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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Este artigo estuda o uso do vidro na arquitetura de Belém entre os anos de 1950 e 1980, evidenciando seu uso, transformações e instigando reflexões quanto a representação da modernidade vigente no período.

english
This article is studied or used by the architect of Belém between the years of 1950 and 1980, evidencing its use, transformation and instigating reflections on the representation of modernity in force not in force.

español
Este artículo estudia el uso del vidrio en la arquitectura de Belém entre los años 1950 y 1980, mostrando su uso, transformaciones e instigando reflexiones sobre la representación de la modernidad vigente en el período.


how to quote

BELTRÃO, Bernadeth; CHAVES, Celma. O uso do vidro como representação na construção de edifícios em altura em Belém do Pará entre as décadas de 1950 e 1980. Arquitextos, São Paulo, ano 20, n. 238.01, Vitruvius, mar. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.238/7659>.

O vidro, material inventado antes da Era Cristã, foi utilizado primeiramente na forma de utensílios domésticos e pequenos objetos pessoais. Posteriormente, passou a ser usado na arquitetura como vedação de janelas no período romano e como vitrais na Idade Média, que serviam também como meio de comunicação entre os fiéis e o divino nos templos religiosos. Ao longo do tempo, esse material passou a ser gradativamente mais aplicado na arquitetura. Estabelecendo-se como produto no mercado da construção civil, seu uso intensificou-se no período da Revolução Industrial, momento em que o vidro adquiriu condição para depois se tornar um elemento de grande expressão na Arquitetura Moderna no século 20. A partir de então, foi criado um novo produto oriundo da tecnologia do vidro e da verticalização: a fachada de vidro, que incorporou novas especificidades tecnológicas e significados representativos nas edificações.

Na arquitetura brasileira, o vidro passou a ser utilizado com mais frequência nas construções a partir da década de 1930, no contexto de mudanças políticas e culturais instaurados na Era Vargas, que possibilitou o uso da primeira fachada de vidro em escala monumental em território brasileiro (1), o edifício do Ministério da Educação e Saúde (1945) no Rio de Janeiro. Essa solução estética também se apresentou posteriormente, na década 1960, de forma expressiva na composição arquitetônica de Brasília.

Considerando essas transformações, este artigo busca compreender as origens da utilização cada vez mais crescente do vidro nas fachadas dos edifícios em Belém – cidade de clima predominantemente equatorial úmido (2), não favorável ao uso de tal material em larga escala sem tecnologias ou outros meios que auxiliem o bom desempenho do mesmo na região. Ademais, pretende-se abordar os agentes interessados no uso desse material nas construções e o seu significado representativo na modernidade vigente.

Discute-se também a transformação do vidro como elemento compositivo nas fachadas, na forma de micro (janelas e balancins) e macro superfícies (fachada de vidro) inseridas em prédios altos construídos ao longo das Avenidas Presidente Vargas e Nossa Senhora de Nazaré, nos bairros da Campina e Nazaré respectivamente, considerando a cronologia de 1950 até 1980 – localidades e período em que se constatou por meio de pesquisa bibliográfica e de campo o uso inicial e diversificação do vidro nas fachadas.

Bairros da Campina e Nazaré
Elaboração Bernadeth Beltrão com base nos dados da Codem (2001)

Como metodologia, adotou-se a combinação de pesquisa bibliográfica e hemerográfica, com o intuito de embasar a discussão acerca da produção arquitetônica no período e a pesquisa de campo, realizada por meio do mapeamento das edificações e das entrevistas com atores que vivenciaram os espaços dos edifícios abordados.

As medidas mordernizantes e avenida 15 de Agosto

Com a posse do presidente Getúlio Vargas em 1930 e a indicação do interventor Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, a capital paraense que ainda experimentava as consequências do revés financeiro, causado pelo acúmulo de problemas públicos desde o fim do auspicioso ciclo da borracha, passaria a experimentar um impulso que mudaria sua fisionomia. A política de Vargas baseada em diretrizes modernizantes seria visível por meio de uma série de melhorias na cidade, objetivando seu embelezamento e a construção de edifícios de linhas modernas por meio de novas técnicas construtivas (3). Para além dos esforços administrativos, havia o desejo por parte de um público seleto, de compartilhar o ethos cultural – vontade ideológica de uma determinada cultura para produzir certo tipo de transformação cultural (4) – que também reforçaria a ideia de modernidade na capital.

Enfatiza-se que nesse período não existia na cidade, qualquer base industrial que permitisse o desenvolvimento de novas formas produtivas e ou que facilitasse o acesso aos materiais de construção, porém, Belém não foi impedida, mas impelida a experienciar o moderno reproduzindo seus elementos em escala local (5). Em suma, a vontade de construir modernamente a cidade amazônica era afirmação comum entre os governantes, grupos de intelectuais e a elite, mesmo que isso não alcançasse a maior parte da população, a qual carecia de serviços públicos básicos nos demais espaços.

Em Belém, os incentivos da modernização foram aplicados de forma evidente primeiramente na avenida 15 de Agosto. A via era considerada estratégica para a implantação das novas ações por apresentar dentre outras características, os melhores terrenos para se construir, proximidade com a área portuária e por localizar-se em meio à infraestrutura sanitária e a linha de ferro Belém-Bragança. Vários foram os incentivos por parte do poder público de melhoramento da avenida, como: o fomento da verticalização inicialmente nos edifícios de três e quatro pavimentos (até 1940); doações de terrenos para comerciantes, empresários e instituições, realizadas com o intuito de estimular e beneficiar proprietários que tinham poder aquisitivo para substituir comércios de arquitetura colonial e eclética, por edifícios de linhas modernas (6); e a criação de legislação como o Decreto-Lei nº166 de novembro de 1943 e a Lei 3450 de 06 de outubro de 1956, que regulamentavam o gabarito mínimo para construções na via definindo critérios de altura (doze pavimentos para construções na avenida e dez pavimentos para as vias adjacentes) (7). A partir da década de 1930 devido aos incentivos e melhoramentos, a via progressivamente se transformou no principal eixo de modernização da cidade.

Avenida 15 de Agosto, Belém PA
Foto divulgação, s/d [Biblioteca IBGE]

Outros segmentos da sociedade também disseminavam o ideal moderno como, os veículos de comunicação por meio da imprensa escrita. O jornal A Província do Pará, posicionava-se favorável à construção dessa modernidade, veiculando matérias propagandistas dos projetos de novas construções inovadoras que se materializavam a cada dia, informando e enaltecendo a inauguração de edifícios, asfaltamento de vias, recuperação de praças entre outros. Entre essas propagandas, era comum encontrar imagens de edifícios novos e modernos com a representação gráfica do vidro, porém sem descrição ou qualquer texto que fizesse menção a tal material nas construções.

“Melhoramentos” em Belém
Imagem divulgação [A Província do Pará, 1949]

Embora houvesse a promoção do ideal de construir uma cidade moderna por parte de um conjunto de agentes, a cidade nos anos 1940 e 1950, continuava passando por agudos problemas urbanos com crise nos transportes, escassez de abastecimento de água, energia elétrica etc.

O uso do vidro em edifícios verticalizados entre as décadas de 1950 a 1980

Na década de 1950, em meio à política desenvolvimentista fomentada no país, o sentimento saudosista dos tempos áureos da economia da borracha ainda pairava na mentalidade da população belenense; entretanto, a cidade continuava a se caracterizar conforme a modernização que paulatinamente modificava sua paisagem. Frisa-se que apesar dessas transformações, a capital paraense continuava a ser vista como um lugar ainda pouco ocupado, em meio ao “desconhecido”, contendo uma “civilização isolada” e inserida em um contexto de “beleza natural” e “selvagem” – expressões utilizadas por visitantes em entrevistas reproduzidas no jornal A Província do Pará (8).

Apesar de tal isolamento da região e consequentemente da cidade e das dificuldades de acesso aos materiais construtivos no mercado local, a expansão das medidas modernizantes, como a adoção de um novo modo de construir em altura (situação incomum para cidadãos mais habituados aos edifícios de até dois pavimentos) (9), corporificavam-se em áreas adjacentes das então consideradas modernas, ampliando-se para bairros como Batista Campos e Nazaré. No segundo bairro mais precisamente na Estrada de Nazareth, como era conhecida a atual Avenida Nossa Senhora de Nazaré, configurava-se um novo eixo promissor para construções tanto residenciais, como comerciais e públicas, devido às recentes mudanças de grupos sociais abastados que se estabeleciam nessa área. Assim, a estrada passou a dar continuidade na concretização das novas construções e melhoramentos de infraestrutura, que já caracterizavam a avenida 15 de Agosto.

Como exemplos dessa modernidade (10) nas avenidas, têm-se os edifícios Manoel Pinto da Silva (primeiro bloco inaugurado em 1951) na avenida Nossa Senhora de Nazaré e o Importadora de Ferragens S.A. (inaugurado em 1954) na avenida 15 de Agosto. Ressalta-se que ambas as inaugurações dos edifícios foram destacadas como acontecimentos marcantes na época.

Edifício Manoel Pinto e Edifício Importadora de Ferragens S. A. [Acervo do Condomínio Manuel Pinto/ Biblioteca do IBGE, s/d]

Manchetes do jornal A Província do Pará, 1949/1954
Imagem divulgação [A Província do Pará]

Símbolo de uma Belém moderna, o Manoel Pinto foi erguido sob o empolgante ritmo de construção vertical que se expressava em outras capitais brasileiras. Apesar de seu primeiro bloco possuir 12 pavimentos (alcance máximo no período), a promessa de sua ampliação já era anunciada em 1949 e o status de ser o prédio mais alto de Belém e da região Norte (26 pavimentos) despertava orgulho e deslumbres no imaginário popular (11).

De forma semelhante, o edifício da Importadora de Ferragens também foi motivo de exaltações na cidade, pois foi pelo motivo de sua inauguração, que se programou a vinda de uma caravana com figuras ilustres, como embaixadores de diferentes países, personalidades da alta sociedade do Sul do Brasil, industriais, militares, políticos e até um representante do presidente Getúlio Vargas. Sua construção representava a força dos empresários e comerciantes que investiam e acreditavam no potencial de desenvolvimento da região amazônica, considerada pelos mesmos, território ainda pouco explorado e com muitas adversidades a serem vencidas (12).

Todavia, apesar de tal representação e destaque na cidade, o que diferenciava esses edifícios dos demais, além da altura, eram as técnicas e aplicações de materiais incomuns na região como, o vidro. Destaca-se que a aplicação deste material nos edifícios e nos outros modelos construídos na época, comumente era visto combinado com a madeira, utilizado na maioria das vezes na função de janela, realçando a consistência opaca das paredes tradicionais de alvenaria que compunham as fachadas das edificações. Mesmo de forma sutil, percebe-se a incorporação do vidro na fachada, que embora ainda visto de forma complementar, era explorado como elemento vedante que atendia as solicitações de fechamento e abertura para o meio interno e externo da edificação (circulação de ar e acesso de iluminação).

Os caixilhos que eram geralmente de madeira ou por vezes de ferro foram substituídos, ao longo dos anos, por perfis de alumínio que assim como outros componentes da esquadria eram encomendados de outros lugares “vinha todo de fora, Belém não tinha fábrica nem de vidro para garrafa, então tinha que encomendar de outros estados ou de fora do país e esperar chegar, semanas às vezes meses, porque todo transporte vinha por embarcações, pelos navios”, confirma Alcyr Meira (13), um dos arquitetos pioneiros da Arquitetura Moderna em Belém.

Era fato a dificuldade que se tinha de incorporar as novas tecnologias e materiais nesses edifícios, que demandavam esforços na relação de tempo e dinheiro, afinal, se o prazo para que as encomendas chegassem era longo, o custo para comprar e transportá-las até Belém era tão grande quanto, “não era barato, tinha que ter dinheiro” (14). Essas questões faziam com que o uso estendido do vidro fosse quase uma utopia na cidade dos anos 1950.

O que se percebe nesse momento é que, apesar dos anseios por uma Belém moderna, almejada por uma parte da população, os diferentes atores envolvidos nesse processo, como agentes públicos, empresários, comerciantes, empreiteiros, a elite e os demais cidadãos, se confrontavam com dificuldades como distância, barreiras topográficas, escassez e qualidade de mão de obra e outras vicissitudes já mencionadas, porém ainda assim seguiam acreditando nessas transformações físicas e ideológicas da época.

Apresentando características particulares em relação às construções modernas na cidade, o prédio do Banco do Brasil, localizado na avenida Presidente Vargas – antiga avenida 15 de Agosto, projetado pelo arquiteto e urbanista carioca Paulo Antunes Ribeiro (15), formado pela Escola Nacional de Belas Artes, foi o primeiro edifício a utilizar a solução de fachada de vidro em escala monumental em Belém (16). Tendo sua obra iniciada em 1957 e inaugurada em fevereiro de 1966, a sede do banco teve seu percurso construtivo relatado por vezes em pequenas notas de jornais (autorizadas pela instituição somente para alguns colunistas), na qual se observava a criação de uma narrativa que exaltava essa arquitetura, considerada prova do poder e desenvolvimento do Estado “portentosa obra, que tanto engalana a avenida Presidente Vargas” (17).

Perspectiva do Banco do Brasil, 1953
Imagem divulgação [Revista Arquitetura e Engenharia, n. 28]

Segundo Viana, funcionário aposentado do Banco do Brasil que trabalhou desde a inauguração desta agência, a primeira fachada de vidro possuía as vidraças apoiadas por uma estrutura de concreto, que foi substituída em 1985, para dar lugar à fachada atual de vidro sustentada pelas travessas e colunas de alumínio (18). É clara nessa obra a intenção, certamente projetual e ideológica, de promover o vidro como um importante componente da plástica da edificação, notabilizando a cortina de vidro como fachada de destaque, pois é explícita a ausência de parede “tradicional”, argamassa de bloco cerâmico (material opaco), solução esta considerada mais convencional para o período.

Ao se estabelecer analogia entre a fachada principal da sede bancária e outras da década de 50 anteriormente expostas, percebe-se a suave utilização da massa opaca (observada como uma moldura somente na parte superior da fachada principal do banco), eliminando a percepção das isoladas e delimitadas janelas, devido aderir à fachada de vidro, na qual se perde a distinção visual entre paredes e janelas.

Edifício Importadora e Edifício Banco do Brasil, segunda fachada de vidro
Foto Bernadeth Beltrão, 2018

No que diz respeito a esse tipo de fachada, pode-se citar como exemplo o Ministério da Educação e Saúde – MES, inaugurado em 1945 na então capital do Brasil, Rio de Janeiro. Projeto de Lúcio Costa e equipe de arquitetos, o prédio foi construído em uma conjuntura sócio-política na qual o governo fazia uso da arquitetura para expressar aos cidadãos, além da renovação política, a difusão da mentalidade fomentada na época (19).

Considerando esse fato, entende-se que essa agência do Banco do Brasil também pode ser compreendida em tal conjuntura, que em síntese, tinha a missão de transmitir a ideia de modernidade e desenvolvimento para população. Enfatiza-se que essa estratégia, o banco já exercia desde sua criação, ao assumir ser uníssono com a construção da imagem da pátria brasileira, tendo a arquitetura e engenharia, como meio de representação da sua expansão no território que deveria se espraiar pelos “labirintos do país” (20).

Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro RJ e Banco do Brasil, Belém PA
Foto Oscar Liberal, 2010/ Bernadeth Beltrão, 2018

Como amostras dos anos 1960 destacam-se prédios como Rainha Esther (1964), situado na Praça Justo Chermont, no bairro de Nazaré; o prédio da sede social da Assembléia Paraense (inaugurado na década de 1960) e a sede da agência da Caixa Econômica (1967), ambas localizadas na avenida Presidente Vargas em frente à Praça da República.

Edifício Rainha Esther
Foto Bernadeth Beltrão, 2018

Edifício Assembleia Paraense e sede da Caixa Econômica
Biblioteca do IBGE, s/d; Bernadeth Beltrão, 2018

Observa-se nessas obras, além da altura que ultrapassava dez pavimentos (característica já comum nessa década), os traços retos, o uso de soluções estruturais como os pilares e vigas de concreto armado e o vidro como evidente componente da fachada principal, presente principalmente na forma de esquadria tipo janela, porém em maior dimensão.

Percebe-se nesse decênio, a diversificação da aplicação do vidro que, de forma oposta à estética das fachadas anteriores de janelas isoladas, apresentava um alargamento significativo tanto na direção horizontal como na vertical, tendo o uso em maior extensão desse material. O mais visível em termos de quantidade nesse período são as fachadas constituídas por vidraças, entendidas de forma objetiva como o meio termo compreendido entre as janelas e a fachada de vidro, apresentando na composição da face do edifício, menor proporção de materiais opacos, reduzidos em molduras formadas por pilares e vigas, estrutura de sustentação da edificação, como demonstrado no edifício Esther ou em molduras de pilar e peitoril de janelas, como observados nos edifícios da Assembléia Paraense e sede da Caixa Econômica.

Sede da Assembleia Paraense e sede da Caixa Econômica
Foto Bernadeth Beltrão, 2018

Salienta-se que a partir dos anos 1960, o setor da construção em Belém começava a dar sinais de melhorias em sua logística, com a diminuição do tempo de transporte de materiais, assim como outras mercadorias que aos poucos passaram a ser conduzidas por meio do transporte rodoviário, devido à construção da rodovia Belém – Brasília, que se mostrava como um importante meio de conexão entre o Norte e as regiões Sudeste e Sul do país.

Nas décadas seguintes, 1970 e 1980, observou-se que houve continuidade e aprimoramento da prática construtiva, condizentes com as vidraças, cujo padrão mostrava-se de maneira mais intensa nos bairros de Nazaré e Campina.

Levando em consideração a ocorrência cada vez mais comum do vidro nas fachadas, porém sem esgueirar-se do tema das altas edificações deste artigo, e tendo como intuito de expor como o vidro interagia com volumes horizontais, apresenta-se duas amostras dessa arquitetura. A sede social do Paysandú Sporte Club localizado na avenida Nossa Senhora de Nazaré, construída para substituir a primeira sede demolida em 1964, onde seria “erguida no mesmo lugar uma moderna e luxuosa sede” (21) inaugurada em 1970; e o Palácio Serzedello Corrêa, conhecido como Tribunal de Contas do Estado do Pará – TCE PA, inaugurado em 1972, situado na avenida Quintino Bocaiúva esquina com a avenida Nazaré, ambas as edificações situadas no bairro de Nazaré.

Propaganda da Sede do Paysandú
Imagem divulgação [A Província do Pará, 1964]

Sede do Paysandú
Foto Bernadeth Beltrão, 2018

Tribunal de Contas do Estado do Pará
Foto Bernadeth Beltrão, 2018

Tribunal de Contas do Estado do Pará
Imagem divulgação [A Província do Pará, 1970]

Aponta-se a semelhança de intenção da promoção das vidraças e da fachada de vidro no Tribunal de Contas, que apesar de possuir menor proporção em relação à sede do Banco do Brasil, também utilizava o vidro como elemento essencial da plástica do prédio. Segundo Paulo Chaves, um dos arquitetos da edificação, o projeto foi norteado pelas formulações da Arquitetura Moderna “‘sapequei’ todo o repertório do modernismo [...] é um projeto despojado, de concreto aparente, se usava muito a expressão do material, usa bastante as paredes envidraçadas, climatizado, tende à horizontalidade” (22). Percebe-se nessa fase que o vidro ao adquirir maior dimensão e visibilidade na envoltória, dispunha de nova qualidade representativa ao constituir-se como superfície potencializadora da forma, prestando diferentes percepções aos indivíduos.

Sobre essas percepções, Alcyr Meira, arquiteto da sede social do Paysandú, justifica o uso do vidro na fachada do edifício, “Por que o vidro? O vidro era o material moderno, as construções novas usavam pela beleza e durabilidade, ele dava para o edifício um destaque em relação às outras, a modernidade na época era isso, as novas técnicas, usos, a vidraça do Paysandú era pra isso, pra dar beleza, pro sol entrar, pra ter uma vista bonita e pra ventilação também, ainda não tinha ar condicionado no salão” (23).

De modo singular em comparação com os demais exemplares exibidos, surge na paisagem belenense, o edifício Generalíssimo, inaugurado em 1989. Afastado do itinerário percorrido, mas também localizado no bairro de Nazaré na avenida Generalíssimo Deodoro, o edifício comercial que possuía estética inédita na cidade – quatro fachadas de vidro – fazia alusão a um modelo específico de arranha-céu, a “Torre de Vidro” ou “Torre de Cristal”, sonho da vanguarda europeia que se concretizou e se tornou símbolo da tecnologia e poder financeiro nos Estados Unidos na década de 1950 (24). Entretanto, apesar de tal condição no exterior, em Belém foi motivo de críticas por adotar tal solução arquitetônica não condizente com o clima e especificidades da região Amazônica.

Edifício Generalíssimo
Imagem divulgação [ O Liberal, 1989]

Edifício Generalíssimo
Foto Bernadeth Beltrão, 2018

Nos anos 1980, o explícito uso do vidro havia se tornado recorrente nos espigões que se aglomeravam no centro da cidade. Conforme João Castro Filho, arquiteto e pesquisador, Belém apresentava um número expressivo de torres com materiais que potencializavam o aumento de calor dentro da edificação (25). Citando inclusive a sede do Banco do Brasil apresentada neste artigo, o arquiteto afirmara que tal edificação, assim como outras, era um prejuízo proveniente de erros gerados no ato de concepção do projeto, sendo explicado pela importação de conceitos e soluções estrangeiras consideradas modelo para a cidade “dentro dessas edificações se processa o efeito-estufa, ‘resultado de um equívoco de concepção’ [...] e só se justifica ‘por uma questão de puro colonialismo’” (26).

Com solução tecnológica similar à fachada de vidro adotada no banco (segunda fachada), com exceção da cor, pois o vidro era incolor e das calhas metálicas que marcavam ainda mais a estrutura, as quatro fachadas do edifício Generalíssimo foram concebidas e ainda fazem uso de um dos primeiros sistemas de vedação vertical de vidro, o denominado fachada cortina convencional ou fachada-cortina, que tem como marcante característica a estrutura metálica de sustentação da fachada, exposta para a face externa da edificação.

Ao final da década de 1980 as áreas centrais da cidade de Belém (nessas áreas inclui-se os bairros estudados) haviam se transformado, nesse momento observavam-se novas composições de fachadas que, principalmente por meio das vidraças, conferiam aos edifícios uma imagem compatível com os novos padrões comerciais e, muitas vezes, frívolos da linguagem do pós-modernismo. Os edifícios baixos de estilo colonial e eclético haviam se misturado aos novos edifícios em altura, construídos com materiais e técnicas mais sofisticadas que se destacavam na paisagem urbana.

Aspectos iniciais da representação do vidro no edifício e cidade

A arquitetura como forma de produção humana, agrega, transmite valores e concepções do período em que é criada, sua materialização, forma e uso despertam diferentes percepções e novas relações entre espaço e ser humano. Considerando a qualidade perceptiva, a mesma plástica referente ao edifício que transmite o caráter tecnológico e inovador pode provocar e incitar referências de outras particularidades, condizentes com conceitos e processos oriundos de diferentes lugares e épocas. Isso se estabelece em razão da propriedade representativa que é atribuída à arquitetura, pela qual se permite reconhecer de imediato um objeto ausente, por uma imagem presente (27).

Diversas são as imagens que representam objetos no campo arquitetônico, isso pode ser observado com o uso do vidro, que com o decorrer do tempo transformou-se tanto no aspecto tecnológico, quanto no representativo. Interpretado por Baudrillard como um material nobre e exemplar da ambiência moderna (28) –ambiente que revela os aspectos subjetivos por meio dos objetos – o vidro, segundo o autor, caracterizava-se pela forte peculiaridade representativa de apelo ao consumo. Isso se deu quando esse material passou a provocar nos indivíduos por meio das interações sociais, um processo de conversão de sua funcionalidade psicológica – transparência, sua pureza – em funcionalidade econômica, quando o sublime (características psicológicas) passou a atuar como motivação de compra (29) – estabelecimento do vidro na condição de produto.

Abordada também por Malard, a representação do vidro bem como o seu desdobramento tecnológico, a fachada de vidro, adentrou na cultura do imaginário popular por meio dos “caixotes envidraçados”, que passaram a representar o êxito na vida familiar e profissional (30), transformando-se em um signo comunicador do status – posição social que um indivíduo ocupa a partir do que possui e usufrui. Ressalta-se que a qualidade de signo discutida pela autora, emerge da relação de convenção que possui o caráter consumista e não de tradição representativa de algo (31).

Na capital paraense, entre as décadas de 1950 e 1980, identificou-se a valoração desse material, articulado juntamente com o ideário do moderno, demonstrado nos informes e propagandas de iniciativa privada nos jornais, por meio de expressões como, “prédios modernos”; “sedes modernizadas”; “Belém moderna”; “chegada da modernidade na cidade”, as quais conferiam e representavam ideias positivas, efeitos benéficos e a suposta situação favorável que a cidade experimentava. Ao mesmo tempo ocorria a valorização do vidro, em virtude de seu uso nas fachadas de imóveis verticais, que se localizavam em áreas prestigiadas, sendo investimentos e ou propriedades de grupos abastados que, por intermédio das imagens vítreas, deixariam exposta a boa qualidade de vida e próspera condição econômica para os demais cidadãos.

Compreende-se que há relação de valoração e valorização do significado do vidro nas fachadas dos imóveis com as áreas mais abonadas nessas décadas, como medida que potencializava o caráter peculiar do centro da cidade que se configurava como espaço de distinção (32), revelando-se dessa forma, como um mecanismo político, de status social e econômico que agia por meio do arquétipo de beleza e inovação para afirmar a instalação do imaginário de modernização produzido em Belém.

Como visto, a representação vítrea era explorada por dois tipos de incentivos, o estatal e o privado. Essa convergência de incentivos estruturava-se por meio de produções físicas e abstratas, que interagiam com o espaço social e tinham a intenção, no caso da arquitetura pública, de representar e legitimar o poder e soberania do Estado diante da população, e na arquitetura privada, além da vontade de construir o novo e moderno, de validar o status de quem possuísse e usufruísse de tal bem. Em ambos os incentivos, a presença do vidro nas edificações, instituía a quimera da modernidade e condição vivida por certos grupos, demonstrando a qualidade de representação apontada por Chartier, ao marcar e, sobretudo perpetuar de forma visível a existência de classes e marcas do poder estatal em um determinado período (33).

Considerações finais

O percurso tecnológico da utilização do vidro nas construções apresentou-se de forma gradual, sendo favorecido pelo processo de verticalização instaurado na cidade, no qual se pode interpretar como o momento inicial da ação dos agentes promotores (público e privado) de verticalização do espaço urbano em Belém. Sendo assim, esse processo que estava diretamente atrelado com a ideologia da modernidade, abriu caminho para a utilização do vidro e o acúmulo desta combinação – verticalização e vidro – chamaria atenção na cidade no final dos anos 1980.

Reconhece-se que a própria tipologia dos edifícios verticais necessitaria do uso do vidro, pois outro material dificilmente corresponderia com as mesmas características de resistência, vedação e transparência de forma tão positiva quanto o vidro para as edificações altas. Sendo assim, a necessidade desse material nos prédios contribuiu para seu uso e expansão na cidade, mas a diversidade e intensidade cada vez maior de utilização se deram também por questões não físicas, pautando-se em uma conexão de significado representativo auspicioso que os proprietários e usuários dos edifícios, assim como o próprio edifício adquiriam ao utilizar o vidro nas fachadas.

 Dois momentos podem ser identificados na trajetória do vidro nas edificações altas em Belém: o primeiro até a década de 1950, quando o vidro é visto como componente da fachada, elemento complementar e coadjuvante da modernização, tendo seu uso restrito nas janelas e balancins. O segundo momento, a partir da década 1960, em que o vidro passa a ser um elemento essencial da fachada com a utilização das vidraças e da fachada de vidro. Enfatiza-se que nessa segunda circunstância, o material não pode ser visto em segundo plano, como um elemento auxiliar da fachada, pois influencia substancialmente na composição plástica e de percepção tanto interna quanto externa da edificação, transformando seu uso e representação, passando a ser um signo da própria modernização e modernidade instaurada.

Embora com marcante utilização nos edifícios, notou-se por meio da pesquisa hemerográfica que o vidro aparecia nos anúncios até meados da década de 1970, como um material “presente e invisível”, termo este que o caracterizava de maneira indireta nas propagandas das novas construções. Notou-se que as vantagens de uso do vidro, assim como a própria palavra vidro, pouquíssimas vezes constaram explicitamente nas propagandas e notícias, mas estavam representadas por meio de desenhos e fotos, em que eram valorizadas por expressões descritas de forma generalizadas, apontando o caráter positivo da edificação que possuía esse produto na imagem: “Imponente! Majestoso!”, “Um edifício à altura do progresso de Belém”.

Representação do vidro na mídia
Imagem divulgação, décadas de 1960/ 1970

Percebeu-se que mesmo diante dos desafios que a cidade amazônica impunha, o vidro passou a ser cada vez mais solicitado nas edificações por meio do aprimoramento tecnológico, de maior capital para investimentos e do desejo de usuários e proprietários em usufruir de seu evocado status de modernidade e progresso. Suas transformações proporcionaram novos usos e significados nos edifícios, que continuam a ser explorados, mais do que nunca, por agentes da construção na Belém contemporânea.

notas

NE – III SAMA – III SEMINÁRIO DE ARQUITETURA MODERNA NA AMAZÔNIA.

1
COSTA, Lucio (1975). Relato pessoal. Registro de uma vivência. São Paulo, Empresa das Artes, 1995, p. 135.

2
NASCIMENTO, Cicerino Cabral do. Clima e morfologia urbana em Belém. Dissertação de mestrado. Brasília, PPG FAU UNB, 1993, p. 47.

3
VIDAL, Celma. Experiências do Moderno em Belém: construção, recepção e destruição. V!rus, n. 12, São Carlos, Nomads USP, 1º sem. 2016, p. 3 <http://www.nomads.usp.br/virus/virus12/?sec=4&item=11&lang=pt>.

4
GORÉLIK, Adrián. O moderno em debate: cidade, modernidade, modernização. In: MIRANDA, Wander Melo (Org.). Narrativas da modernidade. Belo Horizonte, Autêntica, 1999, s/p.

5
VIDAL, Celma. Op. cit., p. 4.

6
MELLO, Fabio de Assis. A verticalização em Belém do Pará. Um estudo das transformações urbanas e arquitetônicas em edifícios residenciais multifamiliares. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, PROARQ UFRJ, 2007, p. 67.

7
CHAVES, Celma. Modernização, inventividade e mimetismo na arquitetura residencial em Belém entre as décadas de 1930 e 1960. Risco – Revista de Pesquisa e Arquitetura e Urbanismo, n. 8, São Carlos, fev. 2008, p. 147.

8
Uma festa da cidade a inauguração do Edifício Importadora. A província do Pará, Belém, 13 jan. 1954, p. 3.

9
MELLO, Fabio de Assis. Op. cit., p. 72.

10
O mais alto edifício de Belém! A província do Pará, Belém, 12 jan. 1949, p.3; Amazônia é Brasil. A província do Pará, Belém, 12 jan. 1949.

11
O mais alto edifício de Belém! (op. cit.).

12
Esforço numa só direção. A província do Pará, Belém, 13 jan. 1954, p. 4.

13
MEIRA, Alcyr. Depoimento a Bernadeth Beltrão. Belém, 24 mar. 2018.

14
Idem, ibidem.

15
Banco do Brasil S. A. Sucursal em Belém do Pará. Arquitetura e Engenharia, n. 28, Bahia, 1953, p. 44-47.

16
VIANA, José Leitão de Almeida. Depoimento a Bernadeth Beltrão, 18 mai. 2018. José Leitão de Almeida Viana é engenheiro aposentado do Departamento de Administração do Patrimônio Imobiliário – Depim, 5ª Residência – Belém PA do Banco do Brasil.

17
J.C. e Assessores para sua orientação. A província do Pará, Belém, 10 mai. 1964, p. 6.

18
VIANA, José Leitão de Almeida. Op. cit.

19
CAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro. São Paulo, Jorge Zahar, 2006, p. 09-33.

20
ARAÚJO, José Horácio de. A Caminhada: 70 anos de engenharia e arquitetura do Banco do Brasil. Rio de Janeiro, Editora Banco do Brasil, 2007, p. 63.

21
Síntese social Roberto Jares. A província do Pará, Belém, 1964, p. 1.

22
CHAVES, Paulo. Depoimento a Celma Chaves, 26 mar. 2004.

23
MEIRA, Alcyr. Op. cit.

24
SCHULZ, Sonia Hilf. Estéticas Urbanas: da polis grega à metrópole contemporânea. Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 2008, p. 188.

25
A estranha arquitetura de Belém. O Liberal, Belém, 10 set. 1989, p. 4.

26
Idem, ibidem.

27
CHARTIER, Roger. El mundo como representación. Estudios sobre historia cultural. Barcelona, Gedisa, 1995, p. 57.

28
BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. 4ª Edição. São Paulo, Perspectiva, 2004, p. 47.

29
Idem, ibidem, p. 49.

30
MALARD, Maria Lucia. As aparências em arquitetura. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2006, p. 126-127.

31
Idem, ibidem, p. 41-42.

32
MICELI, Sérgio. Pierre Bourdieu. A economia das trocas simbólicas. 6ª Edição. São Paulo, Perspectiva, 2005, p. 16.

33
CHARTIER, Roger. Op. cit.

sobre as autoras

Bernadeth Beltrão é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade da Amazônia e mestra pelo programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará – PPGAU UFPA.

Celma Chaves é doutora pela Universidade Politécnica da Cataluña (2005) e professora associada IV ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará – PPGAU UFPA. Coordena o Laboratório de Historiografia da Arquitetura e Cultura Arquitetônica – Lahca FAU UFPA.

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