovilas para sua disseminação.

16
RAINHO, Lucia. Tecnologias Ambientais nas Ecovilas: um exemplo de gestão da água. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, FAU UFRJ, 2006.

17
Rede de Ecovilas da Dinamarca.

18
Rede de Ecovilas da América.

19
Sua atuação é bastante desenvolvida através de um grupo no Facebook – o qual contabiliza quase vinte e duas mil pessoas. Disponível em <www.facebook.com/groups/mbecovilas/> .

20
Disponível em <www.ic.org/ecovillages-and-the-fic/>.

21
MAJEROWICZ, Ilana; TOGASHI, Rafael; VALLE, Isabel. Ecovilas: Caminhando para a sustentabilidade do ser. Rio de Janeiro, Bambual, 2017.

22
A ecovila é associada ao Departamento de Informação Pública das Nações Unidas, e em 1997 foi reconhecida oficialmente como uma Organização Não Governamental – ONG.

23
Findhorn Fundação e Comunidade.

24
JOSE, Flavio Januário. Diretrizes para o desenvolvimento de ecovilas urbanas. Tese de doutorado. São Carlos, EESC USP, 2014.

25
A fundação da ecovila foi possibilitada a partir da partilha das economias pessoais dos fundadores, que desta maneira puderam comprar um terreno para que então houvesse a construção das primeiras residências.

26
Inkiri Piracanga recebe. Entrevista sobre Damanhur. Inkiri Piracanga, Maraú, 8 set. 2017 <http://piracanga.com/inkiri-piracanga-recebe-crotalo-sesamo-damanhur/>.

27
DINIZ, Ana Elizabeth. Uma comunidade alternativa. Sociedade defende modelo de vida baseado em princípios éticos. Portal O Tempo, Belo Horizonte, 17 jun. 2014 <www.otempo.com.br/interessa/uma-comunidade-alternativa-1.866237>.

28
O terreno de Auroville é tão extenso, que segundo a própria organização, a mesma está localizada majoritariamente no estado de Tamil Nadu, tendo algumas partes em Puducherry, Coromandel, Chennai e Puducherry.

29
Disponível em <www.auroville.org/>.

30
Segundo portal da GEN, Auroville é reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco como uma eco-cidade multicultural, com aval de que se trata de grande importância para o futuro da humanidade. Disponível em <https://ecovillage.org/>.

31
O número de habitantes vem crescendo cada vez mais, conforme levantamentos realizados pela própria comunidade; contam com uma considerável parcela de visitantes, que caso desejem fazer parte da mesma, precisam marcar uma entrevista com o chamado Entry Group e aguardar por uma decisão oficial. A entrada não é livre, há um processo seletivo para se tornar um morador.

32
Neste caso, população flutuante pode ser interpretada como pessoas que passam temporadas na ecovila.

sobre os autores

Ana Luiza Rodrigues de Britto é arquiteta e urbanista (2013), especialista em Sustentabilidade no Projeto (2015) e mestre em Arquitetura (2018) pela PUC Rio.

Fernando Espósito Galarce é arquiteto e urbanista (EAD PUCV), doutor em Arquitetura (ETSAB UPC), professor assistente (DAU PUC-Rio) e sócio da Ciudad Abierta, Corporación Cultural Amereida, Chile.

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