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arquiteturismo ISSN 1982-9930

Rodovia Washington Luis, interior do Estado de São Paulo. Foto Abilio Guerra

sinopses

português
Este texto trata sobre Stedelijk BASE, onde uma nova forma de solucionar o problema do percurso e circulação dentro do espaço expositivo foi proposta.

english
This text discusses about Stedelijk BASE, where a new way of solving the problem of the circulation of the exhibition space was proposed.

español
Este texto discute sobre Stedelijk BASE, donde una nueva forma de solucionar el problema del circulación del espacio expositivo fue propuesta.


como citar

TAGLIARI, Ana; FLORIO, Wilson. Stedelijk BASE, uma proposta de um percurso dinâmico para o espaço expositivo. Uma metáfora da cidade por Koolhaas e Martelli. Arquiteturismo, São Paulo, ano 13, n. 147.04, Vitruvius, jun. 2019 <http://pop.www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/13.147/7385>.


Koolhaas e a circulação em arquitetura

A ideia de se investigar o tema da circulação não é novidade. Importantes pesquisas são conhecidas envolvendo esse amplo tema, com diferentes abordagens e objetivos. Intuitivamente, esse tema pertence ao universo de pesquisa do arquiteto e podemos observar que está mais fortemente relacionado ao período moderno com espaços fluidos e contínuos.

Na contemporaneidade Rem Koolhaas é o arquiteto que expressa bem, em seus escritos e em seus projetos, indagações sobre a questão da circulação em arquitetura. O elevador, por exemplo, que fragmenta a e interfere na percepção e relação dos espaços, e a escada rolante, que conduz a um movimento contínuo e lento pelo espaço, são elementos de investigação conceitual para o arquiteto, que de certa maneira tem relação com a vida e cidade contemporânea.

Este texto está vinculado a uma pesquisa que investiga projetos de Rem Koolhaas a partir da abordagem a respeito do sistema e elementos de circulação, em suas várias dimensões. A ideia é relacionar teoria e prática, ou seja, a relação entre seus escritos e sua obra arquitetônica. Assim, a partir de visitas, desenhos de observação e análise, levantamentos a partir de fontes primárias, são analisados os projetos.

Museu Stedelijk, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Apresentamos um breve relato e reflexão da visita realizada em 2018 ao Museu Stedelijk em Amsterdam, particularmente a galeria BASE, concebida por Rem Koolhaas, Federico Martelli (AMO) e Margriet Schavemaker (Stedelijk), focando nas suas ideias sobre percurso e circulação no espaço expositivo na contemporaneidade.

Uma circulação não óbvia para o acervo permanente de arte moderna e contemporânea

Cinco anos após a inauguração da extensão do Museu Stedelijk ocorrida em dezembro de 2017, foi aberta a Stedelijk BASE, uma nova instalação com curadoria e concepção de Rem Koolhaas, Federico Martelli (AMO) e Margriet Schavemaker (Stedelijk). Cerca de 700 peças de obras de arte moderna e contemporânea do acervo permanente do Museu Stedelijk de Amsterdam passaram pelo estudo cuidadoso dos curadores para que, desta maneira, este conhecimento pudesse ser organizado e espacializado.

Museu Stedelijk, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Na extensão do Museu Stedelijk a instalação foi organizada a partir de duas lógicas de percurso: uma cronológica, com início em 1880 e segue o perímetro do ambiente; e a outra está organizada no centro do ambiente por temas históricos, sociais, autorais e icônicos, espacializados por meio de planos verticais expositores concebidos por Rem Koolhaas e Federico Martelli, configurando caminhos e percursos, ambientes de permanência e transição, que estabelecem uma metáfora com a cidade.

A disposição das obras por temas foi planejada a partir da história individual e coletiva de cada obra de arte, oferecendo ao visitante a possibilidade de criar conexões e inter-relações, de modo não habitual, diferente da organização linear tradicional do espaço expositivo.

Museu Stedelijk, Amsterdam, expografia da galeria BASE
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

A conexão entre os dois pavimentos da exposição ocorre por meio de escadas rolantes, elemento de circulação tão presente nas obras de Koolhaas. Um ambiente de transição entre o pavimento inferior e superior insere o visitante num choque de cores e mensagens, e uma imersão em palavras e frases de efeito. Além de muitas escadas como de costume nas obras de Koolhaas. A instalação é de Barbara Kruger.

Museu Stedelijk, Amsterdam, escadas no hall conectam com o piso intermediário, onde está a instalação de Barbara Kruger
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Rem Koolhaas explica o projeto pelo áudio guia do museu, e afirma que "o percurso criado deveria ser uma metáfora da cidade, com espaços de circulação e surpresas, lugares interessantes, extraordinários e alguns nem tanto, normais”. A instalação é descrita pelo museu como “an open-ended parcours”, e Koolhaas observa a experiência da visita como a de circular pela cidade, com ruas, praças, avenidas, e a possibilidade de encontros inesperados.  A intenção foi promover um percurso com fluidez para o movimento, apropriado ao mundo contemporâneo, diferente do museu tradicional, considerado opressor pelo arquiteto.

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Martelli observa que o mundo contemporâneo apresenta múltiplas camadas de informação e esta multiplicidade estimula curiosidade. A narrativa não linear e as múltiplas camadas de possibilidades visuais e informações oferecidas, está alinhada ao modo de vida contemporâneo das pessoas. O visitante pode criar atalhos e circular livremente pelo espaço a partir do que chamar mais sua atenção, criando conexões e associações com diferentes artes de modo inusitado e inesperado, fazendo com que a curiosidade guie sua visitação.

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

O percurso proposto rompe com o modo tradicional de circulação em espaço expositivo, quebrando dogmas e oferecendo liberdade na experiência do espaço e na rede de relações possíveis. As possibilidades de percursos geradas pela espacialização criada reforça a possibilidade de relações cruzadas e conexões entre obras de arte, e compartilhar narrativas, sem direcionar caminhos.

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam, sequência de fotos ao rés-do-chão
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam, sequência de fotos ao rés-do-chão
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam, sequência de fotos ao rés-do-chão
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

A ideia inicial é que esta instalação seja dinâmica e efêmera, e dentro de cinco anos seja reconfigurada e transformada para anteder as novas demandas dos visitantes.

A mostra oferece arte em diferentes expressões como pintura, escultura, colagens, arquitetura, mobiliário e design. Cézanne, Van Gogh, Picasso, Malevich, Rothko, De Kooning e Pollock. Uma réplica do dormitório Harrenstein de Gerrit Rietveld and Truus Schröder-Schräder’s de 1926 foi construída. O visitante é naturalmente convidado a subir um lance de escadas para poder continuar o trajeto e sua apreciação de obras de design do arquiteto holandês. O percurso pela estreita escada conduz ao balcão superior que tem uma vista cuidadosamente planejada, reveladora e surpreendente, onde o visitante pode observar toda a exposição do BASE e sua organização a partir de um ponto de vista superior.

Museu Stedelijk, escada e galeria BASE, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

O sistema com planos verticais expositores de aço desenvolvido de modo inovador e usufruindo mais alta tecnologia permitem que os visitantes percorram os caminhos livremente e tenham visuais importantes da exposição a partir de cada ponto de localização. Portanto, a ideia de salas ou galerias fragmentadas é excluída desta concepção que privilegia o domínio visual do todo pelo visitante.

Os planos verticais são de aço com 15mm de espessura, cortados a laser e desenhados de modo a oferecer estabilidade ao que se suporta, produzidos em parceria com Stedelijk, Arup e Tata Steel. Os planos são tão finos como telas, e promovem a fluidez, leveza e flexibilidade pretendida para o espaço. São posicionados em diagonais e ângulos oblíquos entre eles, criando ambientes estreitos e amplos, oferecendo percursos não óbvios aos visitantes, além de visuais e perspectivas convidativas, inusitadas e surpreendentes. O uso do preto e branco também contribui para o dinamismo e contraste entre os planos.

O visitante pode escolher livremente seu percurso e criar conexões inesperadas entre arte, arquitetura, design, moderno e contemporâneo. Todos os elementos remetem ao movimento e fluidez do espaço, inclusive o desenho do forro e da iluminação.

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam, sequência de fotos com vista superior
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

O modo tradicional de organização do espaço expositivo torna-se, portanto, algo a se revisar. O mundo contemporâneo demanda uma nova abordagem e a proposta oferece uma experiência de espaço como na cidade, onde a cada esquina há uma descoberta, um percurso, um ambiente mais amplo ou mais acolhedor, com visuais amplas, fluidas e também sugestivas.

O espaço encoraja o visitante a optar por diferentes percursos no espaço, para descobrir com liberdade.

O material utilizado nos painéis revela outra ruptura com relação ao material normalmente adotado em exposições, reconhecido por Koolhaas em 2014 na Bienal de Veneza e no seu conhecido texto Junkspace, onde o arquiteto trata de alguns imperativos modernos como a verdade dos materiais e as divisórias em drywall que pretendiam flexibilidade e eficiência.

O projeto da BASE está alinhado com o a tradição do Museu Stedelijk na experimentação e inovação em suas exposições. Koolhaas afirma que quando adolescente costumava visitar o Stedelijk quase que diariamente, e que fez parte de sua formação. As exposições que ele visitou certamente fazem parte deste repertório importante que contribuiu para esta concepção. O arquiteto menciona particularmente uma exposição de 1962 chamada Dylaby (Dynamic Labyrinth).

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Esta nova maneira de espacialização e circulação proposta promove maior uma rica conexão entre as obras de arte num só espaço único e fluido.

Apesar de apresentar ideias interessantes, a instalação não agradou a todos. Aaron Betsky publicou críticas à concepção de Koolhaas e AMO, deixando claro que considera o espaço um caos, algo extremamente caro e um desserviço à arquitetura e a arte. Por outro lado, muitos críticos elogiaram a proposta e a experiência do espaço.

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

Neste contexto, envolvendo arte, conhecimento, percurso e múltiplas conexões, cabe recordar dois projetos excepcionais. O primeiro é o Atlas Mnemosyne de Aby Warburg da década de 1920.

Entre 1924 a 1929, num projeto radical e inovador, Warburg realiza o Atlas Mnemosyne, uma história da arte centrada e contada apenas por imagens e sem o recurso textual. Atlas Mnemosyne é formado por 2000 mil fotografias extraídas da imensa coleção reunida por Warburg, dispostas em 63 grandes suportes de telas negras esticadas sobre painéis de 1,50m por 2,00m. O espaço ocupado para a exposição foi a sala de leitura da Kulturwissenschaftliche Bibliothek Warburg –  um espaço elíptico, que sugere um saber cíclico e sem fim. George Didi-Huberman procura dissecar e explicar de forma clara e detalhada o Atlas Mnemosyne e identifica quatro conceitos que estruturam o Atlas Mnemosyne: painéis, fusões, detalhes, intervalos. Conceitos que parecem ir de encontro com a proposta do Stedelijk Base.

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

O segundo projeto de inestimável importância que cabe recordar é a proposta inovadora e revolucionária de Lina Bo Bardi para o espaço expositivo do Masp em 1968, de expor as obras de arte em cavaletes de cristal desenhados pela arquiteta, criando um espaço fluido e sem limites definidos. As obras de arte parecem flutuar num espaço transparente, integrado visualmente com a cidade, assim como o próprio museu flutua na Avenida Paulista.

A proposta de Lina rompe com a lógica museológica tradicional, onde o percurso do visitante é guiado pela organização do curador. A ideia de Lina foi, e ainda é transgressora, inovadora e muito criativa.

Trata-se de diferentes modos de propor percursos.

Museu Stedelijk, galeria BASE, Amsterdam
Foto Ana Tagliari / Wilson Florio, 2018

nota

1
Stedelijk Base, Museumplein 10 - 1071 DJ Amsterdam. Aberto todos os dias das 10h às 18h. Sexta-feira das 10h às 22h. Adultos 18,50 euros/ Estudantes 10 euros/ Crianças e jovens até 18 anos gratuito.

sobre os autores

Ana Tagliari é arquiteta (FAU Mackenzie), docente e pesquisadora da Unicamp.

Wilson Florio é arquiteto (FAU Mackenzie), docente e pesquisador na Universidade Mackenzie e Unicamp.

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147.04 exposição
sinopses
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original: português

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