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architectourism ISSN 1982-9930

Fazenda no interior do Estado de Minas Gerais. Foto Abilio Guerra

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português
Sonia Manski, arquiteta que trabalha o dia inteiro, avessa desde sempre à cozinha, em tempos de pandemia se reencontra com a cozinha, espaço abandonado de sua casa.


how to quote

MANSKI, Sonia. Quarentena na cozinha. Turismo caseiro em tempos de isolamento social. Arquiteturismo, São Paulo, ano 14, n. 156.04, Vitruvius, abr. 2020 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/14.156/7700>.


Quem me conhece sabe que longe de mim o gosto pela cozinha. Talvez venha de família. Não, minto! Minha mãe até que cozinhava. Embora um trivial, era bem gostosinho. Mas com o tempo foi se cansando.

Suponho que minha distância do fogão e de tudo que pudesse ser associado com trabalho doméstico tenha origem na vontade de me afastar do modelito das esposas dependentes do marido que não trabalhavam fora de casa naquela época. E às vezes pagavam caro por isso.

Além do mais, minha adolescência aconteceu durante a segunda onda do feminismo. Sem falar que cursei arquitetura na USP, em clima para lá de modernoso, onde a inclinação pode ter se exponenciado por osmose. Resultado: assumi uma postura de recusa a tudo o que pudesse se assemelhar a qualquer tarefa do lar. Dá-lhe rebeldia. Sem muita causa, obviamente.

Meu marido costuma dizer – com toda razão – que meu sonho de consumo é uma casa sem cozinha ou com a cozinha fechada. Por falar nisso, pode ser que sim essa rejeição tenha um caráter genético, me ocorreu agora. Tenho uma tia que realizou esse meu sonho: mora em um desses apartamentos moderninhos tipo loft, em que você entra na sala e logo dá de cara com um balcão à guisa de cozinha e uma escada em caracol que dá acesso a um mezanino que é o quarto. Na mudança, se desfez de tudo o que tinha, mesmo porque não caberia no novo espaço – se bem me lembro, não conservou nenhuma panela. No máximo uma chaleira para fazer um café ou chá. Fora minha irmã minimalista, mais radical ainda, que optou por um estúdio menor, se é que é possível.

Pouco importa de onde vem essa rejeição. Importa mais que meu ano de nascimento me obrigou a pertencer ao grupo de risco nessa pandemia que estamos vivendo. Somando-se minha asma, minhas pneumonias e meu pulmãozinho sequelado, estou em casa represada em quarentena radical.

Voltando à cozinha propriamente dita, o lugar onde se preparam os alimentos, também estou condenada a ali passar algumas horas do dia. Por quê? Ora, porque no pequeno grupo de moradores de casa, a que pertencemos eu e meu marido (filhos adultos já escaparam para outras localidades), euzinha sou quem mais reúne condições para arcar com o trabalho rotineiro e diário, cujo produto é consumido em muito menos tempo do que sua produção.

Há tempos não me incumbia dessa tarefa. Ainda mais porque trabalho em período integral e meu marido, idem: eu almoço em restaurante próximo ao trabalho, pagando com meu vale refeição e ele, onde quiser. À noite, desde sempre tomamos lanche, o que me isenta de manter uma despensa abastecida com os itens necessários para uma cozinheira ter condições de executar bem seu serviço. Tanto que na lista da primeira compra, mal sabia o que encomendar.

Interessante que minha atitude provocou o contrário nos filhos: nutrem paixão e gosto não só pela comida como pelo preparo de iguarias. Inclusive diria que revelou talentos neles. Enquanto uma mantém uma deliciosa cozinha naturalista baseada na diversidade de verduras, legumes, cereais e leguminosas, com toques de queijos diversos, o outro tem um Instagram com muitos seguidores onde posta pratos que experimenta e tutoriais simples de preparo de dar água na boca. Suspeito que ambos tenham nascido com um paladar privilegiado que lhes permite identificar sabores que para mim passam despercebidos. Ou talvez tenham treinado esse sentido.

Tudo isso para contar que resolvi começar com o arroz/feijão. Literalmente. Acompanhado por couve, peito de frango e uma salada básica. Tudo temperado só com o que eu me lembrei de pedir para comprar: alho e cebola. Azeite e vinagre balsâmico felizmente tínhamos. Surpresa total no almoço: a couve ficou deliciosa, o feijão também. Aliás, tudo ficou muito gostoso.

Como assim? O que estaria acontecendo comigo? Será que minha postura de negação poderia ser interpretada como uma reação contra o papel que minha mãe desempenhava? E, por baixo dela, existia uma Amélia recalcada prontinha para realizar com sucesso a atividade primordial que agregava o clã ao redor do fogo?

Difícil saber. Ao redor da mesa, apenas um casal degusta o prato singelo, sendo que a esposa que sou eu está se deliciando com a culinária caseira fresquinha. E degusta com muito mais prazer, bem diferente do que acontecia de segunda a sexta nos restaurantes por quilo perto trabalho. Resta saber quanto durará esse amor. Por enquanto, procuro receitas no Google para meu aprimoramento.

sobre a autora

Sonia Manski, paulistana, formada em arquitetura (FAU USP) e psicologia (Unip), trabalha na Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa – Condephaat desde 1982. É autora de artigo na coletânea Infâncias (org. Heloísa Prieto, Escrita Fina, 2011) e autora do livro Meus queridos cavalheiros (Girafa, 2006) e Sem cerimônia, diário de uma psicoterapia (Ágora, 2002). Teve textos selecionados para participar da criação do espetáculo Eu de você, monólogo de Denise Fraga, com direção de Luiz Villaça (2019).

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156.04 viagem na própria casa
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