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research

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architectourism ISSN 1982-9930

Chichen Itza, México. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
O artigo trata das minhas primeiras idas à cidade de Goiás, mais conhecida como “Goiás Velho”. Motivada pela arquitetura e pelo patrimônio cultural da humanidade, descobri uma cidade modesta e bucólica, e também repleta de encantos naturais e sociais.

english
This paper deals with my first trips to the city of Goiás, better known as "Old Goiás". Motivated by the architecture and by the world cultural heritage, I discovered a modest town and bucolic, and also full of natural and social charm.

español
Este trabajo trata de mis visitas a la ciudad de Goiás, más conocida como "Goiás Viejo". Motivada por la arquitectura y el patrimonio cultural de la humanidad, yo descubrió una ciudad modesta y bucólica, y también llena de encanto natural y social.


how to quote

OLIVEIRA, Carolina Fidalgo de. Conhecendo a velha cidade de Goiás. Arquiteturismo, São Paulo, ano 07, n. 081.02, Vitruvius, nov. 2013 <https://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/07.081/4970>.


Devo confessar que a cidade de Goiás (GO), mais conhecida entre nós e também no próprio território goiano como “Goiás Velho”, não era um destino certo para mim, até mergulhar na pesquisa de doutorado e esta cidade se evidenciar como um caso de estudo intrigante e, diga-se de passagem, sedutor.

Lançadas algumas inquietações iniciais da pesquisa de doutorado, me coloquei à caminho da cidade de Goiás. A primeira viagem foi a partir de Brasília, de carro, cruzando 340 Km pelas BR 060 e 070 e pequenas cidades pelo interior de Goiás. Da segunda vez, partindo de São Paulo, acompanhava-me minha mãe; fizemos escala em Goiânia e, então, seguimos mais140 km até a “velha cidade”.

Preocupada especialmente com as questões de história, preservação e restauração do patrimônio cultural, chegar a essa cidade pela primeira vez foi, por assim dizer, desconcertante. Ao adentrar a outrora Vila Boa de Goiás, logo me vi inserida numa paisagem exuberante, e me senti afortunada pelo nosso passado desbravador. A ocupação deste território sucedeu ao de Minas Gerais com os bandeirantes paulistas seguindo rumo a Oeste. Região aurífera, revelada em finais do século 17 por Bartolomeu Bueno da Silva pai, acompanhado do filho que, quarenta anos mais tarde, já certo da existência do ouro, retorna ao local e funda, no início do século 18, os Arraiais de Barra, Ouro Fino, Ferreiro e Santana.

Perspectiva do Rio Vermelho. À margem esquerda, hospital de Caridade; ao centro vê-se a ponte do Carmo. Enquadrando a paisagem, vê-se parte da Serra Dourada
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira

O Arraial de Santana, que em 1739 torna-se Vila Boa de Goiás e em 1818 cidade de Goiás, foi fundado numa região de interseção entre a Serra Dourada e a Serra do Faina, sendo que o sítio urbano foi estabelecido num fundo de vale resultante da evolução de rochas vulcânicas e sedimentares muito antigas, o que hoje conforma uma moldura natural espetacular à esta cidade.

O Rio Vermelho, responsável por danosas e dolorosas enchentes que, de tempos em tempos invadem a cidade – sendo a mais conhecida delas a que ocorreu em 2001, exatos 15 dias após o reconhecimento desse núcleo urbano como Patrimônio Cultural Mundial –, é também parte de uma paisagem singular, contribuindo para caracterizar o território. No passado, favoreceu também à hierarquização social deste lugar, posto que ao sul de suas margens constituiu-se a Igreja Matriz e os edifícios públicos mais importantes, como a Casa de Fundição e o Palácio do Governador. É nesta parte da cidade que se encontra também o Largo do Chafariz, onde a autoridade portuguesa delimitou, em finais do setecentos, um vasto espaço em formato triangular e ergueu edificações de características coloniais e barrocas, como a Casa de Câmara e Cadeia (atual Museu das Bandeiras) e o Quartel do XX. Já ao norte do Rio Vermelho implantou-se, dentre outras, a Igreja do Rosário e o casario mais singelo. Mais acima, situa-se a Igreja de Santa Bárbara de onde é possível olhar a cidade e a Serra Dourada. Seguindo as margens do Rio, também ao norte, localiza-se a Fonte da Carioca, que foi importante ponto de encontro de moradores, viajantes e tropeiros que chegavam a Goiás pela Estrada do Nascente (uma das Estradas Reais).

O casario – a despeito das reformas e reconstruções – forma um conjunto bastante homogêneo na cidade e é bastante singelo com “casas encostadas cochichando umas com as outras”, como bem poetizou Cora Coralina. Em parte das casas goianas, as fachadas sofreram várias alterações, algumas inclusive foram modificadas a fim de acompanhar os modismos historicistas vindos dos grandes centros brasileiros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Em seu interior, várias adaptações foram necessárias, fundamental para adequar a “morada colonial” à vida contemporânea.

Nesta cidade anciã anda-se a pé. Faz muito calor. É preciso ter disposição e estar munido de calçados confortáveis, pois as pedras das ruas são irregulares, algumas são enormes e, até mesmo, desafiadoras. É um encanto conhecer as “ruas estreitas, curtas, indecisas, entrando, saindo uma das outras”, lembrando Cora mais uma vez.

Partindo-se do Largo do Chafariz, de onde é possível admirar os morros que cercam Goiás, como o de Santa Bárbara e Cantagalo, segue-se pela rua Moretti Foggia, passando pela Igreja Matriz, pela Igreja da Boa Morte (atual museu de Arte Sacra), Praça do Coreto e Palácio Conde dos Arcos. Ao final dessa rua, encontra-se um pequeno monumento, a “Cruz do Anhanguera”, em homenagem a Bartolomeu Bueno da Silva, alcunhado de “Anhanguera” pelos índios Goyazes. Ali, do outro lado do rio, atravessando a ponte da Lapa, encontra-se “a velha casa da ponte”, tal como Cora Coralina gostava de se referir à sua morada. Tornou-se museu, recheado por seus poemas e objetos.

Às margens do Rio Vermelho é possível apreciar outras edificações importantes para a cidade, como a Igreja de São Francisco de Paula, o Mercado Municipal – de características neoclássicas –, o Hospital de Caridade e a Casa do Bispo, hoje sede do escritório técnico do Iphan, na qual foi empregada a técnica construtiva da taipa de pilão. Sua implantação, em plano superior ao da rua, proporciona-lhe um aspecto suntuoso.

Casario e rua 13 de Maio
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira

Além do casario e de algumas edificações mais importantes, há várias igrejas espalhadas pela cidade; as mais interessantes são também as mais singelas e despidas de ornamentos, como as Igrejas da Abadia e do Carmo.

Sem dúvida, a arquitetura da cidade de Goiás é capaz de suscitar encantos e também acenar algumas questões, por exemplo, no campo da restauração do patrimônio. Contudo, reservarei essas inquietações para o momento da tese, pois o “charme” desta cidade não se encerra com as questões materiais e foi justamente isso o que mais me aguçou, ao menos nas primeiras vezes que aqui estive.

Além da exuberante paisagem natural e do casario harmonioso encontrei uma cidade cujos compassos da vida social seguem um ritmo próprio. Em Goiás chama atenção a existência de “tempos sociais perdidos”, ou talvez, nem mesmo conhecidos nas maiores cidades brasileiras.

No horário do almoço, não se vê quase ninguém pelas ruas. Em parte pelo forte calor, mas também porque alguns estabelecimentos fecham nesse horário e só reabrem uma ou duas horas depois. Os trabalhadores mais sortudos voltam aos seus lares e nós (estudantes e turistas) aproveitamos para saborear a culinária goiana, preparada em fogão à lenha.

Culinária goiana
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira

Em Goiás, há pessoas acomodadas sobre o parapeito das janelas ou sob os portais, pequenos grupos reunidos nas praças ou sobre a calçada, a observar o que se passa e a trocar informações. Há também pessoas cochilando em redes à sombra das varandas. Em Goiás, descobri que a morte ainda é anunciada por um certo badalar dos sinos das igrejas, cujos sons anunciam se o morto é homem, mulher ou criança. Sim, porque a simpática guia que me conduzia pelos ambientes da casa de Cora, ao ouvir os sinos, parou de falar. Intrigada, perguntei o que ocorria e ela me explicou que um senhor acabara de falecer.

Em Goiás, as portas das casas ficam sempre abertas, muitos idosos ainda fazem doces artesanais e você é convidado a entrar, sob seus olhares cansados, mas sem nenhuma cerimônia, para experimentar e comprar essas guloseimas. Enquanto pesquisava na Fundação Casa de Frei Simão – supervisionada por uma das “guardiãs” do acervo, Fátima Cançado – minha mãe descobria vários desses lares, comprava doces e artesanato e “jogava conversa fora”. Aliás, prosear é com esse povo mesmo.

O anoitecer é espetacular. Enquanto o sol se deita atrás dos morros monumentais, as modestas luminárias da cidade – cuidadosamente postas à representar antigos lampiões – começam a proporcionar uma penumbra nostálgica. Tudo parte do encantador cenário dessa velha cidade.

Em “Goiás Velho” só não se vê essa calmaria em tempos de festa, quando a cidade se transforma e os ritmos do dia a dia são interrompidos pelos turistas, curiosos e até mesmo moradores, que saem às ruas. As festas mais conhecidas aqui são religiosas, com destaque para a Semana Santa e a procissão do Fogaréu.

Largo do Rosário e atual Igreja do Rosário (reconstruída com características neogóticas durante a década de 1930)
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira

Pode até ser que Goiás não seja um destino fácil para algumas pessoas, não apenas porque é preciso enfrentar as estradas pelo interior do Brasil para se chegar aqui, mas também porque não há luxo, nem grandeza, nem obra famosa de arquitetura. Mas são justamente essas características que fazem de Goiás uma cidade única. É o conjunto urbano, a arquitetura vernacular e os ritmos sociais que agregam valor, beleza e grandiosidade a esta cidade. Goiás é, a um só tempo, reflexo da vida contemporânea e testemunho da história da sociedade.

sobre a autora

Carolina Fidalgo de Oliveira é arquiteta e urbanista, formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e mestre pela FAU USP. Atualmente desenvolve pesquisa de Doutorado em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo na FAU USP, com bolsa de estudos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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