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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
O tema da erudição é antigo, ainda que ficou adormecido durante anos. Mas o erudito como ator ativo do mundo cultural nunca desapareceu, e teve um momento de recuperação quando pensadores como Tafuri decidiram romper com a historiografia tradicional.

english
Erudition is an old topic theme; but it was asleep for years. However, the erudit as an active actor in the cultural world has never disappeared, and had a moment of recovery when thinkers like Tafuri decided to break with the traditional historiography.

español
El tema de la erudicción es antiguo, aunque quedo adormecido por años. Pero el erudito como actor activo de la cultura nunca desapareció y tuvo un momento de recuperación cuando pensadores como Tafuri decidieron romper con la historiografia tradicional.


how to quote

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 2/4). As primeiras histórias sobre a arquitetura moderna. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 183.06, Vitruvius, ago. 2015 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.183/5659>.

Platão e Aristóteles em detalhe da pintura Escola de Atenas, de Rafael Sanzio.
Foto divulgação [Wikimedia Commons]


O que veem os historiadores?

Os historiadores são, por definição, mas sobretudo por índole, eruditos. Contudo, nem todos os historiadores trabalham no mesmo sentido e com a mesma finalidade essa erudição que lhes é inerente. Certamente, é nas intenções do autor (no caso, o historiador) que se escondem a finalidade do trabalho do historiador e o que ele faz com sua erudição, pois, como defende Pessoa, há diferentes erudições, que atingem o conhecimento, o entendimento e a sensibilidade, além das tendências negativas ou positivas que implicam – como mito ou como esclarecimento. Cada época tende a privilegiar um ou outro sentido nesse trabalho de erudição, fomentando tendências que se organizam dentro de Weltanschauungen específicas, pois as expectativas – e também as intenções – são diferentes. Temos momentos de formação de ideias, outros de difusão e, finalmente, de contestação. Juan Pablo Bonta (1) explicou bastante bem esse sistema quando definiu o surgimento da interpretação canônica. O primeiro motivo pelo qual sua explicação é sumamente satisfatória é o fato de ele assinalar a primazia do tempo nesse tipo de construção: sem o tempo, não há como estabelecer um cânon (como algo compartilhado) (2). É o historiador quem melhor trabalha com essa ideia do tempo e também com a ideia da interpretação. Seu ofício é de acumulação e depende do tempo. O historiador está sempre numa linha do tempo que desde seu núcleo temporal o situa “em relação” a seus antecessores, seus contemporâneos e seus sucessores (ainda que não saiba quem são eles). A história como a interpretação canônica da qual fala Bonta (3) é um fato coletivo que pretende estabilizar e dar continuidade ao conhecimento adquirido.

Ainda assim, historiadores podem ver – e normalmente veem – questões similares por óticas diferentes e também, com percepções similares, ter entendimentos diferentes. “Podem ver a poesia de Le Corbusier resultando da contradição de suas regras (Summerson) ou da síntese das mesmas (Zevi)” (4). Cada um deles avançará por caminhos diferentes e pretenderá encontrar as repostas certas para seu tempo; quando isso não acontece, temos incompreendidos (que devem esperar para que suas ideias sejam absorvidas pela sociedade) (5) ou reacionários (que não foram capazes de situar-se no devir da cultura) (6) Nos períodos de formação, serão necessários inventividade e raciocínios engenhosos; nos de consolidação, o estudo aprofundado e a classificação; depois, as ideias devem de ser novamente questionadas com engenho e sagacidade, iniciando-se provavelmente um novo ciclo. Esse processo não depende necessariamente da realidade estudada – o movimento moderno, por exemplo –, mas da óptica de quem o estuda, de uma mentalidade específica e, com afirmamos antes, das intenções que dominam o autor e sua visão de mundo, mas também o espírito de sua época, ainda que a expressão soe idealista.

A história como fundamento: princípios versus erudição.

No caso da historia da arquitetura, especialmente da arquitetura moderna, o processo de interpretação da historiografia também é sui generis, uma vez que, como nos lembra Michel Ragon (7), antes dos anos 1960, os estudos históricos eram “raros em qualquer língua”, (8) e que, antes de terminar a Segunda Guerra Mundial:

“os únicos trabalhos que jogavam luz sobre essa matéria (história da arquitetura moderna) foram publicados nos Estados Unidos e na Inglaterra: Pioneers of modern design, de Nikolaus Pevsner, em 1936, Space, Time and Architecture, de Siegfried Giedion, em 1941, e An introduction to Modern Architecture, de J. M. Richards, em 1940”.

Assim, sem entender e atender essas premissas, é impossível analisar o pensamento de qualquer historiador que tenha escrito nos anos 1970 ou depois. Evidentemente, Manfredo se enquadra nessa categoria, e estudá-lo requer essa perspectiva. Se só lêssemos a obra desses pensadores, perceberíamos apenas parte do cenário. Uma parte importante, certamente – a do autor –, mas não entenderíamos sua circunstância e, assim, não o apreenderíamos. Quando Tafuri (9) afirma, no prefacio da edição em inglês de seu livro Progetto e Utopia (1973), que “o argumento (do que havia exposto no artigo da revista Contropiano) (10) pode agora ser desenvolvido com base na análise e documentação, e não apenas com base em princípios”, não só propõe um novo estágio em seu trabalho, mas também inverte o sentido do trabalho dos poucos historiadores “oficiais” do movimento moderno que haviam publicado suas obras até meados dos anos 1960.

Manfredo Tafuri: Architecture and Utopia: Design and Capitalist Development. Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1979 (Segunda impressão, 1980)

Historiadores como Sigfried Giedion ou Nikolaus Pevsner representam a consolidação da óptica canônica e a adoção de uma forma de ver e de apresentar a arquitetura moderna por meio de “princípios”. Tafuri reivindica uma perspectiva diferente, mais antiga e consabida que a fundamentação por princípios: aquela baseada na análise e no estudo aprofundado do documento, isto é, a erudição.

O abandono de um saber histórico sustentado pela erudição, que vinha do século 18, pela narrativa mitológica amparada em princípios predefinidos, é evidente em autores como Giedion e Pevsner, mas também em Leonardo Benevolo, Bruno Zevi e ainda Henry-Rusell Hitchcock, para mencionar um historiador não europeu (11). Mas nem todos esses historiadores anteriores a Tafuri tinham as mesmas intenções: não são iguais a postura de um Giedion e a de um Zevi, nem a deste e a de um Benevolo.(12) Ainda que Tafuri (13) os tenha reduzido a todos a agentes de uma “crítica operativa” ideologizada que “substitui o rigor analítico por juízos de valor já constituídos, válidos para a ação imediata”, é preciso aprofundar as diferenças que se manifestam no discurso de cada um deles para entendê-los e, assim, entender melhor o próprio Tafuri.

Sigfried Giedion e Nikolaus Pevsner

No prefácio à primeira edição de Space, Time and Architecture (1941), Giedion (14) afirma a intenção de demonstrar com “base em argumentos e evidências objetivas [...] que, apesar da aparente turbulência atual, subsiste em nossa cultura uma unidade verdadeira, uma síntese secreta”. E que, como a “Historia não é uma compilação de fatos, mas uma introspecção no dinâmico processo da vida” (15), ele decidiu “selecionar relativamente poucos fatos” (16) para examinar.

Curiosamente, um par de anos depois, Pevsner (17), no “Prólogo ao leitor” de seu An Outline of European Architecture, decide fazer exatamente o mesmo: “não deve esperar o leitor que se faça menção a todos os monumentos nem a todos os arquitetos importantes (pois) Um só monumento deve bastar para ilustrar um estilo determinado ou um aspecto concreto”.

Sigfried Giedion: Space, Time and Architecture. The growth of the new tradition. Cambridge: The Harvard University Press, 1941. (Primeira edição)

Nikolaus Pevsner: An Outline of Eropean Architecture. Londres: Pelikan Books, 1943. (1a edição)

Ambos os autores defendem a existência de uma unidade verdadeira, ainda que oculta (síntese secreta), que se deve evidenciar nos exemplos meticulosamente selecionados. Pevsner (18) chama essa unidade de “civilização ocidental” e de “leitmotif” a síntese que lhe dá sentido. Assim, Giedion e Pevsner falam a mesma língua. Para eles, a História é uma introspecção. E o que é uma introspecção? É um exame subjetivo da realidade feito de um ponto de vista pessoal. O método não pode ser generalizável, uma vez que cada historiador percebe a realidade a partir de seu próprio ponto de vista, como afirma Bonta. Pevsner (19) aponta uma “falta de acordo em torno das categorias históricas” e pensa que nenhum historiador pode pretender que “sua opinião tenha validade universal”. Uma demonstração do momento de transição entre o estagio pré-canônico e o de consolidação. Nesse sentido, a introspecção funciona também como uma “revelação” (insight), um lampejo que provém da verdade oculta na arquitetura como expoente da civilização que encarna (20).

O historiador como arauto

O historiador é um arauto da verdade entendida em seu sentido totalizador, e não como a “concepção modesta” de que falava Adorno, que consegue, pelo estudo de poucos exemplos significativos, paradigmáticos, ler essa verdade e revelá-la ao leitor. Não é necessária “uma visão abrangente, mas sim [...] isolarem e examinarem minuciosamente determinados eventos, penetrando-os e explorando-os à maneira de um close-up” (21). Isso é uma aproximação. Assim, “penetrar” e “explorar” não são tomados do ponto de vista do aprofundamento ou do questionamento, mas no de focalizar determinados eventos. Não há aí nenhuma “intuição” (insight) (22), só uma predeterminação do campo de visão, daquilo que quer ser visto ou afirmado. Focalizar não é outra coisa que ajustar o foco de nossa visão ao que podemos (ou queremos) ver. Não há dúvidas nem perguntas, só afirmações. Não há crítica nem argumento, só descrição e revelação.

Giedion e Pevsner trabalham nessa perspectiva de forma totalmente consciente. Tanto é assim que as ideias comentadas até agora provêm dos textos introdutórios de seus livros, nos quais advertem seus leitores sobre suas intenções e forma de trabalhar. São jogadores honestos, seguramente, ainda que preocupados só com a demonstração de verdades únicas e predeterminadas pelo mito da síntese secreta, cuja única virtude radica na tentativa de ligar a arquitetura moderna ao passado (23) como forma de repensar a ruptura defendida no período de entre-guerras (24).

Como estamos a falar da verdade oculta nos paradigmas, aquelas que são capazes de transmitir a essência da coisa, e o historiador é um arauto, não será preciso argumentar ou fundamentar – basta revelar. Por isso, Giedion (25) admite que “o aparato bibliográfico foi reduzido ao mínimo” e esclarece que “Tampouco foi incluída uma bibliografia geral”. O argumento para tanto é que essa inclusão “só teria aumentado o volume do livro em mais cinquenta páginas, sem com isso lhe conferir completude científica”.

Como e por que a falta da bibliografia não foi considerada pelo autor (um historiador) uma afronta? E por que ela não completaria cientificamente o livro?

Sobre as intenções dos historiadores: mitos

Para responder a tais questões, devemos voltar às intenções reveladoras e pessoais do autor, pois, como defende Pevsner, só um monumento é suficiente para evidenciar a verdade. Pevsner (26) também se defende indicando que “introduzir matizes mais sutis duplicaria ou triplicaria a extensão do livro”. Assim, unindo o útil ao necessário (a “verdade” e o lucro do editor), temos que o fulgor da verdadeira essência da arquitetura resplandece nas obras imortais “que expressam com a máxima intensidade a vontade vital e os sentimentos vitais” (27), que o historiador é capaz de reconhecer, apresentar, penetrar e explorar. Se tudo isso é “verdadeiro” (e evidente), qual seria a necessidade de apoiar o discurso em referências bibliográficas? Por que deveríamos chamar outros autores em nosso auxilio, se “a verdade” já está nos edifícios paradigmáticos?

Como arautos, e dentro da cronologia dos historiadores de arquitetura do movimento moderno, Giedion e Pevsner representam a origem e a consolidação de um mito, que, como tal, prescinde de comprovação. “A falsa clareza é apenas outra expressão do mito”, afirmam Adorno e Horkheimer (28) e continuam a alegar que o mito foi sempre “obscuro e iluminado ao mesmo tempo”. Mas o que o diferencia é que se apresenta como familiar e dispensa o “trabalho do conceito”, frente ao qual valem sempre os “princípios” (29).

Bruno Zevi

O caso de Bruno Zevi é diferente dos de Pevsner e Giedion justamente nesse sentido do enfrentamento entre conceitos e princípios. É certo que escreve depois deles, mas nem tanto; seu primeiro livro importante, Sapere vedere l’architettura, é de 1948, (30) apenas cinco anos após a publicação do de Pevsner; e Storia dell’architettura moderna, que é de 1950, (31) finaliza a década que se segue ao de Giedion. Mas, embora tenham sido publicados durante a guerra, os livros de Pevsner e Giedion foram escritos antes. Já os de Zevi são do pós-guerra, escritos a partir de 1945 e na pespectiva da luta contra o fascismo (32). O próprio autor considera superados os historiadores anteriores e suas obras, pois, ainda que as reconheça como “as mais destacadas histórias da arquitetura moderna”, também as acusa (especialmente as de Giedion) de “uma posição mental ao mesmo tempo positivista e abstrata-figurativa (que alterou) a objetividade histórica” (33).

Bruno Zevi: Sapere vedere l’architettura. Torino: Einaudi, 1948. (2a edição, 1951)

Bruno Zevi: Storia dell’Architettura Moderna. Torino: Einaudi, 1950. (2a edição, 1953b)

Com seu trabalho, Zevi pretende ir além dos textos de seus predecessores não só do ponto de vista temporal, ultrapassando os trabalhos de Le Corbusier que finalizavam o de Giedion, mas também do ponto de vista metodológico e mental, uma vez que “nenhuma (dessas histórias) analisou a passagem essencial da arquitetura moderna da fase funcionalista, em seu sentido eminentemente econômico e mecanicista, para uma fase humanizadora” (34).

Essa etapa, que toma o homem como medida e como finalidade, teve sua origem nas propostas que Zevi (35) apresentou em 1947, no I Congresso Nazionale delle APAO, (36) numa comunicação desafiadora: “L’architettura organica di fronte ai suoi critici”. Texto de forte teor retórico, deve ser considerado um manifesto alinhado com textos similares produzidos nas fileiras do movimento moderno antes da guerra.

Uma crítica operativa

Nessa exposição, Zevi (37) defende um novo paradigma, que se contrapõe aos preceitos de princípios abstratos defendidos anteriormente: a “identidade entre história e crítica” e “o paralelismo entre historia da arte e crítica da arte”. Com a mesma ênfase de uma crônica de guerra, deve-se “combater o conformismo (da arquitetura moderna) no campo histórico-crítico”, para finalmente reorientar o pensamento arquitetônico investindo-o de uma “função social”, suscitando um “amplo consenso” e definitivamente “propugnando uma educação arquitetônica popular” (38). A expressão era típica do socialismo libertário que o autor proclamava, tanto do ponto de vista acadêmico como civil, como membro do Partito Socialista Italiano (PSI) (39).

O objetivo de Zevi (40) em Veneza (41) era “historicizar (storicizzare) a metodologia do processo de projeto (progettazione) conectando o aprofundamento científico sobre o antigo com o trabalho na mesa de desenho, afastando-o da ótica tradicionalista”. Esse afastamento inclui a construção de um novo pensamento histórico (“La storia como metodologia del fare”) (42), que exige uma “revisão da historiografia arquitetônica” (43). Para tanto, o autor revisará as contribuições “dos mais destacados estudiosos”, incluindo uma bibliografia comentada de quase 80 páginas (44) no seu livro Storia dell’Architettura Moderna.(45) No primeiro parágrafo dessa extensa bibliografia, declara que é “a primeira tentativa de uma bibliografia da arquitetura moderna”, o que era de fato certo em 1950, e sua dupla finalidade era “documentar a atividade científica e proporcionar aos estudiosos o meio para determinar rapidamente o material ilustrativo dos temas tratados” (46).

Documentação: crítica e história

Mas, neste ponto, deveríamos perguntar qual é o sentido dessa erudição zeviana? Parece que, como Tafuri, Zevi exige uma volta à documentação, contrariando a postura dos historiadores anteriores e propondo pela primeira vez uma bibliografia. Entretanto, sua finalidade era desmascarar uma atitude ideologizada de uma “história que trai a vida, dos estudiosos que dão a mão a profissionais oportunistas, proporcionando-lhes um encobrimento intelectual” (47). Em suma, uma crítica em chave arquitetônica da tragédia cultural que atingia as sociedades capitalistas no pós-guerra. Mas a palavra crítica não significa o mesmo para todos os autores. No caso de Zevi, é uma crítica operativa, que tende a fixar-se nos processos do fazer (a “metodologia del fare”), e ele se pergunta:

“Como funciona essa crítica? Do mesmo modo que a moderna crítica musical, literária ou figurativa. A atenção concentra-se mais no processo que no resultado. Devem ser analisados e avaliados o programa do edifício e suas possíveis alternativas, o modo pelo qual adquiriu uma forma, ou as possíveis maneiras pelas quais poderia adquirir outra, as opções com respeito ao espaço e seu uso, os volumes, o sistema estrutural, até a moldagem final. Vai-se identificando o itinerário constituído da somatória dos dados, do processo indutivo e dos momentos de verdadeira invenção. A crítica histórica aspira reconstruir a gênese e o crescimento de uma hipótese arquitetônica desde o interior (da arquitetura)” (48).

Temos aqui o ponto de desencontro entre o pensamento zeviano e o tafuriano: o dentro e o fora da arquitetura. Zevi argumenta autonomamente que “há uma imensa fé na arquitetura como profecia” que é capaz de “transformar a realidade movendo a própria base da cultura” (49). Tafuri (50), pelo contrário, pensa que “esses esforços são em vão perante a montagem dos diferentes fragmentos arquitetônicos na cidade [...] (pois nela) são absorvidos sem piedade e privados de toda autonomia”.

Crítica da crítica operativa

Em contraposição a Zevi, em seu livro mais emblemático, Teorie e storia dell’architettura, Tafuri (51) dispara que:

“a crítica, afastando de si a tentação de se apresentar como comentário explicativo, tradução literária, análise desinteressada ou depositária de perspectivas proféticas, assume a função de papel de tornesol mediante a verificação da validade histórica da arquitetura”.

Mas, como afirmava Benjamin (52) “a teoria da crítica é tout court a prática da interpretação”. Nessa perspectiva, o crociano (53) Zevi e o marxista Tafuri se nivelam perante a história. Qual é a grande diferença entre eles? Um continuará socialista, e o outro será sempre um comunista.

Manfredo Tafuri: Teorie e storia dell’architettura. Bari: Laterza, 1968. (1a edição)

A crítica dos professores comunistas (como Alberto Asor Rosa, mas também como Tafuri e Massimo Cacciari) a Zevi provinha do entendimento de que ele “nutria certa nostalgia pela velha universidade elitista, quando hoje (se refere a 1979, mas podemos estender o período dessa polêmica até 1968) se deve enfrentar, para bem ou para mal, o problema da universidade de massa” (54). Mas Zevi argumentava que não entendia o que era essa universidade de massa, que o que ele percebia era uma “massificação da universidade de elite [...] incentivando a incultura de massa e institucionalizando o analfabetismo, e a ‘titulação’ generalizada (“laureificio” generalizzato)” (55). É certo e evidente que há em Zevi uma defesa do sentido elitista da velha tradição erudita que remonta ao século 18, mas, como já levantamos antes, quando discutimos a ruptura na linha de construção da erudição nos anos 1970, a pergunta pertinente – e essa era a pergunta de Zevi em fins dos anos 1960 – é: o que vamos colocar no lugar da universidade elitizada? Ou, o que seria pertinente ao nosso tema, o que devemos colocar no lugar da erudição?

No entender de Zevi, havia um sentido e um sentimento da verdade como algo que sobrepujava a existência, bem nos moldes idealizados do pensamento anterior à Segunda Guerra Mundial e do próprio idealismo alemão. Destarte, ele é um historiador de transição que rompe com os moldes míticos de antes da guerra, mas se mantém alinhado emocionalmente com o modelo de “princípios” morais próprio dos manifestos que ajudaram a impor e a difundir o entendimento da arquitetura moderna dentro dos padrões históricos. Por exemplo, Zevi defendeu um princípio moral superior pelo qual a arquitetura – e também a vida – tinham sentido; chamou esse princípio de “arquitetura orgânica”, e a ele permaneceu ligado toda a sua vida. Afirmou que “um crítico pronto a aceitar e ideologizar todo o que está na moda, mesmo a mais idiota, não é um crítico” (56) Tafuri fugia dessa armadilha posicionando a crítica no lugar do esclarecimento como forma de enfrentar os problemas que a história nos coloca. O que significa a crítica para Tafuri (57), então?

“Criticar significa, na realidade, apreender a fragrância histórica dos fenômenos, submetê-los ao crivo de uma rigorosa avaliação, revelar suas mistificações, valores, contradições e dialéticas íntimas, fazer explodir toda a sua carga de significação. [...] Efectivamente, quando se combate uma revolução cultural, existe uma estreita convivência entre crítica e ação. [...] (mas, quando passa o momento revolucionário) Para não renunciar à sua tarefa específica, a crítica deverá então começar a orientar-se para a história do movimento inovador, descobrindo nele, desta vez, carências, contradições, objetivos traídos, fracassos e, principalmente, demonstrando sua complexidade e se carácter fragmentário”.

notas

NE – Este texto é a segunda das quatro partes que compõem o trabalho completo enviado pelo autor. As partes são as seguintes:

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 1/4). Manfredo Tafuri e a historiografia da arquitetura moderna. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 182.06, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.182/5621>.

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 2/4). As primeiras histórias sobre a arquitetura moderna. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 183.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.183/5659>.

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 3/4). As histórias da arquitetura moderna, dos anos 1960-1970. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 184.07, Vitruvius, set. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.184/5746>.

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 4/4). As histórias sobre a arquitetura moderna sem erudição, 1980-2010. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 185., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.185/5770>.

1
BONTA, Juan Pablo. Sistemas de significación en arquitectura: un estudio de la arquitectura y su significación. Barcelona: Gustavo Gili, 1977, p. 149 et seq.

2
Idem, “A interpretação canônica é o resultado acumulativo de muitas respostas prévias, destiladas pela repetição e reduzida a seus pontos essenciais. A formação de um cânon tem que ser descrita, assim, não como um processo de crescimento, mas como um processo de filtragem” (tradução nossa).

3
Idem, p. 157-161.

4
Idem, p. 170.

5
Um exemplo poderia ser o de Carlo Cattaneo, pensador positivista que foi recuperado por Aldo Rossi (1982, p. 107) nos anos 1960 como “um dos primeiros urbanistas em sentido moderno”. O que não era um entendimento nem no século 19, nem na primeira metade do 20.

6
Talvez pudesse ser um bom exemplo o livro do historiador inglês James Maude Richards, An introduction to Modern Architecture, publicado em 1940 e revisado em 1953 e 1963, que já estava obsoleto na primeira edição e hoje está totalmente esquecido.

7
RAGON, Michel. Historia mundial de la arquitectura y el urbanismo modernos. Barcelona: Destino, 1979. Tomo 1: Ideologías y pioneros 1800-1910. p. 5.

8
Refere-se especificamente ao fato de que não havia histórias da arquitetura escritas em francês ou em qualquer outra língua, salvo o inglês.

9
TAFURI, Manfredo. Architecture and Utopia: Design and Capitalist Development. Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1980.p. 8-9, tradução nossa.

10
Trata-se de “Per una critica dell’ideologia archittettonica”, em: Contropiano, Materiali marxisti, n. 1, 1969, p. 31-79. Existe tradução castelhana em Tafuri. A revista Contropiano, que nasce em 1968, foi organizada inicialmente por membros do Partido Comunista Italiano (PCI) como Toni Negri, Alberto Asor Rosa e Massimo Cacciari, e segue a trilha das famosas revistas da esquerda italiana de pós-guerra, como Qauderni Rossi e Classe Operaria (1964-1967), estas últimas órgãos de difusão do autonomismo marxista, mais à esquerda que o PCI. Tafuri passará a formar parte da direção de Contropiano em 1969. Para uma descrição mais detalhada da historia e finalidade da revista, ver o comentário de José Quetglas em Ciucci et al.

11
Depois da Segunda Guerra, publicam-se na Itália “Storia dell’Architettura moderna, de Bruno Zevi, em 1953, L’Architettura moderna, de G[illo] Dorfles, em 1954, e a Encyclopédie de l’architecture nouvelle, de A[lbeto] Sartoris, de 1954 a 1957 [...] H[enry-Russell] Hitchcock publica em Inglaterra: Architecture 19th and 20th Century e Jürgem Joedicke en Alemanha: Geschichte der modernen Architecktur (ambas publicadas em 1958, o mesmo ano que Michel Ragon publica seu Le livre de l’architecture moderne). Em 1959, aparecia Theory and Design in the first Machine Age de R[eyner]. Banham” (RAGON, 1979, p. 5). E, na década de 70, o próprio Ragon escreverá sua Histoire mondiale de l’architecture et de l’urbanisme modernes, em três tomos: T. 1: Idéologies et pionniers, 1800-1910, 1971; T. 2: Pratiques et méthodes, 1911-1985, 1972; T. 3: Prospective et futurologie, 1978.

12
Menos ainda a de Ragon que afirma ter escrito seu Livre de l’architecture moderne porque “não dispunha de um (a história) para ler” em francês.

13
TAFURI, Manfredo. Teorias e história da arquitectura. Lisboa: Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1979. p. 198.

14
GIEDION, Siegfrid. Espaço, tempo e arquitetura: o desenvolvimento de uma nova tradição. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 22, grifo nosso.

15
GIEDION, Siegfrid. Space, Time and Architecture: The growth of the new tradition. 2. ed. Cambridge: The Harvard University Press, 1949.p. 6, grifos do original, tradução nossa.

Preferimos fazer nossa própria tradução, uma vez que a de Alvamar Lamparelli nos resulta inadequada neste momento, pois ele traduz “insight into” como “intuição”. Contudo, voltaremos a usar o sentido da “intuição” que se revela na referida tradução. A frase original é: “History is not a compilation of facts, but an insight into a moving process of life

16
GIEDION, Siegfrid. Espaço, tempo e arquitetura: o desenvolvimento de uma nova tradição. São Paulo: Martins Fontes, 2004p. 22.

17
PEVSNER, Nikolaus. Esquema de la arquitectura europea. Buenos Aires: Infinito, 1953.

18
Ibidem, p. 9

19
Idem

20
Ibidem, p. 10.

21
GIEDION, Siegfrid. Espaço, tempo e arquitetura: o desenvolvimento de uma nova tradição. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 22.

22
Idem

23
TAFURI, Manfredo. Teorias e história da arquitectura. Lisboa: Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1979p. 198

24
Ainda assim, é oportuno perceber, como também adverte Tafuri, que a relação entre a arquitetura moderna e as dos períodos anteriores se faz segundo critérios formais, e não ideológicos. “O anti-historicismo das vanguardas modernas – afirma Tafuri (1979, p. 59) – não é, portanto, produto de uma escolha arbitrária, mas é a saída lógica de uma experiência que tem seu epicentro na revolução brunelleschiana e suas bases no debate que durante mais de cinco séculos se desenvolveu na cultura europeia”. E não são só os trabalhos de Giedion ou Pevsner – autores, digamos, da Primeira Geração – que têm essa característica, pois autores posteriores como Colin Rowe ou Alan Colquhoun apontam ideias semelhantes, ainda que muito mais bem desenvolvidas e justificadas por linhas teóricas também mais bem argumentadas. Para entender o trabalho desses historiadores ingleses sobre os quais não nos debruçaremos aqui, recomendamos Manierismo y arquitectura moderna y otros ensayos, Colin Rowe (1978), e Modernidade e tradição clássica, de Alan Colquhoun (2004).

25
GIEDION, Siegfrid. Espaço, tempo e arquitetura: o desenvolvimento de uma nova tradição. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 23.

26
PEVSNER, Nikolaus. Esquema de la arquitectura europea. Buenos Aires: Infinito, 1953. p. 8.

27
Ibidem, p. 10.

28
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991p. 14

29
Mas Aby Warburg (citado por Gombich) já nos advertiu de que “a humanidade nunca será capaz de viver sem o mito”, o que, como afirmou Ernst H. Gombrich (1992, p. 40), demonstra o “espírito conservador do ser humano”.

30
Torino: Einaudi. Aqui, usamos a edição em português (1978).

31
Idem.

32
Zevi (1957, p. 11) afirma que Verso uma architettura organica: saggio sullo sviluppo del pensiero architettonico negli ultimi cinquent’anni, que é de 1945 (Torino: Einaudi), “estava dirigido aos jovens arquitetos que seriam chamados a reconstruir nos imensos territórios devastados” pelo conflito bélico.

33
ZEVI, Bruno. Historia de la arquitectura moderna. Buenos Aires: Emecé, 1954p. 10.
Essa e todas as citações desse livro são tradução nossa do original em espanhol.

34
Idem.

35
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza: Marsilio, 1993. p. 55-63.

36
A APAO (Associazione per l’Architettura Organica) foi fundada no Palazzo Del Drago (Piazza delle Quattro Fontane, Roma), em 15 de julho de 1945. Manteve durante dois anos a Escola de Arquitetura Orgânica e organizou dois congressos: em dezembro de 1947, em Roma, e em janeiro de 1949, em Palermo. A última reunião da associação foi em 1950, e seus “princípios” foram publicados na revista Metron, n. 2, 1945. (ZEVI, 1993, p. 52-53).

37
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza: Marsilio, 1993. p.62
Todas as citações desse livro são tradução nossa do original em italiano.

38
Ibidem, p. 60.

39
Zevi lembra que, quando comentou com Lewis Mumford, provavelmente em 1951, durante a Convenção do American Institute of Architects em Filadelfia, que era membro do PSI, o historiador lhe respondeu: “Sei proprio giovane, sai nutrire illusinoi”.

40
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza: Marsilio, 1993. p.65.

41
De 1948 a 1963, Bruno Zevi foi professor de História da Arte e estilos da Arquitetura no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, sob a direção de Giuseppe Samonà (1898-1983).

42
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza: Marsilio, 1993. p. 92.
Cf. Croce, 1938.

43
ZEVI, Bruno. Historia de la arquitectura moderna. Buenos Aires: Emecé, 1954. p. 591.

44
Idem, p. 623-702.

45
Neste trabalho, usamos a edição argentina de 1954.

46
ZEVI, Bruno. Historia de la arquitectura moderna. Buenos Aires: Emecé, 1954. p. 623.

47
Idem, p. 592.

48
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza: Marsilio, 1993. p. 154-155
Essa ideia do trabalho desde o interior foi enunciada por Giedion (1957) em Architektur und Gemeinschaft, de 1956: “nenhum fenômeno poderá ser compreendido corretamente se, dentro do possível, não se mede com seus próprios padrões”.

49
Idem, p. 35.

50
TAFURI, Manfredo. Para uma crítica de la ideologia arquitectónica. In: TAFURI, Manfredo; CACCIARI, Massimo; DAL CO, Francesco. De la vangurdia a la metrópoli: crítica radical a la arquitectura. Barcelona: Gustavo Gili, 1972. p. 25.

51
TAFURI, Manfredo. Teorias e história da arquitectura. Lisboa: Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1979. p. 288.

52
apud YVARS, J. F. Modos de persuasión: notas de crítica. Barcelona: Nexos, 1988. p. 194.

53
“Mi sono sempre dichiarato crociano, segnatamente da quando questo termine passò di moda” (ZEVI, 1993, p. 26).

54
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza: Marsilio, 1993. p. 139.

55
Idem.

56
Ibidem, p. 145.

57
TAFURI, Manfredo. Teorias e história da arquitectura. Lisboa: Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1979, p. 21-22.

sobre o autor

Fernando Guillermo Vázquez Ramos é Professor do Curso e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da USJT. Líder do grupo de pesquisa Arquitetura e Cidade: Representações. Doutor (Univ. Politécnica de Madrid, 1992); Magister (Inst. de Estética y Teoria de las Artes de Madrid, 1990); Técnico em Urbanismo (Inst. Nacional de Administración Pública de Madrid, 1988); Arquiteto (Univ. Nacional de Buenos Aires, 1979).

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