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research

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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Analisa os conceitos cruciais para compreensão da complexidade de projetos urbanos em frentes d’água e a chance de recuperação dos rios urbanos. Constitui uma matriz que relaciona o processo de criação e implementação dos projetos.

english
It analyzes the crucial concepts for understanding the complexity of urban projects on water fronts and the chance of recovery of urban rivers. It is a matrix that relates the process of creation and implementation of the projects.

español
Analiza los conceptos cruciales para comprender la complejidad de proyectos urbanos en frentes de agua y la posibilidad de recuperación de los ríos urbanos. Constituye una matriz que relaciona el proceso de creación e implementación de los proyectos.


how to quote

ALVIM, Angélica Benatti; COSTA, Rodrigo Ramos e; ALVES, Karina Dominici. Projetos urbanos em frentes d’água. Diretrizes e o potencial de transformação das orlas fluviais na cidade contemporânea. Arquitextos, São Paulo, ano 19, n. 222.01, Vitruvius, nov. 2018 <http://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/19.222/7170>.

O artigo visa discutir os conceitos fundamentais para compreensão da complexidade dos projetos urbanos em frentes d’água. O principal objetivo é apresentar um quadro conceitual no qual serão relacionados as principais dimensões e elementos que devem ser levados em consideração no processo de formulação, implementação e gestão de projetos urbanos em frentes d’água.

Síntese de pesquisa acadêmica (1), a metodologia se desdobra em duas etapas: discussão dos fundamentos teóricos que amparam os conceitos de projeto urbano e frentes d’água; e apreensão das principais diretrizes que nortearão três experiências internacionais consideradas importantes referencias de projetos de intervenção em bordas fluviais, a saber: Los Angeles River Revitalization Master Plan, Los Angeles, EUA; MRIO, rio Manzanares, Madri, Espanha; Cheonggyecheon Restoration Project, Seul, Coreia.

As frentes d’água, conhecidas internacionalmente como waterfronts (2), apresentam-se como fundamentais ao equilíbrio ambiental e de seus ecossistemas, constituindo paisagem natural e cultural que têm sido alvo de intervenções antrópicas há muito tempo. Todavia, os cursos d’água que cruzam o meio urbano sofrem um processo de degradação contínuo, que é agravado com a precariedade do saneamento básico, a crescente poluição ambiental, as alterações hidrológicas, geomorfológicas, desmatamento, assim como a ocupação irregular de suas margens e várzeas alagáveis.

Ao longo do século 20 as modificações nos rios objetivando navegação fluvial, abastecimento, defesa, proteção contra cheias, desvios de leito, problemas de drenagem e insalubridade originaram diversos projetos de intervenção por todo o mundo (3). Entretanto, promovidos sob a ótica do desenvolvimento econômico, seus objetivos e efeitos foram reavaliados e severamente criticados. Os impactos decorrentes desses modelos de intervenção geraram graves consequências e originaram alterações substanciais na integridade dos cursos d’água em termos ecológicos. O excessivo controle dos cursos d’água acaba excedendo a capacidade natural de regeneração dos ecossistemas em seu equilíbrio dinâmico. Desse modo, os efeitos desses projetos de intervenção levaram à artificialização dos sistemas fluviais, com a modificação do seu regime e dinâmica, alterando e destruindo as comunidades biológicas, componentes do seu ecossistema.

Projetos urbanos e frentes d’água: conceitos e princípios

Os territórios das frentes d’água são uma das principais oportunidades para as cidades contemporâneas se reinventarem e se expandirem internamente (4). Contando com a mais valia da paisagem, devido à presença de água, essas áreas representam um potencial relativo à capacidade de dinamizar cidades, surgindo como tendência global e emergindo como oportunidades para reconexão e reequilíbrio entre as águas e as cidades do século 21.

Os projetos urbanos que buscam intervir em frentes d’água são entendidos aqui como responsáveis por promover transformação física de bordas ou margens de rios e mares localizados junto ao meio urbano, visando à substituição ou transformação de morfologias e do solo subutilizado. Essas intervenções realizam-se num quadro de grandes investimentos e parcerias entre setores públicos e privados, apresentando geralmente alta complexidade não somente financeira, mas de constituição, implantação e gestão. Condicionada historicamente, a noção de projeto urbano supera atualmente o entendimento do projeto como simples desenho, e se apresenta como ferramenta de análise e negociação. Um instrumento cuja elaboração, expressão, desenvolvimento e execução revelam as potencialidades e as limitações que são impostas pelos atores e interesses, pelas condições locais, circunstâncias e acontecimentos (5). Enquanto instrumento mediador de interesses heterogêneos e tensões inerentes aos territórios desigualmente configurados, devem representar os interesses coletivos (6). Destaca-se o importante papel que exerce a participação da sociedade durante todo o processo, assim como a busca pela redução das desigualdades socioterritoriais, a qualidade do ambiente humano e o desenvolvimento local sustentável.

Com início nos Estados Unidos da América (EUA), por volta da década de 1960, verifica-se que a implementação de projetos urbanos em frentes d’água volta-se para a criação de áreas relacionadas ao turismo de massa, cultural e de lazer, com vistas a alimentar a economia urbana das cidades.

A partir da década de 1980 projetos de intervenção urbana em frentes d’água emergem na Europa (7). Inspirados pelo modelo estadunidense, esse tipo de projeto passa a se afirmar como uma fórmula internacional de sucesso para a atração turística, mas em muitos casos, são propulsores de expulsão da população residente devido ao fato da valorização imobiliária que agrega. Associam-se, em geral, com a criação de novas centralidades que apresentam alto poder de atração de fluxos econômicos e sociais. Esses projetos urbanos frentes d’água buscam a criação ou recriação da imagem de territórios e cidades com o objetivo de atrair novos fluxos locais e globais, utilizando o programa de equipamentos culturais e edifícios icônicos (8). Complementando ainda esta estratégia midiática, observa-se a frequente contratação de arquitetos de renome internacional, tanto para os projetos de desenho urbano, quanto para o desenvolvimento de seus principais edifícios. O mercado imobiliário, todavia, com seu viés puramente econômico e apoiado pelo apelo imagético e midiático, vem comandando o tom dessas intervenções oferecendo projetos impactantes voltados quase que exclusivamente as classes mais altas da sociedade. Consequentemente, devido a este corriqueiro caráter elitista, ocorre ao mesmo tempo uma requalificação e uma gentrificaçãodestes territórios (9).

Nas cidades europeias, observa-se muitas intervenções relacionadas a antigos territórios industriais (10). Trata-se de territórios abandonados que geralmente contém construções e edificações de alto valor histórico e por isso, grande capacidade de fortalecimento ou criação de uma identidade local. Essa criação ou recriação de uma identidade proporciona uma polêmica discussão e recebe severas críticas, pois em muitos casos, se criou uma imagem falsa que não condiz com a verdadeira herança histórica, com a identidade ou características especificas daquele território. O modelo, contudo, tem como parte do discurso a manutenção e o fortalecimento das características urbanas locais, conexões com áreas adjacentes, assim como o respeito às preexistências construídas e ambientais, fundamentais ao reequilíbrio desses territórios.

Na Ásia, as intervenções em frentes d’água intensificam-se a partir da década de 1990. São utilizadas para criar uma imagem da cidade, visando sua projeção dentro da competição mundial entre cidades que buscam liderança e atração de fluxos e capitais. Estas intervenções costumam apresentar grande diversidade programática, além de serem as pioneiras na prática de incorporar programas de habitação popular. Diferem-se de intervenções na Europa ou Estados Unidos por apresentarem escalas bem maiores. É comum a criação de novos territórios, que se prolongam água adentro com a construção de plataformas e ilhas artificiais.

Na América Latina, apesar de certa diversidade de experiências (11) e abordagens, não se encontra uma amostragem tão representativa de projetos de intervenção em frentes d’água de grande escala. Verifica-se que mesmo com a presença de megacidades com escalas similares às asiáticas, não é comum às cidades latinas o investimento na reafirmação de uma imagem para sua consequente projeção dentro do mercado global. Essas intervenções privilegiam, em sua maioria, o capital privado ao invés dos interesses coletivos da cidade, colocando em prova os interesses por trás de tais intervenções, assim como o papel do Estado e órgãos reguladores.

Apesar da usual relevância atribuída aos critérios arquitetônicos ou econômicos, algumas experiências buscam incorporar o respeito às preexistências ambientais, superando fragilidades de seu ambiente natural. O desenvolvimento urbano respeitando os ecossistemas e a biodiversidade é, simultaneamente, uma necessidade e mais valia que as cidades não devem perder (12). Ora se as questões ambientais estão totalmente interligadas com as questões sociais, não é surpresa o fato de que as sociedades e cidades caracterizadas por desigualdades sofrem intensa privação social e causam danos ainda maiores ao meio ambiente (13).

Sob essa perspectiva, projetos urbanos em frentes d’água deveriam apresentar-se como oportunidade ideal para se reequilibrar o ambiente natural e o construído, procurando resolver problemas ambientais (como drenagem urbana) e eliminando atividades poluidoras, que devem dar lugar a espaços com qualidade ecológica e ambiental, trazendo benefícios sociais, culturais, econômicos e ecológicos.

Outra característica fundamental das frentes d’água é o fato de apresentam um caráter naturalmente público, inerente a sua condição. Logo, devem ter como prioridade o interesse público e o uso coletivo, constituído por espaços de qualidade e que proporcionem o acesso à água. Esses espaços coletivos, se bem projetados, apresentam-se como excelentes estratégias não só de reconexão entre a população e as águas, mas também para integração entre o tecido urbano novo e suas áreas envoltórias.

O projeto urbano enquanto instrumento urbanístico demanda certa flexibilidade de abordagem, formulação e regulamentação (14). De modo geral, integra diretrizes de um plano urbanístico mais abrangente, e depende de parcerias entre os setores público e privado. Consequentemente, apresenta árduos desafios, relacionados principalmente à articulação entre os diversos atores envolvidos e seus interesses. Como forma de fomentar essa articulação de modo mais adequado e ameno, assim como promover a gestão do projeto em si, utiliza-se em muitos casos, a criação de organismos de gestão específicos (15). Estes órgãos de gestão devem ser compostos por representantes públicos, privados, associação de moradores, comerciantes e representantes de cada um dos atores envolvidos.

O papel fundamental do poder público é saber claramente seus objetivos e o que deseja para a cidade (16). Desse modo, este deve estabelecer condições mínimas, a fim de garantir resultados favoráveis ao interesse coletivo, exercendo assim papel de mediador entre as distintas visões, com as quais deve produzir sinergias e chegar a compromissos que não podem romper com seus objetivos estratégicos. Os regulamentos urbanísticos são as figuras centrais nas alterações das frentes d’água, percebendo-se assim, o dever de respeito pela gestão e planejamento urbano por parte das entidades públicas (17). As entidades públicas devem se esforçar em criar regras, ao mesmo tempo incentivadoras e limitantes, o que requer competências técnicas e profissionais muito mais elaboradas (18). Assim sendo, há necessidade de se incorporar especialistas de alto nível, capacitando então os órgãos e profissionais reguladores.

Sem pretender esgotar o tema, os projetos urbanos em frentes d’água apresentam grande complexidade social e cultural e atuam em diferentes escalas, além de uma ampla variedade de objetivos, ideias, valores, que resultam em múltiplas estratégias. Algumas dessas estratégias, contudo na prática, acabam se sobrepondo e/ou apresentando diferentes intensidades, de acordo com cada contexto no qual o projeto é formulado e se insere. São elas: geração de uma nova centralidade; reconstituição e regeneração dos ecossistemas; mistura social; requalificação de áreas patrimoniais (centros históricos, áreas industriais degradadas); provisão de novas moradias, serviços e espaços públicos; novos equipamentos culturais e ou mobilidade; criação de paisagens e espaços públicos agradáveis; utilização midiática e de eventos como estratégia de marketing (19).

A seguir, busca-se apresentar de forma sistemática algumas importantes experiências internacionais de projetos urbanos em frentes d’água, buscando extrair quais os principais aspectos que foram considerados visando a integração entre cursos d’água e o ambiente urbano da cidade contemporânea.

Projetos urbanos em frentes d’água: experiências internacionais

A seleção dos estudos de caso priorizou experiências recentes e localizadas em diferentes continentes, buscando explorar maior diversidade de contextos geográficos, culturais e econômicos. O critério de escolha desses projetos internacionais foi baseado em algumas características e similaridades encontradas entre eles e o rio Tietê (20), a saber: a ocupação das áreas de várzea, a existência de vias expressas, o uso do solo, a existência de vazios urbanos, a escala ampla e os objetivos. Não é propósito da pesquisa comparar os casos e sim indicar especificidades, diretrizes, estratégias, tendências e desafios relativos à integração dos cursos d’água ao meio urbano na contemporaneidade.

Los Angeles River Revitalization Master Plan – LARRMP, Los Angeles, EUA

No trecho urbanizado da cidade de Los Angeles (EUA), o rio, que leva seu nome, percorre um canal de concreto, construído para controle de inundação nas épocas mais chuvosas, levando as águas pluviais para o mar. Com um leito de 51,5 km revestido de concreto, o rio atravessa 10 distritos, 20 bairros e 10 áreas do plano setorial da cidade, afetando aproximadamente 3,8 milhões de habitantes (21).

Contextualização

A ocupação das margens do rio iniciou-se a partir de 1850, quando a população de Los Angeles cresceu exponencialmente, graças à procura pela mineração de ouro. No início dessa ocupação, o rio era utilizado tanto para abastecimento de água quanto como meio de transporte de mercadorias e pessoas. Em 1876 foi instalada uma ferrovia ao longo do leito do rio, atraindo indústrias para o local. Com o passar dos anos, a urbanização crescente, a ocupação da várzea pela ferrovia, por rodovias e indústrias geraram problemas não apenas de ordem ambiental, mas também de ordem urbana e social; a sua função de transporte foi marginalizada e a população acabou isolada do rio. No século 20, dada a frequência da ocorrência de inundações, a Corporação dos Engenheiros do Exército dos EUA foi incumbida pelo Congresso de canalizar o rio Los Angeles. A partir de então, o rio foi tratado como um indesejado obstáculo da cidade.

Origens do projeto

A iniciativa de revitalização do rio iniciou-se em 1990, com alguns movimentos pró-revitalização. Em 2002 foi aprovado e legalizado o Comitê de Revitalização do rio Los Angeles e, em 2005, o Plano Diretor de Recuperação do Rio Los Angeles (22).

Devido à impermeabilização da várzea, os problemas de inundações persistiam, a poluição do rio gerava problemas nas praias onde desemboca e, além disso, havia a preocupação com a saúde pública: a falta de “áreas públicas livres para recreação e esporte, atividades que são importantes fatores de prevenção de doenças” (23).

Canalização do Los Angeles River
Foto Pacific Southwest Region USFWS, set. 2014 [Wikimedia Commons]

Atores

Muitos são os atores envolvidos no projeto de revitalização do rio Los Angeles: Agências governamentais locais, estaduais e federal, organizações não governamentais, a Corporação de Engenheiros do Exército dos EUA, os grupos sem fins lucrativos Friends of the Los Angeles River (Amigos do Rio Los Angeles – Folar) e o Conselho das Microbacias dos rios Los Angeles e São Gabriel, o Centro de Estudo de Cidades Sustentáveis e o Instituto do Meio Ambiente de Los Angeles (ambos da Universidade da Califórnia), além da sociedade civil, como os moradores, líderes comunitários etc. Estão ainda associados ao projeto urbano, os escritórios Mia Lehrer & Associates, Landscape Architecture, Civitas Urban Design, Planning, Landscape Architecture; Wenk Associates Landscape Architecture and Planning, e a empresa Tetra Tech (24).

Objetivos e diretrizes

Foram definidas quatro metas principais para revitalização do rio: criação de um sistema linear de infraestrutura verde, conexão entre o rio e os bairros envoltórios, criação de atrativos e oportunidades para a comunidade, valorização da qualidade de vida da população (25). As diretrizes, definidas para se fazer cumprir as quatro metas mencionadas, também foram divididas em quatro grandes grupos: diretrizes relativas à revitalização do rio (como melhorar o tratamento da água, recuperar a vegetação de várzea, reestabelecer a funcionalidade ecossistêmica), diretrizes relativas aos Bairros Verdes (entre elas criar um caminho verde único na cidade, ampliar os espaços públicos, conectar o rio aos bairros), diretrizes relativas à captação de oportunidades para a comunidade (envolver a população local no processo de construção e planejamento, adaptar as áreas industriais ao conceito de “eco-industrial”, tornar o rio um patrimônio cultural) e diretrizes relativas à valorização socioeconômica e ambiental (promover a qualidade de vida, aumentar a oferta de emprego, moradia e comércio).

Normativas e instrumentos

O rio foi dividido em nove trechos, definidos por suas características, deficiências e potencialidades próprias, entre elas: variações geométricas do canal, capacidade de inundação, condições hidrológicas, qualidade da água, valor do habitat, possibilidade de transportes não motorizados e potencial recreativo. Com visões em diferentes períodos e prazos, apresenta objetivos flexíveis e instrumentos para que as comunidades participem ativamente do processo projetual e das diretrizes de execução. Foi prevista a adoção de uma nova estrutura de governança, que busca aumentar a eficiência da gestão do projeto. Além disso, são previstos mecanismos para diminuir o processo de gentrificação (comum em planos de requalificação), como cotas para as unidades residenciais, programas de assistência às famílias e incentivo a pequenos negócios.

Para o planejamento de médio prazo (5 a 15 anos) estavam ainda previstos o desenvolvimento do acesso público e das áreas recreativas, a melhoria da qualidade da água e a implantação de vias de transporte não motorizado. Na faixa do longo prazo (acima de 15 anos), estava previsto o restabelecimento das funções naturais do rio.

Propostas e resultados

As principais propostas do Plano de Revitalização do Rio Los Angeles são: valorizar as várzeas alargando sua área, recuperando a vegetação e removendo as paredes de concreto, inserir ciclovias e faixas de caminhadas, melhorar a conexão intraurbana e o acesso ao rio, melhorar o tratamento das águas, melhorar os espaços públicos, incentivar as tipologias diferentes e gerar novos empregos em galerias, lojas de serviços, cafés e restaurantes.

MRio, Madri, Espanha

O rio Manzanares se localiza em bacia hidrográfica com cerca 112 quilômetros, se iniciando a 2.258 metros de altitude na Serra de Guadarrama, e desembocando no rio Jarama, a 527 metros acima do nível do mar. Afetando uma população de aproximadamente 6,4 milhões de pessoas.

Banhistas desfrutam das águas do rio Manzanares em 1946
Foto Manuel Urech

Contextualização histórica

Por volta dos anos de 1950, o rio Manzanares foi alvo de canalização e diversos tipos de intervenção que prejudicaram não somente os recursos hídricos, mas também a cidade. Reforçada pela prática comum à época, despejo de lixo e esgoto não tratado no rio acaba por danificar sua qualidade ambiental e afastam de vez a população, que nas décadas anteriores utilizavam o rio para lazer.

Posteriormente o rio Manzanares foi comprimido pela via expressa chamada M30. Implanta-se ao longo de 6 quilômetros de suas margens o primeiro grande anel viário que circunda a cidade e cuja construção faz 30 anos.

Implanta-se nessa área de Madri um projeto de renovação urbana de aproximadamente 97 km de novas rodovias e um túnel de 56 km. Esta ação devolveu a Madri 8 km de margem do rio e 150 hectares de espaço público aberto, em seis anos a partir de 2004.

Origens do projeto

O principal motivo que impulsionou o projeto foi a constatação de que as grandes avenidas comprimiram o rio e fizeram desaparecer os vínculos entre a cidade e o rio. Considerado um obstáculo, a cidade dava as costas para o rio.

A possibilidade de enterramento do M30 impulsionou a utilização dessas bordas fluviais, antes ocupadas pelas vias expressas, em áreas prioritariamente públicas. Além disso, o evidente desequilíbrio ambiental verificado pela diminuição do fluxo e volume de água do rio, inclusive com sua total seca durante os mais recentes períodos de verão, o que nunca foi comum.

Atores

Em 2003, o então recém-eleito prefeito de Madri, Alberto Ruiz Gallardón, tomou a decisão de colocar o anel viário dentro de um túnel.

Para revitalizar o local foi feito um concurso internacional, “Madrid Calle 30”, para a realização de um projeto de espaços públicos sobre a superfície que seria liberada com o enterramento da via expressa. Os ateliês Burgos & Garrido Arquitetos, Porras La Casta, RAS e West 8, foram os vencedores do concurso.

Objetivos e diretrizes

Sob o slogan “Mais Rio – Mais Madri”, o objetivo principal do projeto foi reconectar o rio à cidade e vice-versa, como se Madri fosse mais um acontecimento ao longo do leito do rio, com novos espaços verdes, equipamentos públicos, boulevard, ciclovias, passeios de pedestres, etc.

A proposta de Garrido incluía inclusive uma praia fluvial no parque Arganzuela, ideia tirada da consulta popular feita pelo município.

Em vez de fazer um único grande projeto, a equipe decidiu dividir a área em três planos estratégicos e um total de 47 subprojetos desenvolvidos com um orçamento de 280 milhões de euros. Os três principais planos eram: o “Salón de Pinós”, a “Huerta de la Partida” e o “Parque de la Arganzuela”.

O “Salón de Pinós” é um parque linear com mais de 8.000 árvores, conectando a “Casa de Campo” (atualmente um parque) ao “Parque de la Arganzuela”, onde encontra as pontes históricas de Segovia e Toledo. Dessa forma o corredor verde é ampliado em jardins. A proposta da equipe também incluiu a recuperação das áreas de esporte, a construção de novos edifícios públicos, bem como 1.600 residências onde antes havia um estádio de futebol (26).

Normativas e instrumentos

A implantação do projeto foi dividida, em primeiro lugar na restauração do local, depois instalação de todas as propostas feitas.

Em 2007 foram entregues as primeiras transformações: 2 km da avenida Portugal transformaram-se no novo boulevard urbano de Madri, com cerejeiras plantadas dos dois lados.

Fontes avenida Portugal, Madri
Foto DavidJGB [Wikimedia Commons, set. 2010]

É uma das principais avenidas da cidade, em um bairro residencial de alta densidade e conecta-se com a “Casa de Campo” (um antigo campo para caçadas, hortas e pomares do rei). Foi também transformada em um pomar, a “Huerta de la Partida”, como no passado. Duas novas pontes para pedestres foram inauguradas em 2010, que conectam dois distritos da cidade, Arganzuela e Usera, até então separados pela M30.

O “Parque de la Arganzuela” encontra-se ao sul do rio Manzanares, sendo um espaço verde de 35 hectares. Dentro dele há 20 metros de faixas para ciclistas e pedestres, quiosques, caminhos sombreados e um novo local para exibições, o “Matadero Centro del Artes”, no local do antigo matadouro da cidade. O parque foi aberto ao público em abril de 2011 (27).

Propostas e resultados

Atualmente, a intervenção oferece à cidade de Madri um ambiente com cerca de 2ºC a 3ºC mais fresco (em uma cidade que chega a 40ºC no verão). Assim como 42 quilômetros de caminhos para pedestres, 32 quilômetros de ciclovias, 11 novos espaços de recreação para crianças e idosos, um novo centro de artes, uma praia fluvial e uma melhor acessibilidade e mobilidade entre os bairros. Nadar é proibido, mas o rio terá um novo píer com barcos para aluguel. Além disso, o fluxo do rio e a biodiversidade vêm aumentando e na avenida Portugal, o preço do metro quadrado residencial dobrou.

Onde antes era um local de tráfego, barulho e poluição, hoje é um lugar de uso misto, tranquilo, arborizado, símbolo do progresso de Madri. O rio, antes considerado um obstáculo, ignorado pela cidade, hoje é um ponto de atração e referência.

Cheonggyecheon Restoration Project – CRP, Seul, Coreia do Sul

Dados gerais

O rio Cheonggyecheon possui quase 15 km, dentro da cidade de Seul, metrópole que tem quase 11 milhões de habitantes e a área do projeto é de 5,4 km.

Contextualização histórica

No século 14, o rio Cheonggyecheon tratava-se quase de um córrego, que corria para o rio Han na direção leste-oeste. Entretanto, seu leito é extremamente variável de acordo com o regime de chuvas. Por conta disso e das consequentes inundações, a cidade formal de Seul não se estabeleceu tão próxima ao rio, mas este foi sempre um marco histórico e referencial. Foco também de transmissão de doenças, no início do século 20, suas bordas foram ocupadas por habitações irregulares. Fato que contribuiu, por muito tempo, para a degradação e poluição do rio.

Favelas ao longo do rio construídas por refugiados da Guerra das Coreias, por volta de 1950
Imagem divulgação

Alegando, então, a segurança e o bem-estar da população que ali vivia, os governantes iniciaram projeto para a retificação do Cheonggyecheon. Durante os anos 1910 e 1945, o Japão ocupou a Coreia como sua colônia, dando continuidade à política de retificação do rio.

Em 1948, quando os coreanos formaram a república e entraram em guerra civil, o rio foi coberto por uma via pública que variava de 50 a 90 metros. Junto com ela a cidade ganhou um mercado ao ar livre, além de empresas e comércios ao seu redor. Entre 1967 e 1976 foi construída a via expressa elevada Cheonggyecheon, um símbolo da modernidade e do automóvel na ditadura do general Park Chung-Hee, instalada em 1961.

Já em 2003, depois de detectados problemas nas estruturas principais do elevado, optou-se pela execução de um projeto de remoção do elevado e a abertura do rio. Reconstruindo 5 quilômetros e meio do rio, a céu aberto, dentro de área urbana muito densa e formando 400 hectares de parque linear junto ao rio. Um projeto sofisticado e ambicioso para a recuperação do Cheonggyecheon que exigiu a remoção de 620 mil toneladas de concreto e a implantação de novas soluções coletivas para o transporte urbano, que possuía um volume de 140 mil veículos diários (28).

Origens do Projeto

Em 2000, discussões que ocorriam desde a década de 1990 para destruir a via elevada e restaurar o rio como um lugar de recreação ganhou força. A campanha do candidato à prefeitura da cidade Myung-Bak Lee baseou-se nessa plataforma e, quando eleito em 2002, as obras começaram. Depois de 27 meses e com o custo de 380 milhões de dólares o projeto terminou.

Atores

O projeto foi concebido pelo governo metropolitano de Seul, sob a direção do vice-prefeito, urbanista e paisagista Yun-Jae Yang, com a ajuda de dois consórcios de engenharia, selecionados por concurso. Ao longo do processo, outros profissionais também fizeram parte, como engenheiros, consultores, arquitetos e paisagistas. Na pesquisa em questão, não se evidenciou a participação da sociedade civil.

Objetivos e diretrizes

Com o objetivo de trazer o rio novamente ao contato da população e sendo parte de um plano maior do centro da cidade, o rio Cheonggyecheon ganhou quatro grandes cruzamentos, cada um destacando eixos da cidade: o eixo cívico, o eixo da mídia, o eixo verde e o eixo criativo.

Rio Cheonggyecheon após intervenções
Foto Ken Eckert, maio 2011 [Wikimedia Commons]

Propostas e resultados (impactos econômicos, sociais e ambientais)

O medo de um tráfego insuportável nunca se materializou. O governo proveu mais transporte público. A resistência da população na apresentação do projeto e no início da execução das obras acabou e hoje esta mesma população se orgulha dos seus técnicos e gestores públicos que trouxeram de volta vida e o rio.

A largura da margem foi aumentada em 20%, considerando o nível mais alto das cheias nos últimos 200 anos. Vinte e duas pontes foram construídas, incluindo uma antiga ponte cerimonial, que na época da Dinastia Joeson levava ao palácio. Um enorme projeto paisagístico foi feito, com instalações de artes públicas, caminhos ao longo do rio para pedestres, além de um centro comunitário no centro da cidade.

Com exceção da dificuldade de preservação histórica e do aumento significativo do valor das propriedades ao redor do projeto, a requalificação do Cheonggyecheon gerou resultados positivos. Todo o processo foi resultante de uma política que adotou o desenho urbano em benefício dos cidadãos. Em termos de meio ambiente, a reabertura do rio melhorou a qualidade do ar em 35%, diminuiu a temperatura e o efeito de ilha de calor na cidade (3,30ºC a 5,90ºC), aumentou de 2,2% a 7,8% a velocidade do vento ao longo do corredor verde e ainda proporcionou o aumento da biodiversidade. Em termos econômicos, os distritos de negócios e de moda de Dongmaemun aumentaram sua atividade econômica e ganharam vida noturna, com atrações que trouxeram de volta as pessoas ao rio e à essa parte da cidade.

Diretrizes da formulação, implementação e gestão de projetos em bordas fluviais

Os projetos de recuperação de cursos d’água apresentados no item anterior tiveram como propósito integrar ambiente e meio urbano, concebendo ações locais num contexto de planejamento urbano e regional participativo.

Com base nos principais conceitos quanto nos casos analisados, a seguir organizamos um quadro que sintetiza as principais dimensões (ambiental, urbana, social, econômica e gestão) e um conjunto de elementos, formados por objetivos, diretrizes e ações estratégicas, que a nosso ver deveriam ser considerados no processo de formulação, implementação e gestão de projetos urbanos de bordas fluviais.

Quadro conceitual – dimensão ambiental
Elaboração Rodrigo Ramos e Costa

Quadro conceitual – dimensão urbana e social
Elaboração Rodrigo Ramos e Costa

Quadro conceitual – dimensão econômica e gestão
Elaboração Rodrigo Ramos e Costa

Por fim, a recuperação e reintegração dos cursos d’água ao meio urbano depende de uma concepção sistêmica e integrada que priorize a paisagem, os interesses ecossistêmicos e de coesão social, respeitando assim a essência das frentes d’água. Verifica-se ainda que a incorporação das dimensões acima sintetizadas se apresenta como importante ao desenvolvimento de projetos urbanos localizados nas bordas fluviais.

A reintegração dos cursos d’água à dinâmica da cidade contemporânea deve conciliar paisagem natural e artificial pressupondo a interligação das dimensões social, econômica e ecológica. O comprometimento público, para além do papel do Estado, envolvendo todos os atores, com ampla participação da sociedade civil e sua sensibilização para o valor das águas na paisagem urbana é condição fundamental para o sucesso das intervenções.

notas

1
Artigo elaborado com base na dissertação de Rodrigo Ramos e Costa, Projetos Urbanos em Frentes d’água: Limites e Desafios Ambientais. O Arco Tietê em São Paulo e nas pesquisas desenvolvidas por Angélica Benatti Alvim no grupo de pesquisa “Urbanismo contemporâneo: redes, sistemas e processos” do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenize – PPGAU FAU-Mackenzie.

2
Para fins desta reflexão, interessa-nos limitar o uso do termo frente de águas ou waterfront restringindo-o às frentes d’água localizadas em áreas urbanizadas que apresentam rios em interface com áreas subutilizadas ou vazios urbanos. Neste artigo utilizaremos também o termo bordas fluviais, de forma não excludente, especificando apenas as áreas junto às margens de cursos d’água que atravessam cidades, particularmente em áreas degradadas com presença de intensa ocupação das várzeas e conflitos de drenagem.

3
SARAIVA, Maria da Graça Amaral Neto. O rio como paisagem: gestão corredores fluviais no quadro do ordenamento do território. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.

4
PORTAS, Nuno (Org.). Cidades e frentes de água: mostra de projetos de reconversão urbana em frentes d’água. Porto, Centro de Estudos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Porto, 1998.

5
ASCHER, François. Os novos princípios do urbanismo. Coleção RG Bolso. São Paulo, Romano Guerra, 2010.

6
ALVIM, Angélica Aparecida Tanus Benatti; ABASCAL, Eunice Helena Sguizzardi; MORAES, Luís Gustavo Sayão de. Operação Urbana Consorciada e projeto urbano em São Paulo: limites e desafios. In Anais do I Enanparq. Rio de Janeiro, Enanparq/Faperj/Proarq FAU UFRJ, 2010.

7
PORTAS, Nuno (Org.). Op. cit.

8
SÁNCHEZ, José Manuel Pagés. Frente ribeirinha e cidade: equipamentos públicos culturais como solução de conexão e regeneração. Dissertação de mestrado. Lisboa, Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, 2011.

9
CARDOSO, Filipa Alfaro. Waterfronts: cidades de água. Dissertação de mestrado. Lisboa, Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia, 2009.

10
SÁNCHEZ, José Manuel Pagés. Op. cit.

11
Como é o caso do Porto Madero em Buenos Aires, Argentina.

12
PORTAS, Nuno (Org.). Op. cit.

13
COSTA, Rodrigo Ramos e. Projetos urbanos em frentes d'água: limites e desafios ambientais: o arco Tietê em São Paulo. Dissertação de mestrado. São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2014.

14
ASCHER, François. Op. Cit.

15
PORTAS, Nuno (Org.). Op. cit.

16
BORJA, Jordi. El espacio público: ciudad y ciudadanía. Madrid, Electa, 2003.

17
BUSQUETS, Joan. Ciudades, X formas : una nueva mirada hacia proyecto urbanístico. Cambridge, Nicolodi, 2006.

18
ASCHER, François. Op. Cit.

19
BORJA, Jordi. Op. cit.

20
Os casos foram escolhidos de forma a contribuir com a pesquisa maior, que tem como objeto central o rio Tietê, em seu trecho localizado em São Paulo, e o Projeto do Arco Tietê.

21
GORSKI, Maria Cecília Barbieri. Rios e cidades: ruptura e reconciliação. São Paulo, Editora Senac São Paulo, 2010.

22
Idem, ibidem.

23
Idem, ibidem, p. 149.

24
Idem, ibidem.

25
Idem, ibidem, p. 152.

26
BULLIVANT, Lucy. Masterplanning futures. Abingdon, Routledge, 2012.

27
A+T. Strategy Space, Nº 37. Espanha: A+T Architecture Publishers, 2011.

28
BUSQUETS, Joan. Deconstruction / Construction – The Cheonggyecheon restoration project in Seoul. Cambridge, Harvard University Press, 2011.

sobre os autores

Angélica Aparecida Tanus Benatti Alvim é arquiteta e urbanista, mestre e doutora pela Universidade de São Paulo – FAU/USP (1996, 2003) e professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie desde 1991, onde atualmente exerce o cargo de diretora (2016-2019).

Rodrigo Ramos e Costa é graduado (2008) e mestre (2014) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua profissionalmente com projetos, sendo sócio proprietário do escritório MIB21 Arquitetura e Urbanismo.

Karina Dominici Alves é arquiteta e urbanista graduada em 2017 pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, sendo atualmente mestranda na mesma instituição.

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