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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
resumo Esta comunicação nasce do desejo de explicitar a referência ao trabalho do italiano Bernardo Secchi que, em termos urbanísticos, utiliza-se da palavra “racconto” como chave de interpretação e instrumento de estruturação dos saberes disciplinares.

english
This communication was born from the desire to highlight the reference to the work of Italian Bernardo Secchi who, in urbanistic terms, uses the word "racconto" as an interpretation key and a tool for structuring disciplinary knowledge.

español
La comunicación nace del deseo de explicitar la referencia al trabajo del italiano Bernardo Secchi que, en términos urbanísticos, se utiliza de la palabra "racconto", como clave de interpretación e instrumento de estructuración de saberes disciplinares.


how to quote

RETTO JR., Adalberto. Tramas urbanas e territoriais. Estratégias narrativas para recompor memórias no projeto da cidade contemporânea: a revisão do Plano Diretor Participativo de São Manuel – PDPSM. Arquitextos, São Paulo, ano 19, n. 227.03, Vitruvius, maio 2019 <http://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/19.227/7374>.

Per vedere una città, non basta tenere gli occhi aperti. Occorre per prima cosa scartare tutto ciò che impedisce di vederla, tutte le idee ricevute, le immagini precostituite che continuano a ingombrare il campo visivo e la capacità di comprendere. Poi occorre saper semplificare, ridurre all’essenziale l’enorme numero d’elementi che a ogni secondo la città mette sotto gli occhi di chi la guarda, e collegare frammenti sparsi in un disegno analitico e insieme unitario, come il diagramma d’una macchina, dal quale si possa capire come funziona. [...] É con occhi nuovi che oggi ci si pone a guardare la città, e ci si trova davanti agli occhi una città diversa [...] Ma è di qui che bisogna partire per capire – primo – come la città è fatta, e – secondo – come la si può rifare (1).

O presente texto foi elaborado por ocasião das pesquisas realizadas para a revisão do Plano Diretor Participativo do Município de São Manuel – PDPSM 2015-2016 (2). A reflexão feita à luz dos textos e ensinamentos do urbanista italiano, professor Bernardo Secchi (1934-2014), deriva da importância que esse intelectual deu à palavra racconto (3) como chave de interpretação e instrumento de estruturação de saberes disciplinares, fato concretamente observado a partir da experiência pessoal do urbanista com o Grupo de Pesquisa em Sistemas Integrados Territoriais e Urbanos – S.I.T.U. e da aplicação de sua metodologia de trabalho durante consultoria que ele prestou à equipe de revisão do Plano Diretor Participativo do Município de Agudos SP, em 2004 (4).

Durante aqueles dias de convivência em Agudos e pela visita à minha biblioteca pessoal, evidenciou-se que o que mais interessava à Secchi, em sua incessante curiosidade, não eram os livros e filmes em si, mas a dimensão literária que cada um poderia ter: como a capacidade que possuía de interpretar as características de uma sociedade, de evocar imagens que ajudariam o observador a tomar distância crítica do atual estado de coisas e alimentariam a tensão em direção ao futuro.

Na ocasião, o percurso a pé acompanhado de professores e alunos do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Unesp Bauru, ia além de mero exercício, pois reiterava o caráter investigativo e de aprendizado na cidade e com a cidade; as caminhadas eram propostas como verdadeiras estratégias para desvendar outros olhares, atravessando escalas, estratos e períodos históricos. A partir de suas indagações, Secchi demonstrava que o olhar não poderia se contentar em apenas reconhecer relações de causa e efeito entre situações e condições. Ele interpelava para que o olhar pudesse determinar a mudança a partir de um processo de acumulação e seleção, cuja continuidade e fratura, inércia e mudança, se opunham a uma leitura linear do tempo. Um exemplo importante desse método foi o trabalho sobre miolo de quadras, denominado de percolação, e que originou uma das mais inovadoras propostas incorporadas ao corpo da lei do Plano Diretor de Agudos (5).

No caso específico do município de São Manuel, o quadro de referências intitulado “A cidade que temos: leitura da realidade do município” aplicado nos planos diretores elaborados pelo Grupo S.I.T.U., perpassou três eixos temáticos – Cidade Memória, Cidade Acessível e Cidade Sustentável – e seguiu três níveis paralelos de leituras com diferentes formas de participação: 1ª – Escutar (ouvir falas e depoimentos de cidadãos, de grupos sociais e de políticos); 2ª – Revelar (absorver a dinâmica cotidiana através de levantamentos específicos feitos pela equipe de pesquisa em diferentes escalas – 1:500; 1:2.000 e 1:5.000); 3ª – Analisar (os dados recolhidos de forma  técnica e pertinente). As reuniões participativas visavam incluir os cidadãos dentro do processo, e subdividiram-se em reuniões de capacitação, de discussão e de pactuação (6).

Cidade memória, cidade acessível, cidade sustentável: a revisão do Plano Diretor Participativo de São Manuel – PDPSM

Como recordou o advogado Dr. Dion Castaldi na série semanal de entrevistas intitulada “Cidade Memória”, uma atividade levada a cabo pela rádio local, “para entender a história de São Manuel é preciso remontar à história do Brasil, pois de São Manuel não saíram apenas deputados, governadores”, uma vez que nas fazendas de terra roxa, como a do presidente Rodrigues Alves, sempre se discutia a política nacional (7).

Inclusive, em um primeiro momento o eixo Cidade Memória objetivou identificar os edifícios e espaços públicos, as paisagens significativas e capazes de narrar a história da cidade na sua complexidade. Nessa fase, algumas etapas ajudaram a conformar uma estrutura básica ou um pano de fundo sobre o qual a equipe fundamentou a proposta. Como estratégia de interlocução, a “Etapa Escutar” recolheu, a partir de consulta à população, alguns testemunhos da história ou da própria vida dos cidadãos, fragmentos de memórias muitas vezes esquecidos e negligenciados, mas que poderiam fazer emergir uma cidade invisível, já percorrida por infinitas vozes, esperanças e trabalho. Em vez de partir apenas para uma leitura técnica linear ou elaborar o elenco de bens passíveis de preservação por sua importância individualizada, conforme solicitado inicialmente pelo Conselho de Patrimônio (8) local, preferiu-se discutir o seu valor histórico na cidade, estabelecendo um diálogo direto com os atores envolvidos.

Como nas cidades de Italo Calvino, o mosaico formado por essa memória poderia fazer com que São Manuel discutisse seu patrimônio cultural de hoje, consolidando o que seria essa cidade da memória a partir das experiências de sociabilidade, formada por invisíveis redes de relações, de eventos e acontecimentos que transformam os espaços físicos da cidade, seus edifícios, praças, jardins e ruas. Só assim, a partir da criação desse mosaico de recordações, os elementos citados e muitas vezes inertes pela ação do tempo poderiam compor uma grande sinfonia para balizar o projeto da “nova cidade”.

O processo adotado na etapa seguinte, “Revelar”, por um lado partiu da observação atenta das relações travadas entre espaços abertos e construídos, das mudanças cotidianas e morfológicas, do uso e apropriação dos espaços, e suas ligações nas diversas camadas do tempo. Por outro lado, absorveu parte das propostas de campanha dos poderes Executivo (9) e Legislativo (10), sobrepondo assim, um possível calendário de obras.

O terceiro estágio: “Análise tecnicamente pertinente”, contou com o evento “Cidade Memória e a Memória da Cidade: Plano Diretor e estratégias de Preservação”, que possibilitou uma interlocução com especialistas e profissionais ligados ao Condephaat, com triplo objetivo: 1 – pensar estratégias de preservação a partir da valorização da história cultural da cidade em seu território; 2 – dar suporte formativo para o quadro de professores e profissionais locais para pensar formas de valorizar a história local; 3 – dar suporte para discussão da gestão e valorização do patrimônio artístico e ambiental, a partir de soluções criativas (11).

Na reconstrução dessas camadas, um olhar cuidadoso orientou a seleção de três escalas: a arquitetônica, com a transformação dos edifícios públicos acessíveis de valor histórico; a urbana, no desenvolvimento de uma trama urbana 100% acessível; e a territorial, a partir da concepção de um “Percurso Ecológico entre Reforma Fundiária e Jardim Produtivo: o Sistema Ecológico Territorial composto pelas sete rotas de São Manuel”, com introdução de agricultura alternativa. Uma abordagem resolutamente aberta do urbanismo à arquitetura, da pequena escala àquela mais ampla. A partir das tramas derivadas dessas narrativas e imagens, na escala urbana e na territorial, buscou-se recompor memórias para pensar o futuro da cidade em seu território mais amplo.

Essa postura minuciosa que em si já é uma narrativa – o “racconto” de Secchi, explora o fato prosaico, sem se distanciar de sua modificação. Ao contrário, absorve-a como elemento fundamental para a criação de novos cenários. Todas essas narrativas, presentes e passadas, nos levaram a imaginar contextos e ritmos do viver cotidiano em São Manuel, em uma descoberta quase antropológica da cidade em seu território, nos seus espaços multiplicados e distendidos, divididos e diversificados. Assim, o olhar se fixa na cidade como parte constitutiva da identidade narrativa de seus habitantes, de seus itinerários, movimentos e deslocamentos.

A partir dessas leituras, surgem diretrizes e propostas a serem incorporadas pelos projetos apresentados. Em vez de um plano somente normativo, a iniciativa propôs qualificar estruturas espaciais de percursos que absorvessem materiais urbanos existentes na cidade e em toda sua vasta área. A calçada, a faixa de segurança, o canteiro central, o jardim público, a guia de escoamento, o estacionamento de táxi, a própria rua, as fazendas, as trilhas históricas, tudo começou a fazer parte de um mesmo plano acessível. Assim, gradualmente constrói-se uma gramática urbano-territorial, passando da dimensão privada à pública, da pública à coletiva.

Desse modo, o projeto trouxe para si a capacidade de mirar e observar, de organizar e interpretar a cidade e seu território, para lançar-se na estética poética de um relato, de uma narrativa que aciona específicas categorias projetuais em escalas, também singulares. Por essa perspectiva, a cidade desponta como um tecido complexo de deslocamentos e percursos da sua população, herdeiros de momentos narrados e espaços construídos pela comunidade ao longo do tempo, expressos na trama das resistências e contestações dos grupos às transformações urbanas.

Nesse cenário, o plano e a análise do sítio foram instrumentos fundamentais para se projetar uma boa qualidade urbana, não mais com o intuito de produzir imposições, mas de trabalhar as possibilidades da forma e do espaço existentes como material do projeto da cidade. Essa abordagem projetual, atenta à dimensão ambiental do tecido urbano e à qualidade do espaço público, requer uma pesquisa que valorize a dimensão estética e a morfológico-funcional.

A escala arquitetônica, a reinserção paisagística de edifícios isolados, e a construção da trama urbana

Partiu-se de uma trama ideal, 100% acessível e democrática na sua essência que, ao se sobrepor na cidade real, isola alguns elementos urbanos e, ao mesmo tempo, promove a reinserção paisagística dos edifícios públicos de valor histórico. Ao superar o caráter “insular” dos edifícios fragmentados ao longo dos anos, foi possível conceber uma rede orgânica e sinérgica, recuperando a relação entre conservação e inovação no âmbito do projeto e do programa.

Tabela com resultado da consulta à população
S.I.T.U. [Imagem divulgação]

Tabela com resultado da consulta à população
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Tabela com resultado da consulta à população
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Tabela com resultado da consulta à população
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Tabela com resultado da consulta à população
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Tabela com resultado da consulta à população
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Edifícios históricos selecionados a partir da consulta à população, que coincidiu com o elenco que constava no relatório técnico elaborado pela equipe de revisão do plano e pelo conselho de patrimônio local
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Pelos edifícios escolhidos, perpassam diagonalmente as noções de acessibilidade – a Cidade Acessível – e de reconexão urbana, que orbitam entre duas polaridades reveladoras do percurso do projeto: a descontinuidade e a recomposição. Esse procedimento visa repropor o conceito operacional do tecido urbano, como também permite avançar no sentido da qualificação do espaço e renovação da escala arquitetônica da região central, como lugar possível de ser habitado. Teria assim, condições de conferir à cidade existente uma regeneração de natureza social. Assinala-se, dessa forma, uma dimensão estratégica para a própria trama urbana, onde é possível projetar em diversas escalas e acionar diferentes formas de regulação, exprimindo peculiaridades tanto no entorno imediato como no tecido mais dilatado da cidade.

Exercícios de acessibilidade
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Cronologia da Festa de Corpus Christi, que acontece na cidade desde 1953
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Esquema conceitual da trama urbana: layer 01 – edifícios isolados; layer 02 – tecido urbano; layer 03 – a trama urbana
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Logo, a chave reflexiva vivenciada durante o levantamento se reflete na sua imediata natureza projetual, baseada em eficaz estrutura cognitiva e interpretativa. O ato da experimentação surgiu durante o próprio percurso, a partir da indagação de novas formas capazes de gerar pressupostos e parâmetros originais de intervenção na cidade existente. Com a finalidade de propor uma recolocação na paisagem, a taxonomia da trama urbana aparece na forma de “destruição de muros”, na resolução de ruas com inclinações altas e médias a partir do leve encurvamento do traçado, na exploração das esquinas como pontos de visibilidade e percepção da cidade, e na estruturação de bordas (por dilatação e contração) acessíveis (jardim histórico), permitindo a continuidade do percurso de qualquer cidadão.

Reinserção dos edifícios públicos na trama urbana a partir de dilações, contrações, e percolação de calçadas, esquinas etc.
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Através desse léxico, percebe-se uma série de operações projetuais em diversas escalas e com diferentes possibilidades normativas. Na concepção da nova trama urbana, investigam-se estratégias regenerativas a partir das quais são identificadas as possibilidades reais de transformação do existente, inclusive por ações dos 3 Rs: de Renovação, Reuso e Reconversão, ou reciclagem (12), da menor escala àquela mais ampla. Além disso, essas propostas poderiam refundar a relação entre demolição e conservação nas preexistências históricas e contemporâneas e, assim, influir positivamente no assentamento morfológico. Dessa forma, na tentativa de articular os elementos de descontinuidades, a trama urbana emerge como narrativa possível de recomposição de memórias.

Entre reforma fundiária e jardim produtivo: o sistema ecológico territorial composto pelas sete rotas de São Manuel

Igualmente, na escala territorial, partiu-se da interrogação sobre o futuro da cidade e do seu território para assim definir alternativas e potencialidades. Os cenários apresentados consubstanciaram-se em estratégias de desenvolvimento turístico da cidade de São Manuel e colocaram-se como narrativas de situações de uso da aplicação do projeto, envolvendo usuários, processos e dados reais ou potenciais. A noção de devir, refletida na construção destes cenários, delineia uma sequência coerente e com explícitas hipóteses que visam explorar as competências do município e sua inserção histórica na região.

Para a construção do eixo Cidade Sustentável, partiu-se da percepção de que um novo sentido e papel poderiam ser dados à agricultura, explorando possibilidades que, de um lado, permitem a integração da produção das grandes fazendas à cidade – percurso histórico do café e, por outro lado, conjugam valores tradicionais e econômicos para permitir a sobrevivência de uma paisagem histórica (13).

O verde na cidade
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

A criação da Rota do Café seria um grande resgate histórico-cultural de uma das mais importantes regiões produtoras de café do estado. A proposta é levar as pessoas a uma incrível imersão cultural, por meio de visitas às fazendas históricas e produtivas, espaços de lazer e cultura, santuários ecológicos, pousadas, restaurantes e aos mais diversos locais que revelam a história e os aromas do café na região e no Brasil. A proposta é instaurar uma economia estratégica com condições de intervir no vasto território, transformando-o em um “sistema flexível de produção alimentar” a partir de faixas de terras de ocupação, conjugando a lógica biocompatível, a agricultura, o cultivo e o uso de técnicas regenerativas que permitem repensar a economia da pequena produção dentro do projeto da cidade contemporânea.

Esquema do Plano de Mobilidade
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Plano Estrutural da cidade e do seu território
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Trata-se de um projeto coordenado com regulações e incentivos à agricultura orgânica e familiar nas bordas da cidade, envolvendo todas as etapas da cadeia: produção, armazenamento, transporte, consumo e reciclagem; e com isso, constituir tramas territoriais (rotas) de produção agrícola ao redor do município, visando conter a expansão desregulada da mancha urbana e o desmatamento das franjas da cidade. Consegue-se, assim, evitar a ocupação predatória do território, através da consciência ambiental e do incentivo à produção, mitigando um dos graves problemas de segregação espacial da cidade que é a ausência de oferta de trabalho nas áreas periféricas.

A trama territorial sugere a definição de rotas de agricultura alternativa que garantam o acesso às linhas de financiamento federal para o fomento da agricultura familiar, incluindo ações de capacitação. Ao mesmo tempo a prefeitura deve garantir um mercado para essa produção, por um lado, incentivando sacolões e feiras de produtos orgânicos e por outro, realizando uma ampla política de compras públicas para utilização na alimentação escolar. Na revisão do Plano Diretor e de Turismo de São Manuel, o caminho foi elaborar propostas para criação de sete rotas territoriais com o objetivo de explorar a relação das redes ecológicas com as ferramentas do planejamento urbano e regional, baseando-se em normas e experiências já consolidadas no nível nacional e internacional.

Em um município de forte tradição agrícola, com economia articulada à malha de exportação internacional, mas com pouca influência no desenvolvimento da economia local, tal formulação desenvolveu-se com um duplo fito: o papel do ecopaisagismo para responder, além dos objetivos ecossistêmicos do ecoturismo, aos cenários de proteção e valorização das preexistências históricas como paisagens culturais (as rotas das grandes fazendas, reservas arqueológicas, linhas ferroviárias e estações, etc.); e o estabelecimento de uma ligação entre agricultura urbana, cultura alimentar e planejamento urbano. Elo esse para explorar situações que pudessem trazer à tona o debate sobre Reforma Fundiária a partir da construção de um sistema ecológico territorial, pensado como “Jardim Produtivo”, onde a cidade veria e viveria o compartilhamento social e a experimentação econômica entre paisagem produtiva, paisagem cultural e paisagem social, introduzindo o conceito de sistema alimentar como novo modelo de gestão urbana e territorial.

Uma vez que São Manuel faz parte do Polo Cuesta, o conceito de rede ecológica assume imediatamente a escala regional, começando dessa forma a ser delineado como trama multifuncional capaz de produzir sinergias com as diversas políticas concorrentes no âmbito da gestão territorial e do meio ambiente, constituindo-se infraestrutura de articulação regional e de construção do sentido do território.

Articulação histórica do território a partir de um sistema ferroviário regional
Imagem divulgação [S.I.T.U.]

Logo, a paisagem alimentar se tornaria um lugar real e metafórico, no qual fatores econômicos, políticos, sociais e culturais estariam articulados na perspectiva da cidade ressurgir como catalisadora para o seu território, a partir da noção de "paisagem produtiva", incorporando modelos de governance e de government, orientando estrategicamente os investimentos estruturais. Em resumo, o desenvolvimento econômico parece ser o verdadeiro motor da evolução territorial, aquele que é moldado e contido na paisagem rural em seu sentido mais completo. De certa forma isso afeta as relações de produção, tecnologias, políticas, mas produz efeitos específicos e consequências óbvias de ordem física, tanto no território como na paisagem.

As rotas ecológicas, portanto, constituem-se em ferramentas estratégicas para atender ao objetivo geral de preservar os potenciais recursos naturais existentes, criticamente e economicamente valorizados, mantendo-os para garantir uma qualidade aceitável à preservação do meio ambiente e da paisagem.

A reconstrução do passado como narrativa de encaixe: a paisagem, forma mentis do urbanismo

Como então dar conta da vida comum, da rotina? De que maneira se interroga o cotidiano? De que forma se pode descrevê-lo?

Partiu-se do entendimento de que a arquitetura, como linguagem, comunica hipóteses do uso da área, ou seja, da mesma forma que possui implicações urbanísticas, ela é capaz também de recompor memórias. Apoiou-se na validade cultural do espaço arquitetônico em seu contexto social e ambiental, mas também, no aprofundamento de leituras dos períodos históricos da cidade, no seu território e na arquitetura vista como espaço cenográfico, pictórico, escultórico, decorativo e multimidiático. A consciência das camadas temporais leva-nos a uma experiência dimensional que se refere ao elemento arquitetônico de pequena escala, entendido como de infraestrutura e decoração do urbano, do espaço fechado e aberto, do tecido monumental ao espaço urbano, no contexto de importância histórico-ambiental. Ou seja, o projeto arquitetônico é aqui compreendido como operação integrada do decoro urbano, da cenografia e da cena urbana.

É importante olhar a paisagem tomando certa distância das interpretações convencionais ligadas ao caráter fixo do modelo conservacionista e da abordagem puramente visual. Na concepção da trama urbana e do Percurso Ecológico, assim como no Plano de Mobilidade, a paisagem tornou-se forma mentis do urbanismo. Se, por um lado, isso está condicionado ao projeto, às suas técnicas e abordagens cognitivas (múltiplas escalas, integração entre redes, relações entre processos, dinâmicas ambientais e forma urbana), por outro, encarna o princípio de bem comum como sentido próprio e constitutivo de “espaço compartilhado”.

A paisagem são-manuelense, nesse contexto, afirma-se como dimensão estrutural do pensamento projetual do urbanismo: marca a natureza de bem comum do território, entendido como extraordinário patrimônio de recursos, com seus componentes ecológicos, naturais, culturais, mas também econômicos. Uma noção intersetorial e comunicativa, pois mostra percursos inovadores tanto ao plano, como para o projeto, contribuindo para regenerar a noção de sustentabilidade, essa necessária para acionar componentes da economia ligados à cultura. Isto é, a paisagem possibilita modos plurais de repensar a cidade no seu território e assim permite pensar a “nova questão urbana”, através de formas projetuais que reforçam e despertam a atenção para a ecologia e para o ambiente.

A paisagem torna-se assim a forma interpretativa para compreender a transformação do território contemporâneo, pois nos permite ler a constante interação entre sedimentação histórica, práticas e tradições, entre o natural e o construído. Sendo assim, a paisagem tem papel relevante nas transformações da cidade, possui papel ativo das suturas e fraturas que podem ser determinadas para repensar os espaços entre as coisas, sob a forma de espaço público aberto e não construído, aquele que leva em consideração a sua natureza e sua ecologia.

A atenção à paisagem incide nas formas, nos modos e nas técnicas de conhecimento do território, de sua descrição e valorização em termos de riscos e valores, crítica e recursos; inclui o tema das infraestruturas, da regeneração da cidade consolidada, da recuperação de áreas degradadas e marginais, dos ciclos de vida e do metabolismo urbano, da reciclagem e do reuso. Diz respeito, ainda, à habitabilidade da “cidade pública” e seus espaços, às relações entre rural e urbano, entre arquitetura e território; às questões da interação entre natureza e cultura, entre cidade e paisagem, no crescimento e evolução dos fenômenos atuais.

Nessa (re)construção do passado, parte-se de diferentes recursos para reanimá-lo:  uma voz, um lugar, um espaço, um tempo, um olhar; esses e outros mecanismos são utilizados como modos de recuperar a memória perdida. Os cenários construídos durante a consulta à população colocam-se assim, como relatos compostos por outros relatos (de moradores, visitantes, da construção dos objetos arquitetônicos, da fisicalidade da cidade e do território), os quais se assemelham ou resgatam a forma da cidade no território em vários tempos, onde uma história é evocada para completar outras. Fala-se em narrativa de encaixe, porque irá reunir pequenas sínteses em várias escalas e temporalidades para que o todo seja/esteja completo. Logo, a posse de certa informação (fragmento de memória) poderá esclarecer outra apontada anteriormente (anáfora), ou uma outra que ainda virá (catáfora, como devir).

Falar de paisagem dessa forma, forma mentis do urbanismo, significa dizer que ela não é um fundo a ser contemplado ou um cenário imóvel sobre o qual se movem práticas e atores da cena urbana. Significa reconhecê-la pelo seu valor de produtora de conhecimento, em suma, a paisagem como “horizonte possível”.

À guisa de conclusão

O pensamento de Secchi nesse contexto, advindo da metodologia que até o momento é utilizada nos trabalhos realizados pelo Grupo S.I.T.U., funda-se nos modos de interpretar, compreender e projetar as transformações da cidade e dos territórios contemporâneos. Entender que essa cidade tem uma forma diferente daquela observada na cidade antiga e na moderna, o que leva à necessidade de formular uma nova estratégia cognitiva através de exercícios reiterados de descrições, os quais assinalam um percurso de reaprendizado a partir da própria cidade.

Dessa forma, em sua estrutura e estratégia de recomposição, o projeto parece transitar e oscilar entre a narração efêmera e os valores duráveis dos espaços, iluminado durante a ação projetual na concepção de cada cenário, e individualizado pelos planos pontuais de valorização capazes de enraizá-lo no tempo histórico da cidade. Tal procedimento, que pretende atingir seus objetivos baseando-se na qualidade das transformações do espaço físico e do meio ambiente, tenta criar um valor agregado que, a partir de três conceitos, faça convergir múltiplas estratégias de ações individuais e coletivas, públicas e privadas.

O primeiro conceito observa a cidade e suas partes construídas, decompostas e que perderam a articulação outrora existente, ou seja, a articulação entre os espaços públicos e as edificações, entre a própria imagem urbana e seu limite. O segundo fundamenta-se na tentativa de recompor a cidade mediante uma nova ideia de revitalização ambiental urbana, que se estabelece na correta apreensão dos aspectos arquitetônicos e paisagísticos em relação às formas, materiais, equipamentos, percursos, elementos naturais e à presença de agregações sociais, culturais, recreativas e lugares de memória. O terceiro, por fim, instaura-se a partir da qualificação de novas regras que, ao explorarem a dimensão contemporânea da cidade histórica, atualizam o significado atribuído aos traços históricos e à inserção de novos valores e novas formas.

O escopo que essa “nova forma” de projeto assume é o de indagar sobre estratégias de funcionalização e requalificação de edifícios e espaços em cidades, cujos centros históricos têm ainda forte apelo identitário. Portanto, tem o objetivo de esclarecer como a pesquisa projetual contemporânea pode interagir com a estrutura urbana e, em particular, com sua parte antiga, superando a antinomia entre modernidade e conservação. O entendimento de que o tecido urbano é também patrimônio passível de ser tutelado, além do edifício e das tipologias, leva-nos à reconsideração do conceito de historicidade dos materiais urbanos.

Graças à sua investigação contínua, Secchi escreve seu último livro, La città dei ricchi e la città dei poveri (14), abordando problemas urbanísticos relevantes a partir de sua experiência no Brasil, iniciada em Agudos. A nova cidade por ele descrita possui um horizonte possível onde as figuras elaboradas evocariam os espaços ou os modos de habitar de uma sociedade minoritária, onde as dinâmicas de segregação e integração fariam emergir um inédito sistema de compatibilidade e incompatibilidade entre diversos usos, sujeitos e práticas capazes de nos dar a consciência de que atuar sobre a cidade contemporânea comporta um esforço contínuo de reescrita.

notas

1
CALVINO, Italo. Gli dei della città. In: Una Pietra Sopra. Milano, Mondadori, 1995, p. 347.

2
Plano de Mobilidade do Município de São Manuel: Lei n° 3.850, de 09 de junho de 2015 (Projeto de Lei nº 42/2015 de autoria do Executivo Municipal) que “Dispõe sobre acessibilidade e mobilidade urbana no contexto da Política Nacional de Mobilidade Urbana e dá providências”. Plano Diretor Participativo de São Manuel: Lei Complementar nº 014, de 22 de setembro de 2016. Equipe do Grupo S.I.T.U. – São Manuel. Coordenador científico – Prof. Dr. Adalberto da Silva Retto Júnior (Unesp Bauru); colaboradores: arquitetos Eriton Tantini e Eraldo Rocha; estagiários: Stéfani Salvato dos Santos, Fernando César Ferreira Massarico, Marina Nunes, Felipe Ramos, Letícia Salemme; equipe da Prefeitura (coordenação): Cláudia Leme, Caio Silva e arquiteto Helio Caserta Paravani.

3
SECCHI, Bernardo. Il racconto urbanistico: la politica della casa e del territorio in Italia. Torino, Einaudi, 1984.

4
RETTO JUNIOR, Adalberto da Silva; SECCHI, Bernardo ; CONSTANTINO, Norma Regina Truppel ; ENOKIBARA, Marta . O Laboratório Agudos. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 114.04, Vitruvius, nov. 2009 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.114/13>.

5
RETTO JUNIOR, Adalberto da Silva. Agudos, uma cidade em transformação. O projeto particularizado do centro histórico e a coletivização do espaço privado. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 157.04, Vitruvius, ago. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.157/4853>.

6
RETTO JR, Adalberto da Silva; SECCHI, Bernardo; CONSTANTINO, Norma Regina Truppel; ENOKIBARA, Marta; MAGALHÃES, Kelly Cristina. Op. cit.

7
No caso específico do eixo Cidade Memória, participam das discussões preliminares e organização: o Conselho Municipal de Patrimônio Histórico do Município de São Manuel; Mobiliza São Manuel; e as diretorias de Educação e de Cultura. No eixo Cidade Acessível, as diretorias de Turismo, Segurança Pública e Transporte, Direitos da Pessoa com Deficiência, Indústria e Comércio, Promoção Social e de Obras. No eixo Cidade Sustentável, a Casa da Agricultura; e as diretorias Meio Ambiente, Esporte e Turismo, Segurança Pública e Transporte e de Obras. Outras diretorias, como as de Comunicação, Saúde e Cultura participaram de discussões quanto à definição das Estratégias de Interlocução e Participação. Ainda, dependendo de demandas específicas, outras diretorias foram acionadas como as de Negócios Jurídicos e Obras. Além disso, houve uma interlocução direta com o Poder Executivo e Legislativo da cidade, colocando-os como integrantes do processo reflexivo e construtivo do Plano Diretor, inclusive discutindo as propostas individuais das suas campanhas.

8
Conselho do Patrimônio Municipal de São Manuel: Dra. Maria Isabel Tedesco Meira Leite de Araújo, Ciro Moss d’Avino, Arnaldo Catalan Junior, Dr. Valmir Roberto Ambrozin, Arq. Maria Aparecida Bezerra.

9
Executivo (2015-2016) – Prefeito: Marcos Roberto Casquel  Monti; Diretoria de Educação: Luciano Giacóia; Diretoria de Obras: Wilson Sakamoto acompanhado por Eugenio Augusto Innocenti e  Benedito Freitas; Diretoria de Agricultura e Meio Ambiente: Luiz Eduardo Ricardo; Diretoria de Gestão e Serviços: Ademir José Ayres; Diretoria de Direitos de Pessoas com Deficiência: Rubens José da Silva. Trabalhos acompanhados e secretariado por: Olga Aparecida Fulan Tedesco; Diretoria de Esportes e Turismo: Zigomar Augusto Junior; Diretoria de Comunicação: Neto Nítolo; Diretoria de Cultura: Rodrigo Pinheiro Machado José; Biblioteca Municipal: Aparecida Toledo Crotti; Diretoria de Administração: Cláudia Maria Leme Lourenção; Diretoria de Negócios Jurídicos: Dr. Lourival Gonzaga Micheletto Junior. Trabalhos acompanhados por Dr. Silvio Roberto Mazzeto (in memorian); Setor de Convênios: Caio Roberto Gerzely da Silva.

10
Vereadores (2013-2016) – Dr. Omar Paulo Zaparoli, Lila,  Nice Paiva,  Jair Micheleto,  Cláudio Enfermeiro, Waldir Coelho,  Sílvio Franco,  Buca,  Tiago Ragozo,  Pezão,  Doca da Sabesp,  Letícia Castaldi.

11
Cidade Memória e a Memória da Cidade: Plano Diretor e estratégias de Preservação, São Manuel, 25 e 26 de setembro de 2015. Programa do primeiro dia: 11h – Recepção dos palestrantes e convidados no Museu Municipal de São Manuel pelas autoridades e Conselho de Patrimônio / 13:30h – Percurso Histórico no Centro Histórico de São Manuel / 16h – Abertura do Evento / 16:15h – Arquiteta Valéria Rossi (Vice-presidente do Condephaat), – Ferrovias e Cidades: História e Memória da Estrada de Ferro Sorocabana. Profa. Dra. Ana Luiza Martins (Historiadora FFLCH e Conselheira do Condephaat) / 16:45h – Tombamentos de Conjuntos Urbanos pelo Condephaat: breve trajetória e práticas atuais. Arq. José Antônio Zagato (técnico da UPPH do Condephaat) / 17:30h – Fazendas de Café. MS. Arq. Elizeu Marcos Franco (UPPH do Condephaat) / 18h – A obra do engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928) no contexto da Primeira República. Prof. Dra. Maria Cristina Wolf de Carvalho (FAAP) / 18:30h – Arquiteto Paisagista Reynaldo Dierberger e o processo de modernização do interior paulista. Prof. Dra. Marta Enokibara (Unesp Bauru) / 19:30h – A criação do Conselho de Patrimônio como estratégia de preservação da cidade de São Manuel e seu território. Dr. Valmir Ambrozin (Presidente do CPM de São Manuel) / 19:45h – A trama urbana como estratégia narrativa de recuperação de memórias: entre a cidade memória e a cidade acessível. Prof. Dr. Adalberto da Silva Retto Jr. (Coordenador científico da revisão do Plano Diretor Participativo de São Manuel e Conselheiro do Condephaat) / 20:15h – Cidade Memória x Cidade Sustentável. Eng. Agrônomo Jose Marcos Leme (Casa da Agricultura). Programa do segundo dia: Percurso nas Fazendas Históricas de São Manuel. MS. Arq. Elizeu Marcos Franco (UPPH do Condephaat).

12
Ver: AYRAULT, Philippe (org.) Rénover, réutiliser, reconvertir le patrimoine. Actes du colloque de la Région Ile-de-France 15-16 sept. 2014. Paris, Région Île-de-France, Somogy Editions d’Art, 2015, p. 117-135.

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Esteve à frente dos trabalhos a Casa da Agricultura de São Manuel na figura do Eng. Agrônomo José Marcos Leme. Houve o apoio das Fazendas, Sítios, Paróquia Aparecida de São Manuel, Faculdade IMES de Aparecida de São Manuel, Capela de Santa Cruz no Bairro dos Machados, Faculdade Marechal Rondon, como também do Conselho Municipal de Turismo: Rafael  Rondina Pupo, Mário Pupo da Silveira Filho, Paulo Turchiari, Profª Ilze, José Antonio Melchiori Bolognesi, 1º Ten. Ricardo de Souza Cunha, Dra. Ana Carolina Brito Machado, Tânia Cecília Tavares Casquel, Maria Beatriz G. Barros Martorelli, Solange Bomtempo de Almeida Costa, Felipe Eugenio Troiano de Godoy, José Eduardo Garcia, Jefferson Willian Garavello de Souza, Simone Maria Pampado Casquel D’Avino, Lígia Aparecida Figueiredo Corulli, Elaine Cristina Rodrigues Tomazini, Celisa Maria Bertaglia Luizetto.

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SECCHI, Bernardo. La città dei ricchi e la città dei poveri. Roma-Bari, Laterza, 2013.

sobre o autor

Adalberto da Silva Retto Júnior, professor de Urbanismo da Unesp – Bauru e coordenador do Curso Internacional de Especialização lato sensu em Planejamento Urbano e Politicas Públicas: urbanismo, paisagem, território. 

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