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Resenha emocional da peça “Roda Viva”, de autoria de Abilio Guerra, relaciona a peça de autoria de Chico Buarque de Hollanda à realidade atual do Brasil.

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GUERRA, Abilio. Da roda viva. Quando arte e vida são a mesma coisa. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 210.03, Vitruvius, jun. 2019 <http://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.210/7382>.


“Ha-ha-ha, ha-ha-ha”, ecoa a gargalhada nas paredes do estacionamento ao lado do Teatro Oficina. Estou na fila da peça “Roda Viva” (1), encenada pela trupe de Zé Celso. A risada escapa do alto do conglomerado SS, quem sabe foi despertada nalguma sala esquecida dentro da minha cabeça. Lembro de quando saí de Araraquara ainda menino para estudar num curso técnico em cidade distante e uma tia querida me deu quatro carnês do Baú da Felicidade. “Não ganhei nada nos sorteios”, me disse ela, “mas paguei tudo certinho durante um ano”. Sorriu e me confidenciou: “era um para cada sobrinho, mas como você vai morar sozinho, precisa mais do que os outros; em qualquer loja do Silvio Santos você troca pelo que quiser”. Passando por São Paulo, fui a uma loja e, para minha surpresa, quatro carnês pagos religiosamente durante doze meses valiam apenas o mais simples radinho de pilha. Poupei minha tia da notícia, mas passei a odiar esse senhor que rouba de gente simples e ingênua. Era apresentador da Globo, puxou o saco dos generais, ganhou concessão pública, se tornou dono de TV privada. Montou seu império com o dinheiro da minha tia e de todas as tias que existiam naquele Brasil sem educação.

Grande vidraça do Teatro Oficina vista do estacionamento lateral ao edifício
Foto Abilio Guerra

Me dou conta que já estou dentro do teatro, o Zé Celso está falando, o show vai começar. Nas telas de vídeo e de projeção aparecem legiões de pessoas caminhando nas ruas, nas estradas, invadindo praias em barcos inflados, pulando muros e cercas nas fronteiras, imagens de vários recantos do globo, imagens de párias como os retirantes brasileiros sem eira nem beira, expulsos das terras onde suavam seu sustento, buscando algum recanto onde pudessem acomodar o lombo. Nas legendas, são todos identificados como “brasileiros”, alargando a acepção do termo até nele caber todos os desterrados em movimento nos cinco continentes, cabe até os índios da Amazônia ameaçados mais uma vez de genocídio.

Grande vidraça do Teatro Oficina vista do estacionamento lateral ao edifício
Foto Abilio Guerra

“Propriedade, propriedade”, grita ou canta o coro formado pelos atores, já estamos em outra cena, porém tudo se conecta nesse musical genial de Chico Buarque, atual na denuncia do poder ridículo e do ridículo no poder, uma atualidade que nos agride fundo, que se coloca como espelho de nossa inércia, de nossa impotência. “Propriedade, propriedade” continua a cantoria. Propriedade da terra sem qualquer fundamento, como sabe qualquer crente que leu o Gênesis das Sagradas Escrituras, como sabe qualquer ateu que teve a oportunidade de ler filosofia política e não encontrou nenhum argumento que a legitime, como sabe qualquer índio que usufrui das benesses da terra sem ousar possui-la. Como o ar que respiramos, como a água que bebemos, a terra não foi feita pelo homem, é uma benesse de Deus ou um milagre do acaso. Mas capangas armados os expulsaram da terra prometida, e milícias oficiais ou extraoficiais impedem que retornem, sobra as romarias sem fim para as periferias das grandes cidades.

Teatro Oficina, projeto dos arquitetos Lina Bo Bardi e Edson Jorge Elito
Foto Abilio Guerra

Um anjo negro aparece no céu junto a vidraça mágica que traz para dentro do espaço cênico a árvore que hesita se está no mundo lúdico do Zé ou na propriedade do Silvio. Benedito Silva, personagem principal, faz um contrato com o anjo oportunista, se torna o astro Ben Silver, como certamente fez o maioral da SS, ou das SSs, se preferirem. Astro da peça ficcional, superficial, boçal, gargalhada ruidosa como a do senhor real do golpe do baú, que teve a petulância de tirar o sarro do Zé Celso. “Zé, você não é dono do Teatro?! – Ha-ha-ha, ha-ha-ha –, você não tem a capacidade de comprar um teatro e quer que eu te dê o terreno?! – Ha-ha-ha, ha-ha-ha”. Não entende para que serve a vida, que vai morrer em dois ou três dias, ou em dois ou três anos, e quer levar para a tumba os registros de propriedade. Diante de si, um anjo satírico e dionisíaco de cabelos brancos, de sorriso riscado no canto dos lábios, compreensivo com tanta ignorância, o qual apresento para quem não adivinhou: José Celso Martinez Corrêa.

“Roda Viva”, peça de Chico Buarque, encenado pelo grupo Teatro Oficina Uzyna Uzona
Foto Abilio Guerra

E a peça roda solta, já tem astro brega convertido em Silvio Santos, mas já não é mais o Silvio e virou coronel nordestino, tem uma legião de jagunços com espingardas, ele próprio imita a “arminha” do presidente, todos os tempos juntos num único tempo de infâmia inominável. No fim quem ganha é o anjo negro, que se alia sempre a quem ganha, e quem ganha deve a ele a própria vida. Tem uma diaba vermelha vestida de vermelho que é aliada do anjo, na verdade deve ser a chefe dele, vixe como é confusa essa história, mas é a história do Brasil que nos confunde, pois “finge que vai, mas não vai e acaba fondo”.

“Roda Viva”, peça de Chico Buarque, encenado pelo grupo Teatro Oficina Uzyna Uzona
Foto Abilio Guerra

Me dou conta que os atores e atrizes estão agora pelados, não vi quando tiraram as roupas, tudo acontece ao mesmo tempo, tempo sobreposto, alucinante, mas genuinamente verdadeiro. Sei muito bem o que está acontecendo com nosso país, mas fiquei com a impressão que nada sei, pois é bem mais simples do que supunha, tudo não passa do contrato com o anjo negro, tudo não passa da opção muito simples de ser boçal, de ser mau, uma livre escolha pela violência das armas, pela arrogância ignorante, pela opressão sobre os mais fracos, pelo desprezo pelos seres vivos. Quer morrer com os bolsos cheios de títulos de propriedade e ser enterrado a sete palmos abaixo do chão calcinado. Ele, Silvio, e ele, nosso parente bonzinho que escolheu sorridente nas ruas e nas urnas o cara que só pensa em pinto e em mijo, em armas e em insultos.

“Roda Viva”, peça de Chico Buarque, encenado pelo grupo Teatro Oficina Uzyna Uzona
Foto Abilio Guerra

Acordo e me vejo conduzido pela maré de gente que vaza rua acima, rua magnífica concebida por Lina no interior do Oficina, rua que se torna passarela do samba, público vestido e atores pelados misturados, dançando juntos somados ou divididos pelas bandeiras coloridas. Mas com meus óculos distorcidos eu só vejo a procissão fúnebre, as pessoas melancólicas, o sorriso sarcástico do anjo negro.

“Roda Viva”, peça de Chico Buarque, encenado pelo grupo Teatro Oficina Uzyna Uzona
Foto Abilio Guerra

[08 de junho de 2019]

notas

NA – Vigésima sétima publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook.

1
Roda Viva, peça de Chico Buarque, 1967. Versão 2018: Zé Celso e Coro Teatro Oficina. Diretor: Zé Celso, assistente de direção: Beto Eiras; diretor musical: Felipe Botelho. Coreógrafo: Ibrahima Sarr; desenho de luz: Guilherme Bonfanti; Maquiagem e Figurino: Sonia Ushiyama.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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