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architexts ISSN 1809-6298


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O autor apresenta seus comentários sobre a 6ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, que esteve em cartaz entre os dias 22 de outubro e 11 de dezembro de 2005, com o tema “Viver na Cidade: Arquitetura – Realidade – Utopia”


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FABIANO JUNIOR, Antonio. Sexta Bienal Internacional de Arquitetura. Viver na Cidade.. Realidade? Arquitetura? Utopia. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 077.07, Vitruvius, out. 2006 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.077/312>.

“(...) que uma profecia não se realize, isto nada prova: ela poderá ainda realizar-se no futuro, o que não se pode provar, mas não pode também negar. As profecias que se realizam estão absolvidas” (1).

Tendo como objetivo mostrar a produção contemporânea de arquitetos brasileiros e do exterior, a Bienal constituir-se-á no centro de debate sobre a contribuição dos arquitetos em todas as suas áreas de atuação: arquitetura, urbanismo, design, paisagismo, comunicação visual, arquitetura de interiores etc. Pretende-se abordar essa temática, com a reflexão sobre a construção das cidades através da Arquitetura, onde o Viver é entendido como amplitude da habitação. Morar na cidade hoje, compreende não só a casa, mas suas extensões, além dos equipamentos urbanos que se fazem necessários, o que resulta num viver intimamente ligado com a cidade real, que é fruto de um crescimento desordenado, pressionado pelas novas exigências de sua população, conseqüência da velocidade das transformações que a sociedade vem sofrendo. Essas reais e contemporâneas necessidades da sociedade impulsionam e estimulam o crescimento das cidades, não raras vezes à revelia das legislações que não conseguem acompanhar essas transformações. A aceitação como fato consumado da cidade real, irá facilitar a compreensão dos mecanismos que impulsionam o desenvolvimento dos grandes conglomerados urbanos. A Utopia, por sua vez, é o pensar idealizado da cidade, necessário para descortinarmos novos caminhos para que o seu crescimento ocorra de forma sustentada, em perfeita sintonia com o meio ambiente natural, hoje um dos maiores problemas da humanidade. A Utopia ainda é uma poderosa alavanca para o progresso de nossa civilização. Cidade que não possua utopias para nortear o seu desenvolvimento, dificilmente conseguirá crescer de uma forma harmoniosa (2).

Nosso hoje: Aprendemos a buscar um espaço de atuação convivendo com a realidade do mercado profissional. Aprendemos que grande arquitetura brasileira já fora realizada (será?), aprendemos que o lucro abocanhou o espaço heróico das idéias (será?), aprendemos que o discurso arquitetônico é importante para a reversão do quadro social e cultural, aprendemos que fomos e cada vez mais somos marcados por formalismos desnecessários, pelas releituras clássicas e neo-neo-clássicas, pela ausência quase total de disciplina intelectual e pela visão romântica e heróica da profissão. E o que fazemos com todo esse aprendizado?

É nesse contexto que afirmo ser mais confortável prever do que constatar.

O que seria uma Bienal de Arquitetura no Brasil? Algo absolutamente heterogêneo, como são os arquitetos e seus trabalhos e principalmente: como sua população, ávida por informação, formação, conhecimento, busca de conhecimento e de identidade. “Vocês querem uma arte do povo? Antes de mais nada procurem ter um povo” (3). Identidade. Buscar, retratar, diagnosticar, mostrar. Seria essa a grande missão de uma Bienal?

Um público que não se enxerga, não enxerga a cidade, a arquitetura e nem a utopia. A Bienal tinha duas preocupações: apresentar-se como uma mostra acessível ao grande público, mostrando-lhes a intenção da arquitetura, a importância da arquitetura e a força da arquitetura. Até hoje, as Bienais só interessaram arquitetos e profissionais ligados à área. A linguagem normalmente usada na arquitetura é um dialeto incompreensível para a maioria delas, impedindo sua participação. Despertar a atenção das pessoas para a arquitetura é ajudá-las, educá-las, fornecer-lhes um meio de comunicar-se.

A segunda preocupação da Bienal, é ainda creditar ao arquiteto seus espaços de invenção. Como é impossível invenção sem riscos, o mercado, cauteloso, exige um profissional que alie conhecimentos técnicos, econômicos e criativos. Como bem cita o arquiteto Luís Antonio Jorge, em artigo publicado na Revista Projeto (4), é crescente a freqüência com que somos solicitados a responder questões que o empreendedor não sabe formular e, portanto, não só espera que o arquiteto as responda como também as elabore. Ou seja, respostas para aquelas lacunas que o empresário considera como espaço da criatividade, da idéia nova, desde que limitada aos recursos disponíveis, sejam eles técnicos, construtivos ou financeiros. Esse é o papel do arquiteto no mercado. Será?

A previsão está aí.

E a Bienal? Como se portou a tudo isso? Foi relevante? Criou público? Ensinou uma linguagem? Comunicou? O quê? Para quê? Para quem? Para que ela foi feita, afinal? Vamos à constatação.

Arquitetura como meio de comunicação

"Comunicação, s. f. ação de comunicar; informação; aviso; convivência; comunhão (de bens)".

No dicionário, o ato de comunicar se restringe a pequenas ações que, paradoxalmente, na vida fora das linhas manuscritas por Doutor Aurélio se perdem em explicações, argumentações e contradições. Porém, antes mesmo de saber o que comunicar, é preciso saber o porquê de passar algo, se isso realmente é necessário.

O ser humano não vive só, ele tem a necessidade de viver em rede, e essa só nasce, fortalece e se quebra através de comunicação entre os interessados. Mas então, o que comunicar? Quais os artifícios – ou meios – que podemos usar para comunicar? Muitas dessas perguntas apontam Le Corbusier. O grande mestre franco-suíço respondeu-as e criou muitas outras como os verdadeiros mestres fazem: fazendo. Villa Savoye é, sem dúvida, muito mais do que uma bela resposta, são perguntas e mais perguntas. Os projetos de Le Corbusier são construções que resolvem problemas, agora o interessante é indagar quais problemas, porque criá-los é a questão crucial de todo o discurso de, diga-se de passagem, uma bela arquitetura.

A arquitetura comunica. O desenho comunica. Será? O que aconteceu com a arquitetura? Por que parou de comunicar? Parou de comunicar? A mídia tão falada hoje tomou seu lugar? Existe apenas um tipo de comunicação?

Aqui é necessária uma pausa para que sejam esclarecidas algumas “agruras” atuais. No momento em que se discute mundialmente que as grandes marcas constituem a nova religião pois “possuem a paixão e o dinamismo necessários para transformar o mundo e converter as pessoas a sua maneira de pensar” (5) encontramos paralelamente – ou será juntamente? – as “marcas” Frank Gehry, Richard Meier, Peter Eisenman entre tantos outros como garantias de publicações e publicidade para seus investidores/clientes (os usuários modernos foram substituídos pela cultura de gosto dos clientes); encontramos o titânio não mais como material, mas símbolo de projetos presentes (Bilbao) e futuros (NY) da fundação Guggenheim.

Ao contrário de outros agentes culturais tais como artistas plásticos e escritores, que têm estado menos condicionados a fatores externos à arte deles, arquitetos sempre precisaram aceitar as forças externas da profissão para praticá-la. E como conseqüência dessa limitação, hoje mais do que nunca, precisam se auto-promover para projetar. Isso é mais ou menos óbvio, mas quando a importância das marcas e da publicidade começa a ser reconhecida como fundamental na agenda dos arquitetos ditos de vanguarda, a discussão sobre marketing na arquitetura passa do âmbito das grandes firmas de projeto para as salas de aula e os livros de arquitetos contemporâneos. Passa também para as grandes mostras de arquitetura. Como produzir uma Bienal sem patrocínio? Como angariar público sem grandes estrelas? Para que grandes obras se temos grandes nomes?

Somado a isso, Gustave Flaubert, escritor de século XIX, descreve que a realidade não é feita de “fatos”, mas de linguagem. Não são as coisas que nos acontecem na vida que fazem a realidade, mas o modo como as interpretamos e, conseqüentemente, reagimos ou não a elas. “Flaubert vivia em um mundo em que as palavras e o pensamento tinham uma importância muito maior do que têm hoje na determinação da vida social” (6). Hoje, quem dá as cartas, predominantemente, são as imagens; e as imagens, aparentemente, pertencem ao domínio dos “fatos”. Fatos estes que nunca vêm desacompanhados, mudos, sem o comentário que os explique, sem a música que lhes dê o sentido pois, quando puro, o sentido de interpretação, a flexibilidade, os rumos e as conclusões são vastos e infinitos, características mais do que combatidas por um mundo que quer apenas parecer, um mundo onde a informação prevalece à formação, onde a sede de propaganda engana aos outros e a nós mesmos. A Bienal precisaria de mais linguagem e muito menos fatos. Deveria se portar como campo de possibilidades e não como cartilha de respostas prontas. A arquitetura deve emocionar? Sim, mas as emoções não devem ter roteiros, não devem ser domadas, não devem ser contadas, detalhadas, minuciosamente pré-estabelecidas.

Chegamos assim a uma complexa problemática: “essa comunicação” apenas informa, ignora a possibilidade de se ramificar, de mudar, de propor interpretações, de “ilustrar” o tempo, de formar. O próprio tempo já não existe mais. Numa época em que temos o vídeo como o principal – e para alguns o único – meio de comunicação sem tempo e sem espaço, sem ontem e nem amanhã, capaz de transmitir diversos fusos horários, destruindo as horas, o dia e a noite, onde a imagem registrada não deixa, portanto, nenhum traço físico e confunde ao mesmo tempo passado e presente, concreto e abstrato, sonho e realidade, a comunicação através da arquitetura realmente perdeu espaço. Ela se enfraqueceu por um grande detalhe: sua sede de comunicação nunca foi única; sua flexibilidade de interpretação pode até tê-la “destruído” mas nunca ela tentou pregar verdades latentemente intocadas. Tadao Ando, arquiteto japonês, escreve que a arquitetura diz respeito a um “circunscrito cuja criação tem dois objetivos. Um é o ideal, o outro a ambição. O ideal da arquitetura é formar um modelo do mundo. Sua ambição é despertar as sensibilidades humanas”. E nesse paradoxo, de se criar um modelo (que pressupõe a generalização-massa) e o tocar os sentidos (que pressupõe o indivíduo) que se encontra a chave para a comunicação da arquitetura. Uma comunicação que jamais será substituída pela TV e jamais será “verdadeiramente verdadeira”.

“(...) o aumento das comunicações não nos leva à substituição de um modo de vida por outro, mas apenas à multiplicação das possibilidades” (7).

E como combatemos isso? Precisamos combater isso? É questão do tempo? É relevante? Sem dúvida que sim. Se considerarmos a belíssima idéia de Lina Bo Bardi quando diz que tempo linear não existe, “ele é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante, podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim” (8) começaremos a discutir a questão da necessidade de concretizarmos e materializarmos idéias, problemas e soluções sem nos prender às amarras da história, no passado que se encontra presente e que, de alguma maneira está extrema e necessariamente vivo, como uma memória do hoje. Frente a essa situação, temos a tarefa de propormos um “presente verdadeiro”, analisarmos e entendermos historicamente o passado, sabermos distinguir o que irá servir para novas situações atuais e marcarmos, não essa linha, mas essa teia de idéias e soluções formada pelo homem.

Quando se chega a essa situação, a questão de marcarmos nossa época, nossa história, nossos acertos e erros, nossos anseios e nosso tempo é primordial.

E a Bienal, o que tem a ver com tudo isso?

Será que justamente essa pergunta não nos faz pensar na fragilidade dela enquanto espaço para efetivas discussões, brigas, debates, vitórias, derrotas e possibilidade de mostrar para que serve a Arquitetura? Ou uma Bienal, hoje, se vale da possibilidade de simplesmente divulgar e oferecer serviço (no lugar de arquitetura)?

notas

1
Otto Maria Carpeaux.

2
Texto fornecido pela Fundação Bienal sobre a 6ª Bienal de Arquitetura.

3
RATTO, Gianni. Antitratado de Cenografia: variações sobre o mesmo tema. 1ª edição, São Paulo, Editora Senac, 1999.

4
JORGE, Luís Antônio. “Dez anos de solidão”. Revista Projeto, n. 263, p. 28-29.

5
”Publicitários dizem que marcas são “nova religião””. Folha de São Paulo. São Paulo, 27 mar. 2000, p. 14.

6
KEHL, Maria Rita. “Baixaria e realismo”. Folha de São Paulo. São Paulo, 14 jan. 2001, p. 2.

7
VIGLIECCA, Héctor. “O último projeto: o fim da arquitetura”. Boletim Óculum. Campinas, n. 27, dez. 1998, p. 3.

8
BO BARDI, Lina. Lina Bo Bardi. 1ª edição, São Paulo, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1997.

sobre o autor

Antonio Fabiano Jr., arquiteto formado pela FAU PUC-Campinas.

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